SOMOS BONS E RUINS PARA TODOS OS FINS

segunda-feira, dezembro 01, 2014 14 Comments A+ a-



A oportunidade não passa na porta de quem constrói uma casa só com janelas. Também não se esconde no fundo do copo de quem só tem canecas. 
Quantas vezes eu li isso? Incontáveis.
Tantas que, ao invés de perder a conta, eu acabei pagando. 

Melhor se, ao invés de tentar entender o GPS que a oportunidade comprou, eu usasse meu tempo pra salvar o dia com CTRL+S, sem capas que desfiguram heróis e andando pelo lado certo da rua - ainda que a verdade esteja no asfalto.

Demorei um tempo pra entender que passado e futuro são dois comediantes com piadas mais fracas que café de orfanato. Não importa o que foi nem o que vai ser. Na deliciosa e cruel realidade, todos terminamos do mesmo jeito.
Logo, vivemos para enfeitar o meio.
A vida se passa no meio, no entremeio, no decorrer, no gerúndio da existência, nas ações que já começaram e ainda não acabaram, no verbo transitivo direto – com indiretas no percurso.

Não dá pra tornar ortodoxos os radicais livres. Uma respiração é um dia a menos ou um fôlego a mais, depende onde você quer chegar. 
Então estacionamos pra ver se enjoamos da paisagem ou apertamos o passo pra não dar tempo de lembrar de absolutamente nada.

Sempre preferi tudo à vista mas quando o assunto é vida, eu divido as prestações com você. A sensação de fantasiar na realidade me ajuda a desviar dessa avalanche de seres humanos que parecem usar o raso talento que lhes foi dado unicamente para serem marionetes e fantoches de outros sujeitos que vivem abaixo da linha da pobreza de espírito.

Definitivamente, não dá pra construir um paraíso com as ferramentas do inferno. 

O desafio não é ser santo, é saber pecar com estilo.

Imagem: Kim

O CHÃO É O LIMITE QUANDO JÁ SE TEM O CÉU

quarta-feira, outubro 22, 2014 25 Comments A+ a-



Se não fosse tão pretensiosamente original, provavelmente seria um imitador barato da minha própria vida. Mas o sentido norte-sul-leste-oeste dela tem sua culpa em todas as direções.

Nos roteiros que nunca terminei por desejar uma pequena eternidade, apareço abraçando a roda gigante das suas emoções mesmo sem dinheiro pra pagar pelo passeio inteiro.
O mundo não precisa de liberdade quando você prende seu cabelo. E a respiração. E a atenção dos mais avançados portadores de dislexia.

Minha falsa ingenuidade tentava lhe conquistar pelo estômago fazendo uma torta com as maçãs do seu rosto. Arrancava seus sorrisos pela raiz para tentar plantá-los em outras pessoas nos dias em que não podia te ver.

Quando todos lhe ofereciam mundos de fantasias, você decidiu tropeçar de propósito e cair na real. Chegou a tempo de aproveitar a terceira temporada das minhas intenções.

Minha curiosidade fez dividir sua vida em um milhão de quadros e ver que todos são poses.
Sua existência é uma exibição.

Apesar de perigosamente esquecido, guardo com orgulho todas as multas que levei nas rodovias do seu corpo.

Quebramos mais camas do que promessas para descobrirmos que o chão é o limite quando já se tem o céu.

Imagem: Lisa

APRENDA A AMAR SUAS DECEPÇÕES

sexta-feira, setembro 19, 2014 16 Comments A+ a-




O sinal fechou bem na hora que você estava prestes a atropelar todos os demônios da sua vida. Atravessaram em fila, de mãos dadas, esboçando sorrisos debochados pela faixa de pedestres, protegidos pela sua direção defensiva.

Colocar o pé no acelerador seria o mesmo que colocar na jaca, ou trocar os pés pelas mãos. Convenhamos, você terá outras chances de quebrar as regras sem precisar quebrar as pernas.

Esse passado travestido de criaturas infernais pode ser o bastante para fazer o presente de alguém se transformar num futuro.
Talvez seja melhor vê-los livres do outro lado da calçada e esquecer que é domingo e sua melhor companhia ficou perdida na segunda-feira que você nunca levou a sério o suficiente.

