A ESCRAVIDÃO DE UMA PROMESSA

sexta-feira, outubro 04, 2013 26 Comments A+ a-



Andamos secretamente sobre a beleza da incerteza. Trocamos olhares e celulares, um verdadeiro escambo de conquista. E ainda assim, mesmo não estando devidamente vestidos para um tribunal, as pessoas continuam encantadas com a ideia de nos julgar deliberadamente.
Uma obsessão descabida pelo maldito martelo.
É o complexo de Thor em versão jurídica, um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes com um novo creme dental que é estrelado por alguma nova celebridade no comercial da televisão ou nos cinco segundos preciosos que antecedem algum vídeo no YouTube.

Entendo o ceticismo dos pobres críticos de cinema da vida. A frustração decorrente da ausência de ambição os transformou em seres limitados emocionalmente. São os dinossauros da sociedade que sobreviveram ao meteoro de libertinagem mas carregam sequelas de tamanha atrocidade ao pudor.

Felizmente, a indiferença também faz parte de nossa relação.
Despejamos entretenimento mesmo que o mundo tenha aberto um milhão de guarda-chuvas abaixo de nós. Poucos enxergam os raios de sol que se escondem em cada gota de nossa tempestade.
Não fazemos poesia com o cotidiano mas gostamos de encarar a trivialidade como pequenos fragmentos de um dia especial.

Talvez o pessimismo seja uma coleção de desastres em miniatura que ignoramos nos horários comerciais, afinal, a maioria nunca questiona a legitimidade dos alarmes falsos. É a automatização da rotina trabalhando a favor do descontentamento existencial.

Não fabricamos romances com limite de páginas pois as melhores histórias nunca passaram por nenhum processo de edição. Pra ser de verdade, tem que ser integral.

Faça um favor: nunca boicote um compromisso.
O pior tipo de caloteiro é o que deve favores.
E desses são os piores credores.

Imagem: Ellen Weinstein

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

26 comentários

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Camila
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4 de outubro de 2013 18:44 delete

Nesta selvageria gris, as pessoas passam entre outras, mas a alma não é tocada. As amas estão adormecidas, em meio a tantos rótulos, indiferença. O carpe diem, onde está?! Cansou e mandou bem no fugere urbem, comtemplar a riqueza da simplicidade da vida e foi ser feliz.

...

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Lainha
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6 de outubro de 2013 14:01 delete

Você tá de costas e de repente uma pessoa te abraça, te prende e fala no teu ouvido: shiii, escuta, sente... É assim que tu me envolve com teus textos. <3

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7 de outubro de 2013 20:04 delete

Pra ser de verdade, tem que ser integral

~~ fato.

Belíssimo texto B.
,,
*

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Luísa Zanni
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8 de outubro de 2013 16:03 delete

Caro Brunno,

Eu facilmente me apaixonaria pelo rastro de sensibilidade que você deixa no meu blog... Pelo rastro que me faz vir até aqui e descobrir mais sensibilidade ainda. E isso não é uma cantada, eu juro. É apenas a expressão da minha surpresa por ainda me surpreender com a qualidade dos seus textos. Favor continuar me surpreendendo e sensibilizando.

Se puder, assista "Sete Minutos". É uma peça do Antonio Fagundes disponível em dvd. Vale muito à pena. É uma reflexão bem humorada sobre como a virtualidade nos limita, desumaniza e embrutece. Beijos!

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Deise Lima
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8 de outubro de 2013 17:56 delete

Todos os dias nos esbarramos com centenas de pessoas. Cada qual com suas histórias e segredos, felicidades e angústias, dívidas e créditos e por "falta" de tempo ou de vontade, ou ainda impossibilidade mesmo( é tanta gente por aí, meu caro) nem mesmo as direcionamos um "bom dia!", mas aí surgem os poetas que por sua tamanha sensibilidade e poder fora do comum vão lá e nos mostram o que deveríamos fazer, e muitas vezes faz por nós, espalhando entre versos os bons dias e sorrisos esquecidos, sem que o solicitemos como fiador, ele vai lá e quita nossos não fazeres. Bom vai ser quando todos puderem ser poetas, enquanto isso vamos buscando de cá viver nossos romances sem editá-los.

Êta Brunno que mexe de um jeito com as palavras, que é difícil comentar algo que se alinhe ao texto, mas deixei aqui o que senti depois de ler esse post. Gostei muito do seu escrito, moço!
Abraço!

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Faah Bastos
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10 de outubro de 2013 10:00 delete

Eu precisei ler em pausas, porque a cada parágrafo uma onda de pensamentos me atingia. Cada ponto uma imagem ampla de todo o significado.
Realmente, meu caro, esplêndido!

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10 de outubro de 2013 19:06 delete

Meu caro Brunno, tu és um daqueles blogueiros a quem eu classifico como, "para ser lido, é preciso ter Ensino Médio completo". E que admiração causa tua habilidade em encaixar tão bem as palavras certas dentro de mensagens tão ricas e inteligentes. Fico boquiaberto com a perspicácia das tuas metáforas, acredite.

