UM MILHÃO DE PARAQUEDAS

terça-feira, agosto 04, 2015 1 Comments A+ a-



Antes fosse, por um acaso calculado, que a respiração dos anjos estivesse sob sua cabeça. Quisera todos se confundirem com o peso dos dias repetidos, mas as costas parecem menos leves que a consciência.


Estava confortável adivinhando as estações, carregando o caminhão de mudanças do seu humor para um endereço novo, longe de bom dias às seis da manhã – até porque o almoço fica melhor no café da tarde e o jantar sempre pode ser servido na balada –, e próximo de outras saudações com desconhecidos que são interessantes nos 5 primeiros minutos em que somos apresentados.



Não percebi que havia perdido grande parte da madrugada descansando no outono de um abraço seu. Aquela sensação latejante de quase-frio-quase-calor era a extensão de temperatura para sua personalidade mutante, um paraíso de antíteses tão articuladas quanto suas melhores mentiras.



Na sala de espera do seu mundo a secretária pediu as contas. Eu tinha então a oportunidade de fazer o que sabia de melhor: Desorganizar. 
Mas como se desorganiza algo que já é uma bagunça default? Tudo em você estava meticulosamente fora do lugar, um caos em ordem, um apocalipse dentro do paraíso.



Ali, em cada cena desorquestrada, vislumbrei sua biblioteca de amores sendo empurrados, um a um, para um precipício de friendzone, um purgatório de semi-relações sociais onde todos apenas lhe desejavam, como um pecado pago com atenção pela indiferença. A sua. A mais implacável e fulminante de todas, talvez pelo seu alto grau de desatenção. 

E assim, igual a um milhão de paraquedas, caíram ao seu redor fascinados, como qualquer ser humano que decide te olhar desarmado.



Eu também não tinha armas. Mas, diferente deles, eu já tinha você.


Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

1 comentários:

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Bruna Lima
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7 de setembro de 2015 23:31 delete

Mais um texto de tirar o fôlego!!

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.