ABRE-TE, INEDITISMO

terça-feira, dezembro 15, 2015 5 Comments A+ a-



É nobre da minha parte sempre querer colocar medalhas de honra ao mérito para o acaso. Assim evidencio que nada pode de fato ser planejado por completo sem a intromissão poética do improvável em seu traje de gala. Parece uma descrição dos seus sentidos funcionando juntos num dia comum. Talvez seja mesmo.

Não posso chamar tal ineditismo de algo ordinário, pois praticamente consegue desarmar grande parte de minhas defesas emocionais veteranas. Antevejo alguns dos seus passos mas num segundo momento, você está descalça andando sobre um assoalho de madeira que range o suficiente pra despertar um moribundo, porém, meus ouvidos só conseguem catalogar as batidas de seu órgão cardiovascular. 

Doravante a vida poderia ser escrita com letras de forma num daqueles cartões comemorativos. Nem são desejos de verdade, mas ajudaria a me lembrar de que um dia o orgulho foi inquilino em minha casa. Hoje está nas ruas tentando consertar a vida de alguém que não precisa de nenhum reparo. Claro, meu orgulho sempre adorou entrar na lista de produtos supérfluos.

Em minha defesa, apenas o seu ataque.

Meu contra-ataque?

Te levaria café na cama mas sempre preferi as alturas. E você parece gostar do teto de todos os quartos que nunca adormecemos de verdade.


Ninguém fecha os olhos quando botões e zíperes estão abertos.

Imagem: Milan Carnansky

O TAPETE VOADOR

terça-feira, dezembro 08, 2015 0 Comments A+ a-



Poderia ser um flerte com uma certa imoralidade, mas não era. Não está sendo. Não tem sido. 
Curiosos não costumam ter sete vidas, mas vivem como se tivessem. Culpa do estímulo de alguém que, mesmo com as mãos pequenas, consegue esmagar a confiança dos mais seguros de si.
E não sorri de graça, sem propósito predefinido. Talvez seja apenas pra se certificar da imortalidade de uma curiosidade, plantada até a raiz dar a volta ao mundo e sair do outro lado.

Diante de tanta intensidade, fechar os olhos é uma quebra de leis. Acredite. Qualquer um ficaria abstinente de sono voluntariamente, só pra tentar catalogar os movimentos dessa criatura. 
Imprevisível, como o recheio do seu sanduíche favorito em restaurantes de caráter questionável. Mas o sabor? Vale o risco. Vale saborear.

Uns salivam, outros choram. Você, provocativamente, lubrifica.

Então alguém te morde em pedaços pequenos na tentativa de lhe transformar numa refeição que dure o suficiente pra juntar orgasmos já múltiplos e criar um hecatombe de sensações. 

Era você vestindo desconhecidos com suas músicas de refrão difícil, pois o que vale mesmo é o que se diz nos versos que não rimam. Ali, alguém tenta pegar a sua confusão e fazer algum sentido, mas ninguém consegue ficar consciente diante dos seus passos sobre egos, histórias, relações.

Dizem que o segredo para não se deixar levar pelo encanto de pessoas desconhecidas nas ruas, é varrer toda aquela beleza ocasional para debaixo do tapete.

Mas parece que com você, o tapete voa.

Imagem: SofiV Photos

DEZEMBRO NÃO TRAZ O QUE VOCÊ TEVE O ANO TODO PRA BUSCAR

terça-feira, dezembro 01, 2015 1 Comments A+ a-




Era só dezembro. Não chovia, apesar do tempo e caras fechadas. Talvez mais tarde. De cabeça baixa, imagino as aventuras em caixa alta de um mundo que vive abaixo do nosso campo de visão. Certamente serão mais interessantes que qualquer outra coisa desse planeta tão convencional.
Seriam politizados em causas ganhas? Saberiam lidar com derrotas antes mesmo de colocar a possibilidade de entrar na guerra? Não sei. 
Sequer consegui formar um personagem, são retalhos do que enxergo.
Uma montagem quase sem credibilidade dos olhares que cruzo. Aquele mix do que poderia e deveria ser, mas não é.

Demorei tempo demais pensando e as primeiras gotas já começam a dançar do céu ao chão. Onde estariam aqueles que mudariam as opiniões? Cansados, preguiçosos, com outras obrigações para se preocupar. Daquelas que ninguém julga úteis, mas é tão incrível pensar apenas em si mesmo, né?
Olhar pra dentro sem precisar ver quem rasteja lá fora, carregando rifles que não funcionam. Antes intimidasse. É só pena de alguém que não tem mais nada pra se escorar além de uma arma de fogo.