Bueno, quanto à assiduidade das visitas, falo por mim: compreendo que nem sempre é possível acessarmos os blogs uns dos outros em decorrência da correria rotineira. Ainda assim, mesmo que só de vez em quando, é sempre uma honra receber tuas palavras qualificadas no meu espaço. O mínimo que posso fazer é tentar retribuir. Também tentarei voltar mais vezes!

Grande abraço!

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Ariana
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10 de outubro de 2013 20:47 delete

"as pessoas continuam encantadas com a ideia de nos julgar deliberadamente. 
Uma obsessão descabida pelo maldito martelo. 
"

E quem nunca julgou que bata o martelo. Eu julgo, você julga, a Joana julga.
Talvez julguemos coisas diferentes ou simplesmente o fato do outro julgar.
E quem deve favores nem pena merece.

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Sol
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10 de outubro de 2013 23:21 delete

Você realmente vive a vida, porque você a pensa. Seu olhar ultrapassa esse véu que tem escondido a realidade, infelizmente poucos conseguem ou, mesmo, tentam. Parece haver uma distorção enorme entre o que compreendemos e denominamos vida e a maneira como vivemos. Olho as pessoas e lembro de Zumbis...

Está belo*, Brunno. A leitura liberta a alma!

*no sentido dado pelos gregos à essa palavra.

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Adna Martins
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11 de outubro de 2013 02:30 delete

Não sei explicar, só sei que sinto assim:

todas às vezes que me visitas
te sinto como buquê de paz.

Acho que um pedaço de você é isso
e reflete nos seus escritos. Beijos!

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11 de outubro de 2013 22:57 delete

Trocamos olhares e celulares, um verdadeiro escambo de conquista. E ainda assim, mesmo não estando devidamente vestidos para um tribunal, as pessoas continuam encantadas com a ideia de nos julgar deliberadamente.

SENSACIONAL! - Geralmente é como defino o que não sei explicar , mas me faz ver um pouco além dos caracteres na tela.

Parabéns pelo talento!

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12 de outubro de 2013 09:36 delete

Engraçado é quando a gente julga e tem que voltar atrás porque a pessoa para quem tinhamos apontado o dedo se tornou um amigo, alguém importante. A vida é uma coisa sem nexo nenhum. Seu texto é tão lindo que valeu a pena eu estar fuçando em blogs a uma hora enquanto eu deveria estar estudando.
Vou passar muitas e muitas vezes aqui.
Beijão
barradosno-baile.blogspot.com

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Dani
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13 de outubro de 2013 19:59 delete

Todos os dias travo uma batalha comigo. Tento sempre olhar, entender e não julgar, mas não é sempre que consigo remar contra a maré e isso me angustia.

Beijos

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Brunno Lopez
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14 de outubro de 2013 18:22 delete

Pois é Camila, talvez esse seja uma parte do panorama.
Belíssima resposta. Obrigado pela visita.

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Brunno Lopez
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14 de outubro de 2013 18:24 delete

Fico sem palavras em conseguir um resultado tão peculiar utilizando apenas palavras.
Grato demais pela visita.

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Brunno Lopez
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14 de outubro de 2013 18:25 delete

Justamente M.F. Eu também gosto de acreditar nessa máxima. E gosto de saber que você teve a gentileza de deixar sua opinião aqui.

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Brunno Lopez
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14 de outubro de 2013 18:34 delete

Acho que elogios nessa magnitude fazem a existência desse espaço desejar nada menos do que a eternidade.
Claro, um devido exagero de sua parte, mas aceito com profunda admiração e demasiada gratidão.

Farei questão de conhecer a peça citada pela srta.
Obrigado pela visita indispensável!

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:13 delete

Só tenho a agradecer pelas palavras.
Espero fazer sentido sempre.
Obrigado pela visita.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:22 delete

Quando a sensibilidade está presente na leitura, vejo que meus pequenos esforços valem a pena.
Obrigado por enxergar além do próprio texto.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:28 delete

Obrigado pela classificação acadêmica dos meus leitores. Sempre digo aqui que um texto só tem validade quando promove diálogos futuros com o leitor. Assim as palavras duram por mais páginas, não?

Obrigado pela visita.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:32 delete

O problema não é o julgamento, é o veredito baseado em absolutamente nada.

Obrigado pela gentil visita de sempre.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:39 delete

Agradeço pela visão aprofundada das simples palavras emaranhadas num texto curto. Nada me deixa mais feliz do que a interpretação perspicaz.

Volte sempre.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:41 delete

Se toda a paz pudesse ser traduzida assim, seria formidável.

Obrigado pela visita indispensável.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:44 delete

O desafio é conseguir essa projeção de imagens utilizando apenas palavras.
Obrigado de coração pelo ponto de vista e pela visita.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:49 delete

Honrado pela visita e pelas observações.
Será um prazer recebê-la de volta.

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Brunno Lopez
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15 de outubro de 2013 15:54 delete

São milhões de escolhas em pouco tempo.
Obrigado pela visita, de coração.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.