MÚSICOS DE VERDADE SÃO ESPANTALHOS

terça-feira, março 11, 2014 4 Comments A+ a-



Obcecado por seduzir ouvidos, venerava a audição como o mais indispensável dos cinco sentidos. Apesar de estar no stage, seus acordes colocavam o público num pedestal ainda mais alto que seu próprio show.
 Numa sociedade que chamava qualquer barulho de música ao vivo, ele sobrevivia oferecendo verdadeiras trilha sonoras.



Carregava o mundo e os instrumentos nas costas. Decepções se transformavam em ideias para canções futuras enquanto procurava esconder o passado em refrões de tom alto. Ali poderia gritar na tentativa de se libertar do que a vida desafinou. Ali poderia mudar o ritmo das escolhas erradas para conseguir acompanhar a indecisão do tempo.



Sabia que se perdesse o equilíbrio, cairia no esquecimento. Com tanto assédio de outros estilos e a banalização da arte em produções de áudio, era cada vez mais difícil fazer sua melodia audível. Sucesso era sinônimo de barzinhos com estrutura duvidosa repletos de pseudo-músicos frustrados tentando se convencer que um palco de cinco centímetros de altura era a mesma coisa que o Madison Square Garden.



Amante do original, escutar covers semitonados o descolossoavam. Tanto convencimento com um raso reconhecimento era nocivo ao trabalho que oferecia. Todo o conceito que empregava estava sucumbindo à uma reunião desinspirada de cidadãos semi-bêbados oferecendo quase que gratuitamente o genocídio de gravações clássicas.



Som alto, nível baixo, conceito rasteiro. Era uma escavação com alvará liberado. Não existia poço, mas o fundo tinha se transformado num objetivo desvelado naquele segmento.



Arrastou sua vida pra dentro dos cases pois temia a erradicação da boa música. As composições de uma existência pareciam encolhidas num canto sob uma luz tão fraca quanto as canções de hoje. 

Outrora convincente e performático, sua aparência lembrava a de um espantalho musical pois ao tentar proteger o que restou das boas músicas passou a afugentar os que não sabiam ouvir.

Talvez assim, só reste o que realmente valha a pena ter de fã.


Imagem: Abby

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

4 comentários

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Luísa Zanni
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12 de março de 2014 14:04 delete

Vender sua alma ao diabo ou viver na dureza e manter sua arte pura? Difícil decisão, meu caro. Compreensível a atitude de quem "prostitua" sua arte. Longe de ser venerável, talvez nem se justifique. Mas temos que admitir que é compreensível.

Engraçado conhecer esse personagem que aprecia tanto a audição logo agora, que comecei a mergulhar num universo encantador que é a Libras. Sabe, to achando que escutar e apreender o que se escuta vai muito além do que nosso ouvido permite. Acho que o cara desse texto também acha... Só acho.

Beijo grande!

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16 de março de 2014 20:44 delete

Muitos artistas se esquecem do propósito principal, que é simplesmente se expressar, propor ideias, propor mudanças... Oferecer ao observador uma nova perspectiva, agradável ou não. Muitas pessoas preferem atuar... Todos os dias.
A beleza não é sinônimo de "técnica", nem de "preferência da massa", mas sim, de coragem para inovar!

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Brunno Lopez
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2 de abril de 2014 13:32 delete

Concordo com seu ponto de vista. Seria mesmo muito bom se esse direcionamento fosse seguido pelos arquitetos da música atual.

Mais uma vez, grato pela visita.

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Brunno Lopez
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2 de abril de 2014 13:33 delete

Pode ser que você tenha razão.
Ótimo ponto de vista.

Agradeço demais pela visita e pela opinião.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.