Mas o bom existe no ruim, e se procurar motivos, talvez encontre mais do que lama. Mas quando a procura não está num site, num aplicativo, numa ferramenta que economize suor, não funciona. Não transforma. Não faz o básico parecer indispensável.
Pois se não conseguimos nos transformar, o entretenimento está aí pra nos humanizar por duas horas inteiras no cinema. Ou temporadas de seriados. Queremos palavras em nossa boca através de legendas.
Pensem por mim e não em mim.

Narizes escorrem mais que lágrimas.
Então é correto dizer que existe mais gripe do que tristeza.

Imagem: Dennis Heck

O OTIMISTA NO ÚLTIMO ANDAR

quarta-feira, novembro 04, 2015 2 Comments A+ a-




É o último andar e eu olho para o otimismo contando os passos no térreo. Encara o primeiro de um milhão de degraus sem desviar os olhos pois talvez saiba que, no céu que quase estou, mereço o melhor.
Não fala minha língua mas entende que silêncios fazem de todos poliglotas. Então marcha pelos andares, com cartazes de protestos em branco pois deseja que minhas palavras completem o vazio.

Das teses mastigadas no café da manhã, a prática chega como prato favorito num almoço sem sobremesa. Não existe fome enquanto penso na história que seus olhos contam cada vez que piscam. Eles vivem abertos, como os livros que me escreveu em formatos de bom dia.
Por amor, ou algo muito menos superestimado, eles quiseram se transformar em barcos de papel na tentativa de vencer as correntezas das lágrimas que nunca vieram.

Aquele mundo que você insistia em abraçar hoje só vende analgésicos para dor de cotovelo. E eu aqui, tratando como inspiração o que todos viam como inveja, perdido como o ônibus que nunca para no ponto de vista.

Tenho mãos cheias de adjetivos que não fazem muito sentido sem o detonador em seus bolsos. É a dinamite que implode, transforma por dentro dos azulejos de cada um nós, muda a decoração toda vez que exigem violência de um coração que faz mais do que só bater. Ele também sabe apanhar.

O único desenho que assisto é o que as nuvens tentam fazer no céu quando não chove. Pena não ser finito. O pra sempre soa como tédio. Só o final faz com que tudo possa começar de outro jeito.

De todas as formas, eu começaria com uma porção equilibrada de você.
Pouco poderia ser o caos. Muito poderia ser o cais. Ruim pra quem não sabe nadar. Bom pra quem sabe voar.
Não sei nenhum dos dois.

Então salto com a mochila de otimismo.
Se eu merecer, é um paraquedas.
Se não, uma âncora.

De qualquer maneira, estou caindo do mesmo jeito.
Em contradição?
Nos seus braços?

Na melhor das hipóteses, no esquecimento.

Imagem: Deonta Wheeler

BOBOS DA CORTE

segunda-feira, outubro 26, 2015 1 Comments A+ a-




O mundo gosta de colocar as coisas entre os braços. Eu prefiro entre aspas. É assim a existência de quem não apenas vive, mas depreende.

Pudera ser suficiente pra abolir a escravatura dos imprevistos no calendário, pregar o ‘that’s ok’ em cada porta que se decora para o Natal em outubro.

O cotidiano traz mais bobos da corte do que majestades. Se fôssemos reis, as pessoas só se curvariam diante de nós por problemas de coluna. O respeito que escrevemos de trás pra frente não é uma língua fluente entre os súditos do reino que nunca tivemos.

Essa coleção de ‘quases’ que cresce em nosso guarda-roupa ainda vai nos fazer sair nus para o trabalho. Seria engraçado.
E fazemos rir os amantes do finito, dos prazos de validade, da hora certa pra acabar. Pra sempre? Não, pra ontem.

Mas quem ri por último nem sempre é o mais esperto, a maioria das vezes é só alguém que demorou pra entender a piada.

Imagem: Fran Vergara

NEM TODO CUPIDO É COOL

sexta-feira, setembro 25, 2015 8 Comments A+ a-




Tem uma flecha na sua garganta e o mundo ainda custa a acreditar que cupidos não são assassinos. Mesmo que pudesse tirá-la da sua jugular, o preço foi pago por dizer ‘amor’ em voz alta, querendo par quando era tão feliz singular.

