A ARTE DE TRANSFERIR PROBLEMAS

sexta-feira, maio 30, 2014 9 Comments A+ a-



Eu poderia facilmente condenar todos aqueles que brindam as primeiras horas do dia com o descontentamento de estarem presos na própria vida. Seria cômodo mirar o indicador para seus suplícios existenciais e desdenhar a plantação de mau-humor fértil dos mesmos.

Mas a experiência me ensinou a delegar preocupações. A maravilhosa técnica de aquiescer com elegância e distribuir o revés aos quatro ventos, sem receio de devolução. 

Esqueça suas aflições junto com a conta do restaurante. Abandone-as num abraço falso de aniversário. Deixe-as no brinquedo do parque de diversões. Esconda-as na última poltrona do cinema. O que não resolve, não precisa ser de sua propriedade.

O mundo ainda irá aprender que a transferência de problemas oferece mais vida útil que a transferência de capital.

Não precisamos de soluções, precisamos de distância. Nossa única transpiração está em organizar todos os problemas de maneira confortável na mala e despachá-los para os desatentos.

A gente sempre acaba esbarrando na vida de alguém. Que tal deixar que levem muito mais do que o nosso pedido de desculpas?

Imagem: David Andersson

QUANDO O ARREPENDIMENTO NÃO MATA

sexta-feira, maio 09, 2014 16 Comments A+ a-



São perguntas demais para um interrogatório breve
Afine as cordas vocais quando quiser soar leve
Sem um telescópio você não enxerga minha verdade
O inteiro sempre é muito pra quem vê só a metade

Um brinde aos náufragos em seu mar de convicção
Colecionando admiradores para o ego em expansão
Com toda a água do mundo a boca continua seca
Uma prova que sua confiança ficou obsoleta

Meu disfarce é legítimo quando lhe convence
Que sentimentos reais são meio nonsense
Vestido de sonhos, com olhos fechados
Sou o menos inocente entre todos os culpados

Se a glória adora repousar em seus ombros
Ressuscito o encanto sufocado nos escombros
Recupere o fôlego que lhe roubei em vida
E trate cada saudação como uma nova despedida

Não conte os passos se o céu é o limite
As melhores experiências não precisam de convite
Num mundo de self-service você era um banquete
Você era a prova de balas mesmo sem colete

Aponte meus defeitos até que virem lanças
Serei o sentinela das suas melhores lembranças
Quando o amor vira um rótulo pequeno
São os dias em que a cura está no veneno