O OTIMISTA NO ÚLTIMO ANDAR

quarta-feira, novembro 04, 2015 2 Comments A+ a-




É o último andar e eu olho para o otimismo contando os passos no térreo. Encara o primeiro de um milhão de degraus sem desviar os olhos pois talvez saiba que, no céu que quase estou, mereço o melhor.
Não fala minha língua mas entende que silêncios fazem de todos poliglotas. Então marcha pelos andares, com cartazes de protestos em branco pois deseja que minhas palavras completem o vazio.

Das teses mastigadas no café da manhã, a prática chega como prato favorito num almoço sem sobremesa. Não existe fome enquanto penso na história que seus olhos contam cada vez que piscam. Eles vivem abertos, como os livros que me escreveu em formatos de bom dia.
Por amor, ou algo muito menos superestimado, eles quiseram se transformar em barcos de papel na tentativa de vencer as correntezas das lágrimas que nunca vieram.

Aquele mundo que você insistia em abraçar hoje só vende analgésicos para dor de cotovelo. E eu aqui, tratando como inspiração o que todos viam como inveja, perdido como o ônibus que nunca para no ponto de vista.

Tenho mãos cheias de adjetivos que não fazem muito sentido sem o detonador em seus bolsos. É a dinamite que implode, transforma por dentro dos azulejos de cada um nós, muda a decoração toda vez que exigem violência de um coração que faz mais do que só bater. Ele também sabe apanhar.

O único desenho que assisto é o que as nuvens tentam fazer no céu quando não chove. Pena não ser finito. O pra sempre soa como tédio. Só o final faz com que tudo possa começar de outro jeito.

De todas as formas, eu começaria com uma porção equilibrada de você.
Pouco poderia ser o caos. Muito poderia ser o cais. Ruim pra quem não sabe nadar. Bom pra quem sabe voar.
Não sei nenhum dos dois.

Então salto com a mochila de otimismo.
Se eu merecer, é um paraquedas.
Se não, uma âncora.

De qualquer maneira, estou caindo do mesmo jeito.
Em contradição?
Nos seus braços?

Na melhor das hipóteses, no esquecimento.

Imagem: Deonta Wheeler

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

2 comentários

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Vitor Costa
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16 de novembro de 2015 23:32 delete

Muito bom! Me identifiquei totalmente! A gente tende a cair em contradição, mesmo que a queda seja inevitável! Porém, ao menos, o otimista pula, enquanto o pessimista/realista nem no último andar sobe.

Abraços

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.