Onde foi que você enterrou o prazer da própria companhia? Espero que saiba cavar, pois é melhor encontrar esse atributo antes que o sangramento encha os copos e alguém brinde com uma aliança nos dedos que tem seu nome escrito errado. Acredite, às vezes estamos ainda mais sozinhos quando temos uma companhia que não condiz com nossas competências emocionais.

Você não precisa de um 12 de junho quando tem 365 dias de luz própria. É cedo pra morar com a insegurança e sinceramente, já viu como a vizinhança da liberdade é linda? Todos lhe dão bom dia, boa tarde e boa noite sem que você precise forçar um cumprimento. Na cama cabem você e seus sonhos esparramados, espreguiçando-se em cada nova manhã com rostos aleatórios que nunca se repetem.

É um solo e você pediu uma banda que vai tirar seus fones de ouvido. São 4 pedaços inteiros de uma pizza que você escolheu não irem pra a sua boca – ou pra geladeira no dia seguinte.
Quer a metade quando se acostumou com tudo? Quer dividir quando somar e multiplicar são seus melhores aplicativos?

Não troque asas por raízes. Logo você terá vontade de ver o mundo de cima. E nem a árvore mais alta do mundo pode chegar perto das nuvens que você aprendeu a morar.

Imagem: Pedro Vit

NÃO CONFUNDA SUPERFICIALIDADE COM SUPERIORIDADE

segunda-feira, setembro 21, 2015 0 Comments A+ a-



Quase tudo é uma emergência que muda de gravidade o tempo todo.
Nem nos curamos disso e já estamos doentes daquilo. O remédio faz efeito, mas é colateral.

As prioridades se alternaram. Profissionalizam a bipolaridade como uma ex-patologia e ficou muito mais barato deixar de bancar uma opinião.
É a faculdade da refação que bate recorde de inscrições sem precisar fazer campanha do vestibular. Por que tentar antever um erro, se temos um prazer orgasmático em consertar?

O foco em tudo desfoca em conteúdo. Muita superfície, pouca Atlântida.
A adoração ao caos parece ser uma religião popular mas certamente não irá nos salvar de uma fadiga de prolixidade.
Estamos acumulando mais solicitações de amizade do que páginas de livros. Mais perfis do que autores. Mais prazos que histórias.
E esse mais não é uma soma, é uma cruz. A sorte é que nossa preguiça nos salva dos pregos em nossos pulsos, pois estamos pregados no chão.

Não existe horizonte pra quem não sabe levar a vida na vertical. De memória em memória curta, caminhamos para um longo e desinteressante esquecimento.

O problema não é visualizar e não responder. O problema é que o que realmente vale a pena sequer é visualizado. A mensagem nem chega.

Todo mundo está offline para o que nos deixa on de verdade.

Imagem: Lemon Tree Images

ATENDA O SEU PORTÃO

terça-feira, setembro 08, 2015 1 Comments A+ a-



O que aprendemos nos dias onde chove mais dentro da gente do que lá fora? Ou ainda, quando a tempestade da janela pra fora cessa mas existe uma continuação de Twister dentro de um peito que mais apanha do que bate um coração?

Não procuro a resposta das interrogações, apenas deixo no ar como quem entra em órbita sem ter dinheiro pra mandar construir o foguete: apenas acordou de um sonho e descobriu que está mais alto que qualquer um, tocando as estrelas como se fossem instrumentos musicais celestiais.

Atrasado de gentileza, o meu boa noite chegou na hora do almoço mas é tão verdadeiro quanto uma nota de cinquenta que você confere com os dedos procurando o relevo. Seja indiferente com o lado ruim das coisas, é só o perfil que não fica bem na fotografia. É o perdão que o mundo precisa mais do que carboidrato. É o juramento que a gente faz de pés juntos e mãos separadas, de braços dados com alguém que esqueceu como os dedos se entrelaçam.

Sempre faço questão de ligar para o melhor das pessoas mesmo que elas ignorem a ligação. O pior sempre passa mas se a gente finge não estar em casa, ele vai embora.
Por isso é bom às vezes ouvir as palmas na frente do seu endereço. Nem sempre é alguém nos vendendo algo que não precisamos: Pode ser o mundo querendo te aplaudir.

