O CAVALHEIRO DA GENTILEZA

segunda-feira, abril 15, 2013 18 Comments A+ a-



Quando avistei a gentileza caminhando distraída, atravessando fora da faixa e com o sinal recém-aberto, reuni forças que nem eu mesmo sabia que possuía e me lancei num ímpeto altruísta-oportunista de salvar uma das mais prestigiosas virtudes de sua precoce aniquilação. 
A sociedade não conseguia se mover com um nível mínimo de cordialidade para compreender os passos livres da boa educação. Um acidente colocaria séculos da evolução humana em risco, tornando as relações interpessoais ainda mais primitivas e monossilábicas.

Era abril e eu queria que o cavalheirismo pudesse chegar ao Natal. Desejava que sobrevivesse ainda que exausto ao estímulos confortáveis da banalidade emocional que estrutura as relações humanas de nossos dias.

Meu desejo era apontar o dedo para a civilização contemporânea, ignorar a sinalização daquele trânsito caótico e mostrar a importância de cativar gentilmente quem nos faz bem.
A conquista consiste em desarmar personalidades e adequar a realidade do outro à uma curta fantasia que criamos em estágios iniciais de aproximação.

Ao longo dos anos, precisei exercitar minha destreza emocional por um objetivo nobre: escapar ileso das investidas implacáveis de um sentimento conhecido mundialmente como pretensão. Conservar o cavalheirismo em seu estado áureo demanda disciplina e muitos acabam se tornando falsos moralistas e/ou conquistadores pretensiosos.

Eu teria todos os motivos catalogados no universo para acolher esse rótulo e poderia desfilar pelas avenidas douradas da soberba sem receio algum de parecer prepotente. E a razão dessa nomenclatura é unicamente a sua voluptuosa existência.

E não estamos aqui falando de romantismo piegas e vago. Trata-se apenas de conduzirmos nossas ações com educação e coerência. Esse respeito nos molda o caráter e multiplica adjetivos de nossa personalidade.

Se os outros cavalheiros alimentam a inveja de três em três horas, é justamente pela honra de apenas a minha pessoa ter seu sabor na cadeia alimentar.

Pequenas coisas acontecem para que algo aparentemente grande aconteça. O imperceptível deveria ser muito mais reverenciado, pena que a gente nunca enxerga o processo, só o resultado final.

Com esses valores na mochila, tentava alcançar a gentileza antes da colisão. A confusão me mostrava outros desejos que precisava salvar. O que realmente pode vir de bom com essa postura?

Percebi o simples. Buscamos dias comuns. Felicidades comuns. Nada que seja obrigatoriamente catalogado como exagerado. Provavelmente o que existe de melhor está tão embutido no cotidiano que a gente não percebe justamente pela não necessidade de confetes e fogos de artifício. Não que a rotina precisa ser aceitada de modo unilateral, mas o dia a dia pautado em determinadas ações previsíveis nos ajuda a relaxar durante longas semanas.
Até o inesperado precisa de uma base organizada para acontecer e ser percebido.
Quem vive num caos não consegue sentir uma mudança mágica em sua existência usual.

E foi assim que a gentileza sobreviveu. E eu consegui colocar pontos finais nos pontos de vista da sociedade. 

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

18 comentários

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Mayra Borges
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15 de abril de 2013 11:43 delete

Seus textos me deixam sem fôlego, começo a ler e não consigo parar.
O texto todo me faz pensar em várias questões, uma delas: E se todos começassem a pensar e ver as coisas dessa forma, como seria? Não dá pra saber. Viver em sociedade faz das questões mais simples algo complexo. Enfim, não vou ficar devaneando aqui e cansando você. rs

Seu texto está ótimo, parabéns.
semprovas.blogspot.com

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Marcieli Zucchi
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15 de abril de 2013 14:32 delete

Quando comecei a ler o texto só consegui pensar que você, sempre tão realista, começou a escrever ficção. Porém, me deixei contagiar pelo espirito otimista dos que ainda acreditam que é possível reverter, ou amenizar, os valores da sociedade atual. Sociedade que admira mais a acidez que rima com estupidez e descarta a doçura da cordialidade. Lembrei de um menino que conheci anos atrás, daqueles que tratam bem o garçom e se oferecem para ajudar uma mulher, que jamais despertaria interesse sexual, a carregar algumas malas. Acho que ele era muito novo para perceber que a sociedade dificilmente irá reconhecer isso. Ser gentil é uma vitória pessoal e a recompensa é dada dentro de si. Se alguém for gentil esperando mais do que isso, é apenas a boa e velha pretensão.

