AVIÕES DE PAPEL

quarta-feira, agosto 21, 2013 24 Comments A+ a-



Dizem que filosofias baratas não precisam de desconto. Se tal afirmação fosse verdadeira, isso faria de mim alguém tão desafortunado a ponto de não conseguir comprar uma mísera ideologia oferecida quase de graça. Mas talvez minha fortuna tenha ficado em algum dos seus cofres secretos, com senhas que mudam a cada quinze minutos.

Lá estão guardadas as suas verdades contando mentiras com a boca cheia. Sua paciência se esvaziando como as garrafas de vinho de um encontro ruim. Eu extraí o sal de sua única lágrima rebelde mostrando que o seu exército de postura tinha graves falhas no caráter.

Mas eu não sirvo pra servir.

Minha distração derramou mais volúpia do que amor pelo seu discurso. Sua reputação nunca ficou tão excitada com a possibilidade de erradicar o tédio por completo. Eu sabia como instigar a sua curiosidade disfarçada de pesquisa científica. E ainda que a dignidade não fosse um acessório comum em suas roupas, eu lhe vesti com uma moda pretensiosamente atemporal.

Ninguém notava a sensível falta de nobreza que existia em todas as viagens que fizemos com aviõezinhos de papel. Seu medo de altura era maior que o medo de ser feliz. Por outro lado, sua caligrafia austera e seus verbetes incomuns viviam confundindo a nossa comunicação. Lembro-me que convoquei uma orquestra de músicos amadores na tentativa de reproduzir os sons da sua voz em partituras que eu conseguisse ler. Era uma nota transcrever suas notas.

A total aversão à qualquer falta de criatividade ou reprodução preguiçosa de obras ou emoções externas fazia de você o verdadeiro pecado original. Belo rosto, bom gosto, você é um sonho de padaria. Doce, cremosa e barata. Ninguém precisava economizar para lhe comprar mas ninguém sabia mais onde vendiam suas porções individuais.

Aí o destino decidiu vender as propriedades que compramos em sociedade e acabamos morando nos quintais do mundo. Sem coleta seletiva, sem internet móvel, sem a modernidade de plástico. Agora as festas são promoções em lojas de conveniência.

Imagem: Howard

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

24 comentários

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Ariana
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21 de agosto de 2013 12:31 delete

Brunno, acho que já te pedi pra parar de me deixar de boca aberta e sem palavras né?
Li três vezes seguidas e não sei o que dizer.
Quantas viagens eu já fiz em aviões de papel, algumas você até sabe né?
E quantos sonhos de padaria passaram pelo meu caminho.
Tudo o que eu digo é clichê, mas os clichês descobri nos últimos tempos que são mais sinceros ás vezes.
Só pra variar, texto perfeito, grande poeta.
Me faz um favor?
Escreva um livro!

Beijo

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21 de agosto de 2013 13:05 delete

Oi Bruno , sou tão nova aqui no blogger , quanto no twitter ,e inclusive foi por lá que descobri teu blog.
Bacana teu jeito de escrever , embora eu ache que sua tamanha aversão ao romantismo , seja um jeito diferente de AMAR ( e levar) a vida de uma maneira demasiadamente apaixonada rsrs.

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Sara
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21 de agosto de 2013 15:20 delete

Ah, Brunno, o que dizer diante de um texto como esse? Teu modo de escrever me faz pensar em tantas coisas, me faz navegar nas entrelinhas e desejar que o texto não tenha mais fim. Mas o fim sempre chega, deixando a vontade de ler muito mais. "Belo rosto, bom gosto, você é um sonho de padaria. Doce, cremosa e barata. Ninguém precisava economizar para lhe comprar mas ninguém sabia mais onde vendiam suas porções individuais.", até guardei essa parte aqui, gostei tanto! Texto fabuloso, parabéns.