Imagem: James Gehrt

A CAPITAL DOS PECADOS CAPITAIS

quinta-feira, setembro 03, 2015 0 Comments A+ a-




Os pecados devem ser muito importantes pois não se contentam com o título de simples cidades, eles precisam ser capitais de seus respectivos Estados de espírito.
A solução seria morar em outras regiões mas é impossível não desejar estar perto de todos os prazeres breves, né? Bom pra quem vive pouco, ruim pra quem será centenário.

Acostumado a pagar pelos errados, eu sobrevivo com a mesada dos certos. É pouco, menos que o bastante, não serve três refeições por dia, mas garante uma pequena fortuna de caráter embaixo do colchão.
Aprendi a economizar com as desventuras e talvez precise viver mais que todas as minhas gerações juntas para conseguir adicionar a riqueza como amiga numa dessas redes sociais da moda.

É caro viver quando se subestima o barato. Eu subestimei um planeta que se vestia de perfeito mas a etiqueta mostrava marcas adulteradas. Tentei trocar pecados arrependidos por outros de menor valor penitencial e acabei tirando demônios da cartola. E eu me pergunto:
Pra onde foram os coelhos?

Não sei. Aparentemente não existe truque que engane os pecados, independente do tamanho deles.

Até os anjos estão pagando de santo. Eu também pagaria se tivesse capital.
Mas capital, hoje, só o pecado.

Imagem: Alex Blackriver

O ASSASSINO DO VITIMISMO

quarta-feira, agosto 19, 2015 3 Comments A+ a-



Você chegou abrindo seu coração e eu apenas desejando abrir sua carteira. Não que eu seja ganancioso e não saiba o que fazer quando me oferecem sentimento mas a verdade é que eu precisava de um empréstimo para pagar meus pecados.
O pior deles?

Sou acusado de matar o vitimismo com antibióticos.
Sou culpado por tentar aniquilar a pior sensação do mundo desde a falta de amor próprio. Sou julgado diariamente por cancelar as transferências de responsabilidade no Banco Central da vida.

Culpa é como filho: a gente tem obrigação de assumir. E se hoje serei condenado em todas as instâncias é apenas pelo seu direito de não construir sua casa na Rua da Acomodação. É para que você não estacione seu carro na vaga dos Coitados S/A. É para que você não seja o primeiro colocado no concurso público para o cargo de Profissional em Vítima das Circunstâncias.

Afinal, somos responsáveis pela dualidade sucesso/fracasso de nós mesmos. Quer reconhecimento? Vá ao IML. Pois se formos apenas ferramentas, só resolveremos problemas… enquanto os outros lucram com as soluções.

Então, se tiver alguns centavos sobrando, financie minha liberdade. Ela pode ser a sua também.

UM MILHÃO DE PARAQUEDAS

terça-feira, agosto 04, 2015 1 Comments A+ a-



Antes fosse, por um acaso calculado, que a respiração dos anjos estivesse sob sua cabeça. Quisera todos se confundirem com o peso dos dias repetidos, mas as costas parecem menos leves que a consciência.


Estava confortável adivinhando as estações, carregando o caminhão de mudanças do seu humor para um endereço novo, longe de bom dias às seis da manhã – até porque o almoço fica melhor no café da tarde e o jantar sempre pode ser servido na balada –, e próximo de outras saudações com desconhecidos que são interessantes nos 5 primeiros minutos em que somos apresentados.



Não percebi que havia perdido grande parte da madrugada descansando no outono de um abraço seu. Aquela sensação latejante de quase-frio-quase-calor era a extensão de temperatura para sua personalidade mutante, um paraíso de antíteses tão articuladas quanto suas melhores mentiras.



Na sala de espera do seu mundo a secretária pediu as contas. Eu tinha então a oportunidade de fazer o que sabia de melhor: Desorganizar. 
Mas como se desorganiza algo que já é uma bagunça default? Tudo em você estava meticulosamente fora do lugar, um caos em ordem, um apocalipse dentro do paraíso.



Ali, em cada cena desorquestrada, vislumbrei sua biblioteca de amores sendo empurrados, um a um, para um precipício de friendzone, um purgatório de semi-relações sociais onde todos apenas lhe desejavam, como um pecado pago com atenção pela indiferença. A sua. A mais implacável e fulminante de todas, talvez pelo seu alto grau de desatenção. 

