VONTADES RANDÔMICAS

sexta-feira, maio 15, 2015 15 Comments A+ a-



Era só um zíper mas você abria como se fosse o mar vermelho. Tinha que parecer épico, monumental e histórico – talvez essa fosse sua definição superficial que todos pagavam pra ver de perto. Eu venderia como romantismo pragmático, entretanto, a sua coleção de admiradores não permitia que a monogamia dormisse além de uma noite naquele quarto com mais realidades que sonhos.



Eu até te faria engolir a sua língua se ela não estivesse sempre ocupada beijando desconhecidos. Você não cabia num único abraço, era espaçosa emocionalmente, um Midas do comprometimento: tudo o que tocava virava um breve relacionamento promissor. 
Não era nitroglicerina, mas sua personalidade de rainha burlesca arrancava corações do corpo numa explosão de devoção e todos os brindes tinham seu nome em reverência. Como bailarinos que esquecem o final da coreografia, a festa inteira só sabia acompanhar seus passos.



Daqui, posso apenas escandalizar suas virtudes como verdades genuínas. Alguns passam a vida toda esperando que os olhos brilhem por alguém, você exibia a Via Láctea cada vez que cruzava o olhar com quem quer que fosse. Equilibrava bem o mundo dos outros nas costas à mostra de seu vestido favorito.



Não escolhia alvos, nem se preparava para acontecimentos especiais mas fazia questão que sua rotina fosse inesquecível para suas companhias. Até os mais desatentos deixavam de ser versões piratas deles mesmos para fazer parte de seu pecado original. 

Mastigava a ingenuidade como quem saboreia o novo prato de um restaurante requintado. A inocência era a sobremesa e repetia até que ficasse em falta do menu.



Aqui, desprezo em silêncio cada provocação que não surtiu efeito na pior parte de mim. Talvez se meu ego não fosse uma multiplicação do Empire State por 300 mil ao cubo, sua lista de exibições tivesse um participante de soberania escassa.



Mas você sempre foi elegante demais para procurar fechar suas histórias com chave de ouro. Você prefere deixar as portas abertas, não importa o metal das fechaduras. 


Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

15 comentários

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16 de maio de 2015 11:26 delete

"Alguns passam a vida toda esperando que os olhos brilhem por alguém, você exibia a Via Láctea cada vez que cruzava o olhar com quem quer que fosse.'

Gostei desse. Deixou um mar de imaginação do lado de cá.

Bjo

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18 de maio de 2015 11:27 delete

Cada volátil mudança de direção afunda mais, à marteladas, os pregos.

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Vitor Costa
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20 de maio de 2015 23:14 delete

Você construiu uma personagem (não sei se é baseada em alguém de carne e osso) fascinante, moldurando cada minúcia com a precisão cirúrgica de um esteta. Digna de uma Femme Fatale de um filme Noir.

Abraços caro.

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21 de maio de 2015 11:57 delete

Caramba!
Que bela construção, que jogo magnifico de palavras.
Bom, eu não me encaixo em nenhuma característica da personagem, mas concordo em uma coisa.
Deixar as portas abertas é sempre mais emocionante, e com certeza o frio na barriga é maior.


Abraço
arianacoimbra.blogspot.com

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21 de maio de 2015 15:28 delete

Muito bom mesmo! Sempre me impressiono com seus textos :)
As características da personagem foram muito bem delineadas, consegui até mesmo imaginar algo de seus movimentos corporais e psicologia. Andei pensando muito sobre questões a respeito de se ter relacionamentos com várias pessoas, mesmo que breves e sem envolvimento profundo. Penso muito no que isso gera de positivo e negativo. Parece que essa moça se satisfaz com tudo isso, mas, como o próprio texto dá a entender em certos pontos, nem todos se contentam da mesma forma. Talvez o ponto central seja mesmo esse: como cada pessoa se sente bem em suas relações.
Sobre as portas abertas: elas me incomodam um pouco.

Beijos :)

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Léa Yasnaya
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26 de maio de 2015 18:18 delete

Poxaaaaaaaaaaaa meo (palavrão aqui) tô intrigada
Que personagem é esse cara!!!
Já tô inventando cenas

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Darlan Costa
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31 de maio de 2015 02:01 delete

acho que entendi e senti até além do que era desejável. ótimo texto!

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:39 delete

Vindo de você, só posso dizer que o objetivo foi alcançado.

Beijão, MF.

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:45 delete

Eu não definiria melhor, mestre!

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:46 delete

Talvez seja uma reunião de experiências e um pouco de ficção para o que a realidade não trouxe de laboratório.

Obrigado pela gentileza, Vitor.

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:48 delete

Grato pelas palavras, Ariana.
Acho que sempre gostamos de personagens, em algum momento da vida. Fazem sentido para o que não nos faz sentido.

Volte sempre!

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:49 delete

A essência foi captada aos poucos e sua interpretação mostrou ares que estavam obscuros de propósito.
Sim, as portas abertas são um problema.

Beijão, srta.

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:50 delete

Digamos que, talvez, não seja um cara.
O que acha?

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Brunno Lopez
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9 de junho de 2015 16:50 delete

Grato demais pela visita, Darlan. Volte sempre.

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4sphyxi4 •
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14 de junho de 2015 23:54 delete

Eu ia fazer um comentário, mas aí vi que este cara falou tudo o que eu queria falar.
Sem mais!

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.