O volume da música que vocês tinham em comum condiz com o volume do seu cabelo em dias ruins. E nunca adiantou escondê-lo na gaveta e jogar a chave fora se o móvel continua decorando o seu quarto.

Você não pulou sete ondas com medo de se afogar e hoje só existem maremotos.

Mas adiantaria culpar as escolhas tomadas entre Budweisers e Heinekens? Vale a pena praguejar até a quinta geração daqueles que usaram sua casa como hotel e não como lar?

Às vezes precisamos ter a humildade de beijar a lona de língua. Fazer o nosso papel, mesmo que seja o higiênico.

Quando se consegue entender a estrutura das decepções é possível ser um arquiteto de felicidades mais firmes. Um engenheiro de emoções arranhacéuzísticas.

Então, quando o sinal abrir, deixe o retrovisor te lembrar do que passou para poder aproveitar de verdade o que existe em outras avenidas.

Imagem: Christoph Christoph

RELAÇÕES NÃO SÃO PRISÕES

terça-feira, setembro 09, 2014 14 Comments A+ a-



De todas as experiências que pude colecionar em minha até curta estadia em território terreste, a pior delas foi a de presenciar a vontade de outra pessoa prevalecer ao próprio desejo.

Nada é mais devastador e vergonhoso do que assistir o abandono da convicção apenas pelo pedido de alguém. Soa ainda mais grave quando tal ato é concretizado sob chantagem ou qualquer outro recurso emocional covarde que imobilize temporariamente o tão aclamado livre arbítrio.

Não precisei andar muito pra enxergar a miséria que algumas relações colecionam. Sob a base da desconfiança e servindo aos exércitos que aniquilam qualquer geração amante do amor próprio, seres humanos sobrevivem escravos dentro de um relacionamento entediante, sem qualquer sinalização de melhora ainda que paliativa, perdendo em goles sedentos todo o contexto social, principalmente em termos de amizade.

Tão hediondo quanto morrer por alguém – sendo que isso acarretaria a solidão eterna do outro integrante que fica – quem abandona deliberadamente os próprios princípios para adornar a existência do companheiro ou companheira de vida cava uma sepultura tão funda para si mesmo que o corpo cairá por anos a fio até que atinja o solo.

É a renúncia sem prêmio. Morte sem glória. Sacrifício sem perdão.

Sem extremismos aparentes, é claro que precisamos ter um mínimo de equilíbrio em nossas escolhas dentro da vida a dois. Mas a partir do momento que a balança só pesa para um lado, bem-vindo à escravidão em pleno século XXI.

Vergonha da geração que se esconde nos braços do desconfortável - disponível por receio de não encontrar nada parecido no mercado de ações da conquista.

Para pessoas com esse comportamento provinciano, o cupido não vive sempre de férias. Na verdade,  ele nem chega a se formar na faculdade de formação de casais. Ou, no caso de ser teimoso e conseguir a graduação, erra de propósito.

A VIDA É UMA COXINHA

quarta-feira, agosto 27, 2014 12 Comments A+ a-



Antes de reclamar da vida, é preciso saber como apreciá-la.
É uma obrigação ter conhecimento da maneira correta de saboreá-la. 

Mas aí alguns te param na rua enquanto você atravessa fora da faixa e lhe perguntam: Mas o que é a vida?

A vida é uma coxinha. 


Crocante por fora, recheada de amor, frango e catupiry por dentro. Sentimentos com alto nível de carboidrato.

Todo mundo sabe que essa é a representação mais fiel da vida e todo mundo também sabe que é possível encontrá-la em quase todos os bons lugares estratégicos do mundo.
Mas o que algumas pessoas fazem com a vida quando estão diante dela?

Elas desvirtuam o mito. Elas tem a pura e deliciosa existência diante dos olhos mas não conseguem viver a experiência apoteótica dela.


A vida é uma coxinha. 


Não a culpe se você começa a comê-la pela base. Não a culpe se você pede garfo e faca para abrí-la ao meio sem piedade e muito menos noção de gastronomia de boteco.


Tudo o que aconteceu de errado na sua vida está totalmente relacionado aos anos que você ignorou degustá-la pelo bico.


Esse é o procedimento dos deuses mitológicos. Dos reis valorosos. Dos líderes históricos.