Ah, regressei pra minha antiga casa. Apareça quando puder :)
http://sara-rsc.blogspot.com.br/

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Mayra Borges
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21 de agosto de 2013 19:03 delete

Há certos textos que evito comentar pra não falar bobagem, esse é um desses, que me deixa imersa em um silêncio povoado por diversos pensamentos. Brilhante, tua escrita é única, inteligente e cativante.

eraoutravezamor.blogspot.com
semprovas.blogspot.com

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Dani
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26 de agosto de 2013 15:48 delete

Gosto da forma como escreve seus textos, brincando com as palavras e derretendo o neurônio dos leitores para entender o que se esconde nas entrelinhas. (:

Beijos

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26 de agosto de 2013 19:46 delete

Não conhecia seu blog, mas como estou em vias de reativar o meu, topei com seu comentário e retribuí a visita. Ótimo texto, gostei demais do seu escrever, de fato o melhor texto que li. A produção literária anda bem em baixa se comparada com os blogs de literatura. Continue com o bom trabalho!
Isabela

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Indd.
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4 de setembro de 2013 18:00 delete

Engraçado eu te ver "brincando" com o meu poema... Senti até uma pontinha de felicidade invadindo meu coração, como quem descobre que seu sentimento é recíproco... Isso pois sempre que te leio aqui sinto uma inspiração maior, vontade de me escrever melhor e soltar a imaginação sem medo...
Seus textos são incríveis, rapaz!
Beijos, boa semana
=)

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Nina
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4 de setembro de 2013 21:19 delete

Você com frequência cobra minha participação aqui, e eu não sei como sou capaz de deixar de lhe visitar. Sentia tanta falta dos teus textos, Brunno!
Essa forma que você tem, de comparar os sentimentos com o tato, o objetificado, o alheio e efêmero.
É desse tipo de literatura sincera que eu andava precisando.
Abraços, lindo.

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8 de setembro de 2013 22:57 delete

Pra variar outro texto bem escrito e UAU.
E, pra variar também, outro texto que não sei o que dizer.


Beijinho,
MF

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11 de setembro de 2013 18:42 delete

Mais um escrito carregado de entrelinhas e novos significados pra vida!
Demais, como sempre, sempre e sempre.

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11 de setembro de 2013 22:23 delete

Mais um texto que me deixar sem saber como comentar. Parabéns Brunno.
Estava com saudades daqui.
Eu já tive um sonho de padaria, e confesso que hoje tenho aversão a esse tipo. Tanto de pessoa quanto de doce.

Parabéns pelo teu dom.



ps: http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/ voltei com o blog, caso queira saber. :))

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 14:49 delete

Vontade não falta, srta. Quem sabe um dia. Ou uma noite.

Obrigado pela atenção de sempre.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 14:50 delete

Não tenho uma aversão ao romantismo, hehe. Apenas escolhi uma visão abstrata de outra parte da relação.
Continue no mundo dos blogs!

Obrigado pela visita.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 14:51 delete

Ora, mas quanta gentileza. Fico feliz de produzir esse tipo de sensação.
Obrigado de coração.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:00 delete

Eu sei que você sempre terá algo a dizer.
Obrigado pelo carinho de sempre e pelo critério de leitura apurado.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:02 delete

Fico feliz que essa seja a sua visão do meu humilde trabalho. Eu gostei.

Volte sempre, será um prazer.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:04 delete

Obrigado pela descoberta. É fato que não existem muitos espaços inspiradores por aí, mas o garimpo costuma trazer algumas preciosidades perdidas.

Volte sempre.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:07 delete

Quando uma publicação é inspiradora, a gente acaba querendo participar dela.

Obrigado pela extrema gentileza.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:09 delete

Sem palavras pra você, apenas agradecimento.
Sua opinião vale demais, você sabe.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:10 delete

O que é isso, MF. Você sabe exatamente o que dizer.

Obrigado pelo carinho de sempre.

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:11 delete

Sempre é o seu ponto de vista. Fico feliz que olhe as entrelinhas de cada parágrafo e encontre sua própria verdade ali.

Sem palavras!

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Brunno Lopez
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7 de outubro de 2013 15:13 delete

É bom quando algo que escrevemos honestamente é compreendido. Me alegra saber que você voltou para as loucuras do Teatro.

Obrigado pelo carinho.

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Marie Motta
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23 de dezembro de 2013 02:22 delete

Até hoje não sei se você concretiza o abstrato ou vice- versa.
Posso passar meses sem vir aqui, mas sem dificuldade alguma me atualizo de tudo, esse seu malabares com as palavras me encanta.

Parabéns Brunno.

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Brunno Lopez
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11 de setembro de 2014 13:52 delete

"Concretizar o abstrato", acho que foi a coisa mais bonita que li esse ano.
Comente mais, Marie. Gostei dos seus pontos de vista.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.