NINGUÉM LUTA CONTRA O ÓBVIO

segunda-feira, agosto 05, 2013 7 Comments A+ a-



Em uma análise crítica - porém contestável - de minhas faculdades mentais, emocionais e cardiovasculares, me deparei com um resultado parcial deveras curioso: As correntes que me prendem aos meus maus hábitos são douradas. Assim, quase ninguém poderia ter a ousadia de me julgar deliberadamente, afinal, até o infortúnio de minha propriedade carrega algum resquício de nobreza e isso pode afugentar com notório sucesso eventuais apontamentos negativos dispensáveis.

Antes de verbalizar, eu adjetivo. Atribuo meticulosas qualidades - eventualmente falsas - para conquistar terreno precioso. Nesse processo, o abandono das convicções é vital na estrada até o cobiçado sucesso. Certezas nunca caem bem no look de quem deseja fazer um pouco de história, por mais 'glamourosa' que seja a etiqueta. Não se deve ignorar a sensibilidade antes de disfarçá-la com trajes mais discretos, entretanto, deixe sempre alguns botões abertos para soar socialmente receptivo.

Nem todos nasceram para ser o refrão, por isso é fundamental fazer da sua existência nada menos do que uma ótima primeira estrofe. Às vezes a gente acredita viver num paraíso mas talvez esse privilégio não seja por nossas virtudes admiráveis mas pela total indiferença das trevas. Quando souberem que nossos melhores sorrisos estão distribuindo abraços em filas de supermercado, certamente cairemos desses tapetes mágicos. Não se pode sobrevoar as misérias humanas por uma eternidade finita.

É nesse momento que sinto falta da medicina. Para soar completo aos olhos da sociedade é preciso amar com uma precisão cirúrgica. Ou se aceita os sentimentos como uma patologia grave ou viveremos apenas tratando qualquer acontecimento sentimental como uma pequena infecção.

Imagem: Natty


Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

7 comentários

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Dilly Monnete
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5 de agosto de 2013 18:57 delete

Uma patologia grave e, graças a Deus, sem cura. Afinal é isso que nos torna humanos.

"Nem todos nasceram para o refrão, por isso é fundamental fazer da sua existência nada menos que uma ótima primeira estrofe." Essa eu tive que anotar. Mas não se preocupe, darei os devidos créditos ao mencioná-la.

Texto maneiro, blog maneiro (:

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Ariana
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7 de agosto de 2013 15:04 delete

Com oda a certeza eu nunca vou ser o refrão mas procuro fazer da minha existência uma ótima estrofe.
O que não quer dizer que os outros vejam assim, mas dane-se a opinião alheia.

Excelente texto poeta!

Beijos

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Lainha
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9 de agosto de 2013 10:51 delete

Coisa linda!

@korallinda

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Lainha
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9 de agosto de 2013 10:51 delete

Coisa linda!

@korallinda

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Anônimo
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10 de agosto de 2013 02:06 delete

alguem pode me explicar o q foi dito

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11 de agosto de 2013 14:39 delete

O meu comentário se dirige às duas últimas frases da sua postagem.
É triste quando alguém não se demonstra capaz de amar... A intensidade os assusta, e por medo, deixam de sentir. Que é a vida, se não intensidade? Digo isso porque tenho a característica (que pode ser qualidade ou maldição) de sentir intensamente, de ser envolvida pelos sentimentos de uma forma que mal posso respirar sem que sinta tanto e tanto...
Eu acho isso precioso. O sentir. A capacidade de ser afetado, de afetar...
O que nos move é isso, e quem não tem isso, vive de que??

Dani.

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Marcieli Zucchi
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15 de agosto de 2013 08:33 delete

Esse é o tipo de texto sobre o qual eu poderia conversar por horas. No mais, a certeza não existe. O que existe é apenas a força que cada um emprega para agarrar as próprias verdades.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.