E assim, igual a um milhão de paraquedas, caíram ao seu redor fascinados, como qualquer ser humano que decide te olhar desarmado.



Eu também não tinha armas. Mas, diferente deles, eu já tinha você.


O PREÇO DA FELICIDADE INDIVIDUAL

segunda-feira, julho 06, 2015 6 Comments A+ a-



Como falhei assim, de forma tão profissional, aparando arestas de qualquer atributo positivo visível a olho nu sobre mim?
A resposta estava ali, descendo pela sua garganta pois você ficou com fome e a engoliu para servir de refeição no meio do dia. Sem mastigar.

Tudo continua caindo ao meu lado e bem em você. Regrinha de três onde a conta e os olhos não fecham. E pobre, economizo elogios pra sobrar algo a lhe presentear num natal que nunca chega. Já o frio, ah, esse descobriu um acampamento em minhas faculdades emocionais e eu faço bonecos de neve com os rostos das pessoas que decepcionei de propósito.

Quisera perder a memória como perdi o respeito. A admiração sequer se transforma num sentimento real quando decido conhecer a sensação. Ficou tudo em algum lugar onde só você conhece a rodovia que leva ao destino. Mas voltar nunca foi minha habilidade default. Bom quando é paraíso. Ruim quando é precipício. Ótimo quando não é uma hospedagem de 7 dias e 6 noites na zona de conforto.

Peguei sua mão como quem pega uma virose. Fiquei de cama – melhor parte – mas quando precisamos de remédio, algo no processo não deu muito certo. Claro que tentei me convencer de que talvez sua companhia não permita nenhuma porcentagem de sanidade, era preciso adoecer em seu vírus e celebrar uma vida inteira apaixonado por medicamentos genéricos de sua indústria farmacêutica devocional.
No final, funcionou tão bem quanto ligar 110v em 220v: Quando está começando a ficar bom, a coisa toda pegou fogo. No pior dos 5 sentidos.

Em tempos de seca, reguei a última semente de gentileza com a água na boca que costumava te deixar. Não era potável, mas foi capaz de não matar de sede o que restava do meu cavalheirismo digno de 1920.
Agora, com a cortesia de alguém que tem mais etiqueta que uma boutique parisiense, me despeço da liquidação de sua companhia para comprar em outras lojas.

É tudo muito mais caro. Mas eu economizei o suficiente pra pagar pra ver.


A DESCRIÇÃO DA DISCRIÇÃO

sexta-feira, julho 03, 2015 2 Comments A+ a-




É um descompasso dentro do tempo

quando um dos seus olhos pisca

durante a quarta temporada de uma série qualquer

Pois o cobertor escorregou pelo sofá

Onde você guarda cada momento
Cada amor a primeira vista

Antes de um necessário salve-se quem puder 

Antes de autorizar um deixar pra lá 


Pensa num futuro distante daqui

com a geladeira aberta

e um coração vazio de propósito 

pois precisa de espaço pra pensar 
 


Tão disfarçada que nem reconheci

sua postura quase certa

trancando as ideias num depósito 

pois revoluções podem esperar

Mas antes do café da manhã
quando lágrimas temperam o leite 

Eu bebo sem adoçante 

só pra você ficar saudável 



Sempre adormecia no divã 

para que você não aproveite 

e descubra qualquer agravante

em meu caráter questionável

QUANDO O PRESENTE NÃO É UM PRESENTE

sexta-feira, junho 19, 2015 8 Comments A+ a-



Mesmo odiando o tato, eu sei que você se pega pensando em como seria. Se ficasse mais tempo tomando aquele café amargo, segurando a xícara até que esfriasse a ponto de não ficar mais agradavelmente tomável. Recusando a voz que não mora mais em seu coração mas segue entrando em seus fones de ouvido. 
Ruim quando beijos certos não te deixam escolha, a língua fica no lugar do cérebro e só o dia seguinte é capaz de restaurar as configurações originais.

Mas aí a Joss Stone aparece no Spotify antes do despertador enquanto você dança se desviando das roupas no chão do seu quarto e eu nem consigo fingir que estou dormindo.



Atrasados como os novos amores, lembro que você entrou sem que ninguém lhe oferecesse uma bebida, ou uma informação sobre algum endereço que você nem sabia que procurava. Certamente você não colocaria ‘intrometida’ em seu currículo, creio que arranjaria qualquer coisa que discordasse do eufemisto. Provavelmente algo como ‘desbravadora de personalidades sociais ocasionais’. Isso, claro. É levemente mais bonito quando soa complexo e misterioso.



