PASTÉIS DE VENTO

quarta-feira, junho 01, 2016 0 Comments A+ a-



Das poses da vida, sempre procurava a melhor luz.
Conhecia horários como as próprias tatuagens, era fina em seus pequenos desejos. Nada deveras exagerado, apenas o básico para quem não aceita que o coração bombeie sangue para sonhos impossíveis. Só o que se podia tocar, só o que a respiração aguentava, uma espécie de nobreza que todo realismo adoraria ser vestido.

Limites respeitados, linhas nunca cruzadas, fronteiras intimidadoras. Não pelo receio do desafio, mas pela beleza engraçada do conformismo. De agradecer pelo que se tem e não ansiar pela incerteza do que não cabe na caixinha de esperanças.
Então nunca esperava. Vivia verbos no presente, sem qualquer enfeite no embrulho do cotidiano.

Nenhum acaso registrado, nenhum ineditismo inspirando expectativas. Apenas a existência livre e linear.
Ser inotável permitia captar a distração apaixonante das pessoas. Todo o embaraçamento natural e reações desastradas desenhavam rugas de felicidade atrás de suas lentes.

Deixou mudos quem ousou falar. Deixou falantes quem não sabia o que dizer.
E sua gagueira proposital era uma maneira de prolongar os poucos momentos que tinha de conversa.

Defendia a beleza exterior acima de tudo, e além de suas câmeras e fotografias, carregava consigo uma interrogação capciosa. Todos que conseguiam sua admiração e confiança, levavam junto com seu tímido sorriso, uma pergunta:

- Se a beleza interior não importa, por que o mundo odeia pastéis de vento?


Imagem: Unsplash

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.