A coxinha começa pelo bico. É o beijo, o início da química, a aurora vital da humanidade.

Nunca comece nada pelo final. Comece pelo bico.

Imagem: Marco Spawn

O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ ENCONTRA O AMOR NO SUPERMERCADO

quinta-feira, agosto 07, 2014 10 Comments A+ a-



Abri um pacote de felicidade fora do prazo de validade. Foram horas na fila dos sentimentos em edição especial até chegar na última unidade do seu produto. Fiquei o dia todo naquele supermercado de emoções admirando suas propriedades nutricionais e abusando das quantidades necessárias por dia de todos os gramas e ml’s.


Dos pecados capitais, sempre fui avesso à gula. Mas diante da sua embalagem, tudo não é o suficiente.

Tão inédito quanto um doce que não enjoa, suas porções estimularam meu organismo sendo capazes de curar doenças que nunca tive.
E como não comprar sua voz nevando açúcar no setor de sobremesas da melhor parte da minha vida?

A falência flerta comigo a cada aquisição de suas marcas. Enchi carrinhos e os olhos, sem perceber.

Sem perceber também, estava levando desordem à sua despensa. Bagunçando sua meticulosa organização, colocando quadros de caos em todas as paredes.

Mas se você gosta mesmo de ficar sem os pés no chão, alguém precisava colocar todas as coisas no ar.

Meu único receio é ter te levado tão alto a ponto de não poder mais te alcançar. Entretanto, talvez para entrar na parte secreta do seu coração eu precise entrar em órbita.

Houston, I love this problem.

Imagem: Not Jane Doe

DIFERENÇAS SÃO ETERNAS. AMORES TAMBÉM

quinta-feira, julho 24, 2014 6 Comments A+ a-



Não era um deus, mas reinava altivo pelas planícies da sua convicção. Lembro-me que as pessoas agendavam visitas para poder me enxergar por completo. Eu era um monumento como qualquer patrimônio cultural. Igual aquela igrejinha da sua cidade, com uma praça central e bancos empoeirados onde os aposentados conversam sobre o que poderiam ter sido e não foram.



Não faz muito tempo que arrastei toda essa importância histórica para seu passatempo favorito. Naquele lugar, todas sabiam ler mãos mas você adorava se vangloriar por ler pensamentos. Não acertava nada mas a minha falsa generosidade parecia admirar suas pretensões. Aquela impetuosidade escorria do seu olho e fazia as tardes durarem estações inteiras. Era como gostar do erro e aprender a saborear a naturalidade.



E assim, inventando as histórias que você fingia adivinhar, transformei meus castelos de areia em imponentes quartéis generais. Suas ilusões eram combustíveis renováveis capazes de desligar o interruptor da realidade, deixavam a existência palpável numa completa escuridão. 
Sem as luzes da rotina sobre meus ombros, me tornei presidente do clube da novidade.

De igual, só você. E era o bastante para contrabalançar o mar de diferenças.

Imagem: Ejay Mercado

ROUBANDO ATENÇÕES E MAIS ALGUMAS EMOÇÕES

terça-feira, junho 10, 2014 10 Comments A+ a-



Do meu disfarce cibernético pude enxergar além de suas fronteiras e trilhas sonoras. Pelos suspiros involuntários, percebi que você tinha perdido as rédeas do mundo numa curva acentuada e aprendido a gostar de viver às custas desse acidente.

Enquanto alguns colocariam uma pedra no assunto, você colocou fones de ouvido. Transformou decepções em infinitas canções que tocavam sem pausa. 

Todo contato humano era vulgarizado em seu primeiro estágio. A herança da superficialidade não lhe envolvia por completo. Passou a colecionar canalhas. Ninguém iria domesticar as falhas de caráter, era melhor acreditar na abstração musical, afinal, refrões não costumam mentir.

Diferente de um quadro de Monet, quando olhei de perto, não encontrei borrões nem rabiscos irreconhecíveis. Me deparei algo fora dos padrões, a quinta das quatro estações.
Eufemismos não são permitidos em sua atmosfera, tudo é hediondo e colossal. Uma vida inteira não seria o suficiente pra conhecer todos os museus de suas extensões.
Perdi a conta dos engenheiros e arquitetos necessários para a construção do seu sorriso mais simples.