E agora, sob os poucos presentes que ganhou, um novo relacionamento ainda não está tão conectado quanto a Netflix. Olha lá você trocando contatos físicos por seriados. Às vezes você só queria que as pessoas tivessem legendas sobre o que estão pensando.



O que fazer quando a cartomante decidiu jogar poker com as cartas do seu futuro?

Ficar no passado.


Imagem: teetsy

BOROGODÓ

terça-feira, junho 09, 2015 2 Comments A+ a-



Todo mundo quer ter. Nem todo mundo sabe da existência. Nem todo mundo assume que não têm. Todo mundo já conheceu alguém que tem.

É, o tal do borogodó.



Um conjunto de fatores, de sensações, de histórias? Uma potencialização incomum de um único atributo? Ok, uma pausa no tempo. Ou então, uma aceleração de pulsação.

Que tal, um encanto sem causa justificável? Melhor, não? 

Enfim, quem têm, tem.



Seria a voz? Eu gosto de vozes. 
Cordas vocais às vezes tocam mais que orquestras inteiras. Se as melhores coisas acontecem quando fechamos os olhos, o som precisa ser épico.


Por esse ponto de vista, a audição é um identificador de borogodós. O ouvido é o caminho mais rápido até o coração? 
Ah, e vocês pensando que era o estômago. 
Ao invés de abrir o livro de receitas era só abrir a boca. E usar a língua.



Mas aí tem o pessoal que se liga no perfume. As narinas são analistas de qualidade, o Inmetro do cheiro. Então, ainda de olhos fechados, o ponto em questão se concentra na fragrância. Uma dança de notas que vão direto às melhores lembranças de nossas vidas. Golpe quase irresistível? Ponto pro olfato.

Então os exércitos do toque pedem passagem. Será o tato a maior representação de borogodó dos sentidos? A maneira de reger o arrepiar dos pelos? A pegada que separa relações casuais de experiências que não terminam mesmo após se recolherem as roupas do chão?

Talvez a graça seja a imprecisão, a deliciosa indefinição. Não saber de onde vem, mas saber exatamente pra onde se vai. Pois uma vez com o borogodó, o passado é uma lembrança apagada diariamente com novas aventuras.

VONTADES RANDÔMICAS

sexta-feira, maio 15, 2015 15 Comments A+ a-



Era só um zíper mas você abria como se fosse o mar vermelho. Tinha que parecer épico, monumental e histórico – talvez essa fosse sua definição superficial que todos pagavam pra ver de perto. Eu venderia como romantismo pragmático, entretanto, a sua coleção de admiradores não permitia que a monogamia dormisse além de uma noite naquele quarto com mais realidades que sonhos.



Eu até te faria engolir a sua língua se ela não estivesse sempre ocupada beijando desconhecidos. Você não cabia num único abraço, era espaçosa emocionalmente, um Midas do comprometimento: tudo o que tocava virava um breve relacionamento promissor. 
Não era nitroglicerina, mas sua personalidade de rainha burlesca arrancava corações do corpo numa explosão de devoção e todos os brindes tinham seu nome em reverência. Como bailarinos que esquecem o final da coreografia, a festa inteira só sabia acompanhar seus passos.



Daqui, posso apenas escandalizar suas virtudes como verdades genuínas. Alguns passam a vida toda esperando que os olhos brilhem por alguém, você exibia a Via Láctea cada vez que cruzava o olhar com quem quer que fosse. Equilibrava bem o mundo dos outros nas costas à mostra de seu vestido favorito.



Não escolhia alvos, nem se preparava para acontecimentos especiais mas fazia questão que sua rotina fosse inesquecível para suas companhias. Até os mais desatentos deixavam de ser versões piratas deles mesmos para fazer parte de seu pecado original. 

Mastigava a ingenuidade como quem saboreia o novo prato de um restaurante requintado. A inocência era a sobremesa e repetia até que ficasse em falta do menu.



Aqui, desprezo em silêncio cada provocação que não surtiu efeito na pior parte de mim. Talvez se meu ego não fosse uma multiplicação do Empire State por 300 mil ao cubo, sua lista de exibições tivesse um participante de soberania escassa.



