RIBALTA

segunda-feira, fevereiro 02, 2015 14 Comments A+ a-



Olhos no sinal, cabeça na lua e os pés divididos entre o freio, a embreagem e o acelerador: assim, na eternidade dos vinte e quatro segundos do semáforo, ela sobrevivia numa dessas tardes escaldantes de janeiro, onde o sol faz mais inimigos do que sombras nas árvores.

Desde cedo, sempre foi muito geniosa para retribuir elogios; transpirava cubos de gelo na cara do verão. Vestia-se para matar, o tédio. Mas quase todos morriam diante da sua virtuosidade curvilínea, jogando facas sem ponta todas as vezes que seus olhos piscavam.

O destino contratou um detetive para tantas chamadas perdidas em seu celular. Distraída demais com a devoção dos outros, sua própria companhia lhe divertia mais do que maratonas de Seinfeld.
Sua atenção parecia a Carmen Sandiego, ninguém conseguia prendê-la. A liberdade era seu orgasmo múltiplo e intransferível.

Quando o verde finalmente deu as caras, ela aumentou o volume do Stone Sour e cantarolou enquanto o velocímetro buscava números maiores. ‘Through The Glass’ ficava ainda mais deliciosa a 100 km/h. E ela, em qualquer velocidade.

Dirigia melhor o carro do que a própria vida. Transitava sobre o caos das relações como quem coloca barcos de papel para navegar num riacho de vodka barata. Sendo assim, nunca se vitimizou. Preferia fazer um circo com suas tragédias do que um paraíso de ilusões.

Pensava alto mas sonhava baixo, tinha receio de incomodar as estrelas para organizar uma eventual festa em comemoração de uma nova constelação em seu nome. Precisava apenas estacionar nessa vaga de amor próprio que descobriu. Mas acabou parando diante do próprio prédio.

Como de costume, deixou o espelho do elevador com vontade de morar no seu apartamento. Normalmente, pessoas se apaixonam por coisas, mas no caso dela, até o que é material consegue pensar abstrato e deseja ter alguns momentos de humanidade.

Entrou, pendurou as chaves num cabide de decoração feito por ela mesma e pôs-se a revirar gavetas.
Entre contas pagas e cartões postais enviados por quase desconhecidos que se intitulavam amigos fraternos, encontrou pedaços de uma carta antiga, de destinatário anônino.
Justo ela que rasgava mais verbo do que correspondências, decidiu juntar aquele quebra-cabeça de papel num anseio de encontrar no passado o que não lhe acenava no presente.

O documento amassado tinha apenas uma frase.
Ela leu em voz alta e sussurrou mentalmente para não convencer a razão do que a emoção gritava:

“Estar sempre no centro das atenções é ruim para quem mora no subúrbio.”

Então jogou os pedaços janela afora, na esperança que seus amores mudassem de endereço, ou ganhassem o suficiente para poder morar mais perto dela.

Imagem: Digital Art Gallery

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

14 comentários

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Ana Carolina
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2 de fevereiro de 2015 17:44 delete

Divino! Não sei como consegue, quero saber escrever como tu quando eu crescer.

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Geisla Moraes
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2 de fevereiro de 2015 19:21 delete

Um dos melhores que já produziu. Instigante, sedutor, crítico e real. Brunno... Sempre tão coerente com as palavras que estas se assustam quando são embaralhadas em sua mente e, depois com todo o cuidado acabam dispostas de maneira tão organizada. Todas sentem um imenso orgulho em fazer parte de tamanha genialidade textual. Parabéns.

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Anônimo
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3 de fevereiro de 2015 09:52 delete

Sensacional, brincando com as palavras formou-se um texto delicioso, empolgante e sedutor! Parabéns Brunno.

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Vitor Costa
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3 de fevereiro de 2015 14:27 delete

Muito bom! os delírios de grandeza de uma burguesinha do subúrbio tão bem retratados pelo sempre primoroso conjunto de metáforas que impera nos seus textos, metáforas essas que exigem uma reflexão para serem compreendidas plenamente, por isso ler seu texto rápido é como correr na praia.
Abraços Brunno!

O Mundo Em Cenas

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4 de fevereiro de 2015 16:08 delete

Eu estou tentando encontrar alguma coisa legal pra dizer depois de ler, mas acho que qualquer coisa ficaria pequeno diante disso tudo.
Envolvente, sexy, palpitante. Eu queria poder gritar mil vezes que AMEI!!

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Dani
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12 de fevereiro de 2015 12:05 delete

A escolha do título foi perfeita, acaba falando por si só.

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:19 delete

Que exagero, Ana Carol.
Você escreve muito e sabe disso.

Beijão.

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:19 delete

Sem palavras diante de tudo isso, Geisla.
Fico honrado por conseguir uma reação dessa magnitude.

Sempre grato por sua opinião. Grande beijo.

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:20 delete

Eu agradeço muito mais pela gentileza.

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:21 delete

Uma percepção bem particular do texto em geral, Vítor!
Gostei desse cenário que você descreveu, de verdade.

Grato demais pela vista, abração!

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:21 delete

Vindo de uma escritora, devo dizer que consegui mais do que o meu objetivo.
Grato demais, Camila!

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Brunno Lopez
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6 de março de 2015 16:22 delete

Pois é, busquei sintetizar a prolixidade que o texto já viria trazer, Dani.
Um beijo e obrigado por vir aqui sempre.

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Bandys
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7 de março de 2015 23:31 delete

Gostei. Dirigir a vida da um trabalho e tanto.
Um beijo

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Brunno Lopez
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18 de março de 2015 10:16 delete

Felizmente todos nos saímos bem nas aulas de direção.
Grato pela gentileza de sempre.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.