Qualquer pequena reação soa hipnótica. Seus movimentos são obras de arte irretocáveis a espera de um ônibus atrasado. Uma figura enfeitiçada pelo tempo, desfilando com sua moda própria numa passarela de semáforos fechados.

Seguro a natureza entre meus dedos como um convite ao que existe de mais orgânico e puro. Se você plantar seu charme e distração nesse terreno, o futuro terá florestas indevastáveis.

Para chegar ao alto, você não precisa necessariamente voar, apenas criar raízes.

Imagem: Rudy Faber

A ARTE DE TRANSFERIR PROBLEMAS

sexta-feira, maio 30, 2014 9 Comments A+ a-



Eu poderia facilmente condenar todos aqueles que brindam as primeiras horas do dia com o descontentamento de estarem presos na própria vida. Seria cômodo mirar o indicador para seus suplícios existenciais e desdenhar a plantação de mau-humor fértil dos mesmos.

Mas a experiência me ensinou a delegar preocupações. A maravilhosa técnica de aquiescer com elegância e distribuir o revés aos quatro ventos, sem receio de devolução. 

Esqueça suas aflições junto com a conta do restaurante. Abandone-as num abraço falso de aniversário. Deixe-as no brinquedo do parque de diversões. Esconda-as na última poltrona do cinema. O que não resolve, não precisa ser de sua propriedade.

O mundo ainda irá aprender que a transferência de problemas oferece mais vida útil que a transferência de capital.

Não precisamos de soluções, precisamos de distância. Nossa única transpiração está em organizar todos os problemas de maneira confortável na mala e despachá-los para os desatentos.

A gente sempre acaba esbarrando na vida de alguém. Que tal deixar que levem muito mais do que o nosso pedido de desculpas?

Imagem: David Andersson

QUANDO O ARREPENDIMENTO NÃO MATA

sexta-feira, maio 09, 2014 16 Comments A+ a-



São perguntas demais para um interrogatório breve
Afine as cordas vocais quando quiser soar leve
Sem um telescópio você não enxerga minha verdade
O inteiro sempre é muito pra quem vê só a metade

Um brinde aos náufragos em seu mar de convicção
Colecionando admiradores para o ego em expansão
Com toda a água do mundo a boca continua seca
Uma prova que sua confiança ficou obsoleta

Meu disfarce é legítimo quando lhe convence
Que sentimentos reais são meio nonsense
Vestido de sonhos, com olhos fechados
Sou o menos inocente entre todos os culpados

Se a glória adora repousar em seus ombros
Ressuscito o encanto sufocado nos escombros
Recupere o fôlego que lhe roubei em vida
E trate cada saudação como uma nova despedida

Não conte os passos se o céu é o limite
As melhores experiências não precisam de convite
Num mundo de self-service você era um banquete
Você era a prova de balas mesmo sem colete

Aponte meus defeitos até que virem lanças
Serei o sentinela das suas melhores lembranças
Quando o amor vira um rótulo pequeno
São os dias em que a cura está no veneno

TOME VERGONHA (E CHUVA) NA CARA

quarta-feira, abril 16, 2014 17 Comments A+ a-



Não desista de uma existência aparentemente medíocre até encontrar alguém que te faça ter pensamentos inapropriados. Perder o controle das próprias emoções é um sinal corajoso de amadurecimento pessoal. 

Tente fixar os olhos no espelho e gostar do que vê ali. Acredite em mentiras eventuais, elas serão úteis para lhe preparar psicologicamente até a verdade chegar.



Coloque a naturalidade num liquidificador cheio palavras cruas, recém-chegadas do frigorífico de ideias, e espere para se viciar numa vitamina tão nutritiva quanto o cardápio de um restaurante vegetariano. 
Mas a vida pede carne e você ainda acredita que a felicidade está no churrasco e não nas pessoas que pagaram R$40,00 pra estar nele.



É permitido usar a visão periférica em seu próprio favor. Numa dessas você pega um olhar distraído e muda as fechaduras da sua casa. Lembre-se que a simplicidade anda de mãos dadas com o inesperado, logo, não é necessário se matricular no curso superior da complicação.



