FELIZES DECEPÇÕES

terça-feira, abril 26, 2016 0 Comments A+ a-



A sorte nunca bajula os preguiçosos. Felizmente ninguém precisou contar com ela pois não houve uma única vez que o relógio tocou antes das 10 horas da manhã.
Se não era possível virar a mesa, sempre se pode virar para o outro lado e dormir mais alguns daqueles cinco minutos que duram o dia todo. 

Eu vejo que estamos num final de sonho, onde de olhos fechados tudo quase parece dar certo. Antes dos compromissos nos acordarem, ainda sonolentos, é aqui que o futuro não nos assombra. Quando temos a proteção dos lençóis - a fortaleza de cetim capaz de bloquear o mundo sem graça - somos praticamente invencíveis. 

Revisitamos desejos por puro capricho, afinal, sabemos de cor o que nunca poderemos ser. Assim se sonha com o travesseiro macio e a consciência pesada por entender que o que é impossível é mesmo impossível. E que a superação é uma sopa de letrinhas incapaz de formar uma palavra completa. Um biscoito sem recheio que esfarela pelo sofá. Assim como tudo o que apenas imaginamos funcionar um dia. 

Se todos realizassem seus próprios sonhos, o mundo seria um pesadelo. Um caos de pasmaceira. Uma tragédia para roteiristas.
A verdade é que o anseio de um significa o fracasso retumbante do outro.
O que alimenta um sucesso repentino é a catástrofe do terceiro.
Saiba que se você sorri está se alimentando da mais sincera decepção de alguém. A cada dente mostrado, e a cada ruga de expressão criada por duvidosa felicidade, lágrimas estão temperando o jantar da pessoa do outro lado.

Esse é o balanço das emoções humanas, ligadas por um estranho véu de reações.

Talvez isso desarme a gratidão. Mas dizem que o planeta fica melhor sem armas.

TODO CAOS É IRRESISTÍVEL

domingo, abril 17, 2016 4 Comments A+ a-



Os furacões que se formam dentro da sua boca antes de cada sílaba pronunciada nunca foram detectados por nenhum serviço de proteção às tempestades. Combina com minha predileção pelo mau tempo, fazendo gotas de chuva disfarçarem lágrimas de felicidade quando capturo algum sorriso seu ao contrário.

Batendo de frente com sua frente fria, quase não sinto falta do telhado que foi arrancado por um dos seus ventos tropicais. Enquanto uns colecionam raios de sol matinais, eu me contento com pontos de alagamento.

A temperatura cai, suas roupas também. Com a luz apagada, você relampeja.
Se ouvisse meus trovões, saberia que estamos na mesma estação e poderíamos abrir mais corações do que guarda-chuvas.

Por mais que seus passos sejam terremotos de 9,5 graus na escala Lover, nada é mais poderoso que os tremores da sua cintura. Um abalo sísmico no mais calcificado dos ossos e no mais seguro dos caráteres.

De todas as maravilhas do mundo, eu escolhi o seu desastre natural.


Imagem: Betina Dupont