Mas você sempre foi elegante demais para procurar fechar suas histórias com chave de ouro. Você prefere deixar as portas abertas, não importa o metal das fechaduras. 


A RAZÃO DE NÃO TERMOS SUPERPODERES

quarta-feira, abril 22, 2015 12 Comments A+ a-



Não temos uniformes personalizados, não saltamos entre os prédios nem sabemos o que fazer quando ouvimos algum pedido de socorro. O egoísmo provavelmente não permitiria que tivéssemos carteira assinada na profissão de super-heróis. O criminoso merece receber um direto de esquerda, mas nós só sabemos dar indiretas.



Nenhum revés em nossa história teve caráter transformador para aumentar nossos sentidos e hiperdimensionar nossas habilidades – quando sequer temos alguma. 
Acreditamos ter mais inimigos por metro quadrado do que postos de gasolina, uma utopia criada para disseminar dentro de nossa personalidade que representamos uma ameaça a alguém.



E se pudéssemos, quem salvaríamos? Alienados como nós, que ignoram informações que poderiam destituir líderes de seus cargos para nos preocuparmos apenas com casamentos e dietas dos famosos?
Ao invés de conhecimento, atualizamos o Facebook.



Que espécie de heróis seríamos se, antes de emboscar um adversário, postássemos no Instagram algo como #partiucombaterocrime? Alguém realmente gostaria de ler nossos quadrinhos, ver nossos filmes e assistir nossos seriados? Comprar nossas camisetas?



Não é por capricho, não é um infortúnio, não é por desastre que nascemos sem superpoderes.
A gente simplesmente não merece.

Com heróis dessa geração, o mundo ficaria bem melhor com os vilões.


Imagem: FatoOoma Qatar

O SONETO QUASE HIPSTER

segunda-feira, abril 06, 2015 8 Comments A+ a-



Mentiras não são como carneirinhos mas ajudam a dormir

Assim o real consegue ficar um pouco fantástico

O melhor vive atrasado pois sempre está por vir

Enquanto todos brindamos em copos de plástico



O mundo se comunica em falas de seriados

E o tempo se mede por temporadas

Dos dias da semana, só valem os sábados

E das pessoas, só as charmosamente erradas



Mas se o romantismo corta os pulsos

A sociedade reclama dos pares avulsos

E nós respondemos ‘não tem de quê’



Até que a série da vida não é mais tão feliz

E a gente corre no Netflix

Para chorar com a barriga cheia de comida gourmet


Imagem: James

OS CRÉDITOS FINAIS SÃO APENAS O COMEÇO

sexta-feira, março 06, 2015 14 Comments A+ a-



Eu sabia que estava mais convencendo do que me fazendo acreditar.
“É o preço que se paga pelo entretenimento finito”, você dizia. Mas além das contas, eu também dividia a culpa por só nos alimentarmos de cultura em finais de semana. A realidade era escandalosa demais para que pudéssemos ignorá-la com classe.



Carrego a culpa de impedir você e toda a sua graciosidade de retomarem relações com o sono interrompido. Era você que nunca sonhava acordada por achar que o cotidiano não poderia ser mais confortável que sua cama de casal. E eu apenas tentando ser menos previsível que o jornal de ontem.



Era um Michelangelo tentando pintar a vida real de outros tons. Nada menos que diálogos de seriado para nossas discussões de relação em filas de supermercado. O mundo escrevia cartas e emails enquanto nós só nos contentávamos com folhas e folhas de scripts.



Diretores um do outro, fazíamos cenas sempre que possível, terminando o dia curiosos sobre os próximos capítulos. Uns davam o coração, a gente dava o play.



Mas um dia você me disse que “os créditos têm a função de nos trazer de volta à realidade depois de um filme e ainda nos faz refletir sobre tudo o que existe (ou deixou de existir) a nossa volta”.
Não pude manter a relação dentro das duas horas de exibição.



O cinema costuma acender as luzes, o blu-ray volta para o menu principal e eu?

Eu ainda não tenho patrocínio para uma sequência. Ou uma nova temporada.


RIBALTA

segunda-feira, fevereiro 02, 2015 14 Comments A+ a-



Olhos no sinal, cabeça na lua e os pés divididos entre o freio, a embreagem e o acelerador: assim, na eternidade dos vinte e quatro segundos do semáforo, ela sobrevivia numa dessas tardes escaldantes de janeiro, onde o sol faz mais inimigos do que sombras nas árvores.

