RELAÇÕES NÃO SÃO PRISÕES

terça-feira, setembro 09, 2014 14 Comments A+ a-



De todas as experiências que pude colecionar em minha até curta estadia em território terreste, a pior delas foi a de presenciar a vontade de outra pessoa prevalecer ao próprio desejo.

Nada é mais devastador e vergonhoso do que assistir o abandono da convicção apenas pelo pedido de alguém. Soa ainda mais grave quando tal ato é concretizado sob chantagem ou qualquer outro recurso emocional covarde que imobilize temporariamente o tão aclamado livre arbítrio.

Não precisei andar muito pra enxergar a miséria que algumas relações colecionam. Sob a base da desconfiança e servindo aos exércitos que aniquilam qualquer geração amante do amor próprio, seres humanos sobrevivem escravos dentro de um relacionamento entediante, sem qualquer sinalização de melhora ainda que paliativa, perdendo em goles sedentos todo o contexto social, principalmente em termos de amizade.

Tão hediondo quanto morrer por alguém – sendo que isso acarretaria a solidão eterna do outro integrante que fica – quem abandona deliberadamente os próprios princípios para adornar a existência do companheiro ou companheira de vida cava uma sepultura tão funda para si mesmo que o corpo cairá por anos a fio até que atinja o solo.

É a renúncia sem prêmio. Morte sem glória. Sacrifício sem perdão.

Sem extremismos aparentes, é claro que precisamos ter um mínimo de equilíbrio em nossas escolhas dentro da vida a dois. Mas a partir do momento que a balança só pesa para um lado, bem-vindo à escravidão em pleno século XXI.

Vergonha da geração que se esconde nos braços do desconfortável - disponível por receio de não encontrar nada parecido no mercado de ações da conquista.

Para pessoas com esse comportamento provinciano, o cupido não vive sempre de férias. Na verdade,  ele nem chega a se formar na faculdade de formação de casais. Ou, no caso de ser teimoso e conseguir a graduação, erra de propósito.

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

14 comentários

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9 de setembro de 2014 19:29 delete

Tudo tem que acrescentar. Ter que se podar, já não é saudável. O velho clichê: tem que somar.

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M. Borges
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10 de setembro de 2014 01:01 delete

Isso é coisa de quem não tem personalidade, nem amor próprio nem vontade própria. Pessoas que se submetem ao outro, que se diminuem perante o outro. As pessoas tem pavor da solidão, não sabem apreciar a própria companhia, tanto que preferem estar infelizes ao lado de alguém, interpretando o papel de par "perfeito", do que reconhecerem o quanto é bom estar em paz. Relações assim estão fadas ao fracasso de um jeito ou de outro. Não há amor, nem respeito e muito menos amizade.

Mais um ótimo texto, Brunno.
Beijos

coracaoaflordapele.blogspot.com
semprovas.blogspot.com

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10 de setembro de 2014 12:46 delete

Se ainda não aconteceu, todos uma vez na vida, ao menos, se depararão com a cena em que o seu ser amado dá meia volta e a completa surgindo como torturador. Você pisca os olhos e quando abre está estirado na parede entre uma faca e uma arma, apontadas por ele. Uma ameaça o amor, a outra ameaça uma relação sua (quase sempre importante) ou a si mesmo e seu bem querer. O fato é que a morte é colocada diante a você e isso é o fim de fato.
Agora permitir que vire hábito, que tome todo o terreno individual é triste, destrói, deixa de construir...

Que saudade eu senti de entrar em seu teatro e ouvir o barulho das cortinas se abrindo para mais um espetáculo (adjetivo) metafórico de textos protagonistas...
Te agradeço por ter se mantido fiel às minhas palavras em minha ausência.
Grande beijo.

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S
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11 de setembro de 2014 16:18 delete

Brunno, que saudade daqui. Lembra de mim?
A tendencia é só melhorar, não?
O que realmente deve prevalecer o amor proprio.
Beijos

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Thaís
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14 de setembro de 2014 19:47 delete

Acabei de falar sobre isso... Falta amor próprio. Falta pessoas que curtem a própria companhia, que sabem dizer um basta quando o relacionamento desgasta, que sabem diferenciar paixonites de relacionamento sério.

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15 de setembro de 2014 10:08 delete

"quem abandona deliberadamente os próprios princípios para adornar a existência do companheiro ou companheira de vida cava uma sepultura tão funda para si mesmo que o corpo cairá por anos a fio até que atinja o solo"

Muito sábio, Brunno! Costumo refletir sobre relacionamentos e é triste verificar que, mundo afora, o que mais aparece (aparentemente) são esses relacionamentos vazios, onde reina a vontade de uma pessoa e a outra se encolhe de modo a não ser esmagada... por algo que ela mesma criou.
É triste perceber a infelicidade nas relações e a insistência em continuá-las apesar de.

Como sempre, seu texto é para mim fonte de reflexão.


Até mais, Dani.

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15 de setembro de 2014 22:38 delete

Belo texto, esse é o ser humano ... que de nada serve, mas tudo acrescenta ... ou não!

ELDRIDGE'S CREEK
eldridgecreek.blogspot.com.br

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 16:50 delete

Penso igual, Ana. Mas às vezes nem todo mundo faz o que precisa ser feito pela própria felicidade.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 16:51 delete

Pois é, srta, a personalidade descolada as pessoas, como um outro ser independente.
Obrigado pela sua vital contribuição.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 16:57 delete

É incrível quando as relações atravessam o tempo. Hoje, com tantas opções virtuais, quantos ainda seguem os blogs do passado?

Fico feliz em saber que ainda reconhece o caminho do Teatro.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 17:04 delete

Como me esqueceria?
A gente percebe que algo vale a pena quando as pessoas não desaparecem.
E cá estamos!

Obrigado por continuar aqui.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 17:07 delete

Sempre é possível mudar. É uma angústia eterna sobreviver por medo de ficar só, não?
Obrigado pela visita, Thaís.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 17:17 delete

Gosto de saber que os textos servem para algo além de leitura de passatempo. E você sempre faz questão de deixar isso bem claro, é gratificante.

Relacionamentos sempre podem ser melhores quando desejamos o melhor individualmente de nós.

Grato demais, Dani.

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Brunno Lopez
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24 de setembro de 2014 17:22 delete

Pois é, os pontos de vista ainda salvarão gerações.
Grato pela visita.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.