Deixe as roupas no chão, é uma decoração indireta quando a noite acaba bem. Não procure identificar rostos ou procurar retratos, guarde a respiração. Fique com o capítulo, esqueça a história. Memorize os detalhes, abandone o conjunto. A gente só se lembra das cenas, nunca das temporadas.

Abra o coração, não o guarda-chuva. As gotas sempre encontrarão um jeito de escorrer pelo seu corpo, é melhor se deixar molhar por inteiro. O sol prefere secar do que queimar.

Imagem: Rayani Melo

QUASE NINGUÉM É INTERESSANTE DE VERDADE

segunda-feira, março 31, 2014 10 Comments A+ a-



O que faz de uma pessoa interessante? O que transforma seu papo num discurso bem orquestrado a ponto de nos privarmos da fala por tempo indeterminado? Qual o segredo daqueles que aparecem com o benefício da novidade e fazem seu encanto próprio atravessar gerações?



Dizem que a intimidade acaba com esse estereótipo mas quando alguém é mesmo interessante, o tempo não consegue diminuir seus poderes. Não é um estereótipo. Se depois de alguns meses você não consegue mais encontrar razões para admirar a pessoa que conheceu e julgou interessante, desculpe. Ela não é interessante. É apenas empolgação inicial com alguém que não desenvolveu seu pleno potencial. É uma farsa de personalidade, uma faísca de convencimento que não teve capacidade de se transformar em incêndio. Um blefe.



Ser interessante normalmente ziguezagueia entre clichês e rótulos.

Não é simpatia nem beleza. É convicção de representar sempre a si mesmo de forma triunfal. É vestir a roupa da própria pele e mostrar a todos que vale a pena parar o que quer que seja que estejam fazendo pra ver, ouvir e nunca esquecer.



Afinal, pessoas comuns podem ser apaixonantes, pessoas incríveis podem ser inacreditáveis mas pessoas interessantes são inesquecíveis. Não confunda as sentenças.

Imagem: Nan Lawson

MÚSICOS DE VERDADE SÃO ESPANTALHOS

terça-feira, março 11, 2014 4 Comments A+ a-



Obcecado por seduzir ouvidos, venerava a audição como o mais indispensável dos cinco sentidos. Apesar de estar no stage, seus acordes colocavam o público num pedestal ainda mais alto que seu próprio show.
 Numa sociedade que chamava qualquer barulho de música ao vivo, ele sobrevivia oferecendo verdadeiras trilha sonoras.



Carregava o mundo e os instrumentos nas costas. Decepções se transformavam em ideias para canções futuras enquanto procurava esconder o passado em refrões de tom alto. Ali poderia gritar na tentativa de se libertar do que a vida desafinou. Ali poderia mudar o ritmo das escolhas erradas para conseguir acompanhar a indecisão do tempo.



Sabia que se perdesse o equilíbrio, cairia no esquecimento. Com tanto assédio de outros estilos e a banalização da arte em produções de áudio, era cada vez mais difícil fazer sua melodia audível. Sucesso era sinônimo de barzinhos com estrutura duvidosa repletos de pseudo-músicos frustrados tentando se convencer que um palco de cinco centímetros de altura era a mesma coisa que o Madison Square Garden.



Amante do original, escutar covers semitonados o descolossoavam. Tanto convencimento com um raso reconhecimento era nocivo ao trabalho que oferecia. Todo o conceito que empregava estava sucumbindo à uma reunião desinspirada de cidadãos semi-bêbados oferecendo quase que gratuitamente o genocídio de gravações clássicas.



Som alto, nível baixo, conceito rasteiro. Era uma escavação com alvará liberado. Não existia poço, mas o fundo tinha se transformado num objetivo desvelado naquele segmento.



Arrastou sua vida pra dentro dos cases pois temia a erradicação da boa música. As composições de uma existência pareciam encolhidas num canto sob uma luz tão fraca quanto as canções de hoje. 

Outrora convincente e performático, sua aparência lembrava a de um espantalho musical pois ao tentar proteger o que restou das boas músicas passou a afugentar os que não sabiam ouvir.

Talvez assim, só reste o que realmente valha a pena ter de fã.