Desde cedo, sempre foi muito geniosa para retribuir elogios; transpirava cubos de gelo na cara do verão. Vestia-se para matar, o tédio. Mas quase todos morriam diante da sua virtuosidade curvilínea, jogando facas sem ponta todas as vezes que seus olhos piscavam.

O destino contratou um detetive para tantas chamadas perdidas em seu celular. Distraída demais com a devoção dos outros, sua própria companhia lhe divertia mais do que maratonas de Seinfeld.
Sua atenção parecia a Carmen Sandiego, ninguém conseguia prendê-la. A liberdade era seu orgasmo múltiplo e intransferível.

Quando o verde finalmente deu as caras, ela aumentou o volume do Stone Sour e cantarolou enquanto o velocímetro buscava números maiores. ‘Through The Glass’ ficava ainda mais deliciosa a 100 km/h. E ela, em qualquer velocidade.

Dirigia melhor o carro do que a própria vida. Transitava sobre o caos das relações como quem coloca barcos de papel para navegar num riacho de vodka barata. Sendo assim, nunca se vitimizou. Preferia fazer um circo com suas tragédias do que um paraíso de ilusões.

Pensava alto mas sonhava baixo, tinha receio de incomodar as estrelas para organizar uma eventual festa em comemoração de uma nova constelação em seu nome. Precisava apenas estacionar nessa vaga de amor próprio que descobriu. Mas acabou parando diante do próprio prédio.

Como de costume, deixou o espelho do elevador com vontade de morar no seu apartamento. Normalmente, pessoas se apaixonam por coisas, mas no caso dela, até o que é material consegue pensar abstrato e deseja ter alguns momentos de humanidade.

Entrou, pendurou as chaves num cabide de decoração feito por ela mesma e pôs-se a revirar gavetas.
Entre contas pagas e cartões postais enviados por quase desconhecidos que se intitulavam amigos fraternos, encontrou pedaços de uma carta antiga, de destinatário anônino.
Justo ela que rasgava mais verbo do que correspondências, decidiu juntar aquele quebra-cabeça de papel num anseio de encontrar no passado o que não lhe acenava no presente.

O documento amassado tinha apenas uma frase.
Ela leu em voz alta e sussurrou mentalmente para não convencer a razão do que a emoção gritava:

“Estar sempre no centro das atenções é ruim para quem mora no subúrbio.”

Então jogou os pedaços janela afora, na esperança que seus amores mudassem de endereço, ou ganhassem o suficiente para poder morar mais perto dela.

Imagem: Digital Art Gallery

FUNCIONÁRIO DO MÊS NUMA FÁBRICA DE MÁSCARAS

quarta-feira, janeiro 07, 2015 10 Comments A+ a-



Quando o tal baile começou a lotação foi completa. Todos tão reais quanto a moeda corrente no país de bandeira verde-amarela-azul-e-branca. Ser quem se quiser ser, sem a preocupação de construir uma identidade correspondente ao que se é de verdade, ficou mais fácil que falsificar uma carteirinha de estudante pra pagar meia entrada até no clube da terceira idade.

Aos que recusam enfrentar o mundo de cara limpa, a vida inventou disfarces sob medida: As tais máscaras de personalidade.
Inteligente, rico, esperta, sincera, qualquer um pode atuar sem cursos de teatro, a noite é um laboratório travestido de palco. E há aqueles que batem palmas para o seu desempenho. Há aqueles que admiram sua ‘vultuosidade natural’. Há aqueles que abrem a porta de suas casas e dos seus carros – menos do coração – pois a carência não deixa ninguém enxergar direito. É o tato antes da visão.

Mas uma hora a verdade vem e já é de manhã, já é final de mês, já é aniversário de namoro, já são bodas de um metal qualquer. E aí?
Mentira ter perna curta mas sarada, né?

Felizmente as máscaras caem quando a consciência pesa. E quase ninguém com a consciência em forma precisa desses apetrechos.
Honestamente, se você não tem nada a oferecer, a Netflix tem, e você pode ficar no conforto da sua casa sem a obrigação de colocar o que sobrou das pessoas bacanas do planeta na sua zona de conforto.

Geração saúde de caráter, quantos carboidratos têm 300 gramas de postura?

Imagem: Richard Jonkman