Imagem: Abby

A IMPORTÂNCIA DE ABANDONAR O QUE SE ACREDITA

quarta-feira, fevereiro 05, 2014 18 Comments A+ a-



Portas abertas demais nem sempre significam oportunidades invadindo nossas casas com sonhos e propostas irrecusáveis. Muitas vezes é preciso criar coragem para confrontar nossas convicções, abandonar algumas certezas superficiais e trancar a melhor parte da nossa razão.
 Não é ironizar o passado e soar como um militante da ingratidão, tampouco financiar programas que exterminem quaisquer resquícios de reminiscência. Trata-se apenas de transformar o que parecia paixão em uma profissional indiferença.



Quando compartilhamos desejos, cobramos dos outros um nível de comprometimento fora do comum e isso nem sempre está harmonizado com o sentimento original. 
E não é desistir, é colocar um cadeado nas frustrações. É bloquear o acesso dos que freiam nossos planos de evolução. Abaixar o volume daqueles que desvirtuam nossa arte. Sufocar de silêncio quem grita fora do tom de nossas músicas favoritas. 



Uma vez trancafiados, os ímpetos podem conhecer a capacidade de revolucionar a colônia de exploração em que foram colocados. Com menos laços de compromisso, a paisagem fica mais clara de se admirar.



Enclausure o que supostamente ama e deixe que o tempo corroa a chave. Aprisione suas lutas para descobrir como vencer novos conflitos. Algumas vezes, pra durar, não resta outra opção além do benefício do esquecimento - 
enterrado nos dias de ouro, com honras de um começo sempre promissor.



A liberdade de uns depende da prisão de outros.

SOBRE MULHERES

sexta-feira, janeiro 24, 2014 11 Comments A+ a-



Talvez esse discurso pareça rebuscado demais para o horário. Soará saudosista ao primeiro olhar e não terá pitadas de mainstream. 
Por mais que eu desejasse com todas as forças que tal ponto de vista conseguisse ir além das nuvens, é bem provável que meu contentamento se restrinja a alguns poucos centímetros do chão.
 
Reconheço que algumas sentenças tenham caído em desuso pela forma que passamos a viver – atropelando as coisas, antecipando momentos e estragando surpresas – o que nos deixou alheios ao tempo que não temos.



Não deveria ser piegas admirar a pureza feminina, essa característica tão peculiar que perdeu a tinta da tatuagem que fez em outras gerações. A modernidade não teria o direito de desvirtuar a mais célebre criação divina. 
Mas enquanto eu puder atirar com essas armas, farei meus alvos agradecerem por cada tiro, pois é a necessidade da caça que glorifica a presa.
 
Mas a mulher, nunca foi a presa, certo?





Encaro as mulheres como algo que precisa necessariamente estimular o deslumbre. Que promova uma reflexão profunda de nossos anseios e nos motive a ser/fazer coisas que não estão no cotidiano.

 São criaturas que flertam com a loucura para mostrar que a paz pode ser entediante. Que só a confusão e o improvável podem provocar as melhores sensações de que se tem conhecimento.

 São aquelas que conseguem fazer da personalidade uma passagem só de ida para a tão mística fidelidade. Que seduzem naturalmente, sem regras e destinos marcados. 

São a melhor lembrança que você terá da sua existência.



A mulher é a busca pela perfeição que não se encontra no Google. 
Sabe por que? Por que é um presente que só vira passado se for no tempo verbal “Mais do que perfeito”. 




RESOLUÇÕES DE ANO NOVO EM BAIXA RESOLUÇÃO

segunda-feira, janeiro 06, 2014 12 Comments A+ a-



As decorações natalinas ainda invadem o sempre superestimado janeiro. Poucas surpresas aparecem riscadas no calendário e o tapete dá a impressão de flutuar pela sala com tantas promessas varridas por baixo dele em doze longos meses do ano que se foi.

Se o entusiasmo faz as malas, duas pessoas não fazem as pazes. Se o conformismo governa as ações daqueles que nos rodeiam, é preciso viver aplicando golpes de Estado. Ar puro não salva pulmões doentes.

Muitos tentaram negligenciar seus talentos e politizar os mais magníficos lampejos de sua genialidade criativa. Alguns ficaram com os escombros dos seus esforços, a poeira dos verdadeiros dia de luta. Mas não existe multiplicação pra quem não tem ambição.

O mais, quando é do mesmo, é menos. Só é ápice quando precisamos rastejar para não acertar as estrelas.

Imagem: Sam Javanrouh