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15 de abril de 2013 15:28 delete

Gostei muito, especialmente da frase final.

Índios (Legião Urbana) ficou tocando na minha cabeça.

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Ariana
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15 de abril de 2013 22:40 delete

Acho que falta muita gentileza nesse mundo e acho uma pena isso.
Deveriam existir mais pessoas como você, com o coração puro, que ajuda o próximo.
Mas acho que ainda da pra mudar isso, basta que cada um não olhe só para o próprio umbigo.
Belo texto!

Beijos

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Tally
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16 de abril de 2013 13:58 delete

"Pequenas coisas acontecem para que algo aparentemente grande aconteça. O imperceptível deveria ser muito mais reverenciado, pena que a gente nunca enxerga o processo, só o resultado final."

Amei o texto, bem diferente. Muitas vezes não enxergamos, mas é nas é entrelinhas que estão contidos os segredos da vida. (Alguns deles).

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Tally
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16 de abril de 2013 13:58 delete

"Pequenas coisas acontecem para que algo aparentemente grande aconteça. O imperceptível deveria ser muito mais reverenciado, pena que a gente nunca enxerga o processo, só o resultado final."

Amei o texto, bem diferente. Muitas vezes não enxergamos, mas é nas é entrelinhas que estão contidos os segredos da vida. (Alguns deles).

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Renata. Z. M.
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16 de abril de 2013 21:04 delete

É por essas e outras que eu ainda acredito na humanidade e na bondade das pessoas. Apesar de saber que o ser humano é mau por natureza, a gente tenta levar essas pequenas atitudes em consideração. Um gesto simples muda o dia, muda a vida.

Beijos.

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Sarah Marques
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17 de abril de 2013 16:44 delete

Oi, como está?
Eu amei o texto.
Expressa, com beleza e suavidade uma forma diferente de ver a vida, de ver as pessoas.
Temos que cada dia cuidar para que a gentileza não seja atropelada, que cada ato do nosso dia seja aproveitado ao máximo e visto como belo.
Sei lá, amei muito o texto, me fez pensar.
Tem post novo no blog,
passa lá e confere!

endless-poem.blogspot.com.br

Beijão

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Sol
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17 de abril de 2013 16:51 delete

A sociedade dita até padrões de como devemos ser felizes pautada num individualismo: quem chega primeiro é o melhor, o mais forte. Seríamos mais fortes se caminharssemos juntos? Enquanto nos agarramos às correrias do cotidiano preocupados com o presente, o mundo caminha pro futuro retrocedendo. Tem nos ensinado tudo na vida, menos viver. Menos ser humano. Tem nos ensinado mais, mais, demais... [de]Menos.

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Ianara Mendes
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19 de abril de 2013 22:13 delete

Por vezes o que realmente nos falta é atentar aos detalhes... Como você mesmo escreveu: "pena que a gente nunca enxerga o processo, só o resultado final". Pequenos gestos, palavras, sorrisos, lembranças, é o que fazem a vida valer a pena. Ler esse texto faz ressurgir a esperança nas pessoas, que nos faça refletir e começarmos a mudança.

Abraço!

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19 de abril de 2013 23:55 delete

Poxa Bruno, seu blog é um dos que tem mais conteúdo que de fato eu acompanhe.
Seus textos me deixam sem palavras. Sem argumentação cabível... Muito bom!

Aliás, gentileza gera gentileza, sabia?
;*

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Luiza
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20 de abril de 2013 22:20 delete

Muito bom Brunno, como todos os outros. Cavalheirismo e respeito andam um tanto escassos por aí, talvez a mochila dos outros esteja carregada de outros valores, tão inversos com a modernidade. Que bom que tu consegue se manter assim, intacto e ainda tenta levar seus princípios adiante. A vida fica mais leve e melhora com pequenos atos e ações quase imperceptíveis do dia a dia. Um beijo

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23 de abril de 2013 20:22 delete

A gentileza anda apagada, ou, usando partes da música daquela cantora... "sendo pintada de cinza".
O que não podemos é nos perder de nós mesmos.
E isso, como o processo da "gentileza", é um exercício cotidiano.
Muito bom o texto e sua visão desabafadora sobre o tema.
;)
Abraços.

www.atormentossingulares.com

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Ana Carolina
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26 de abril de 2013 09:30 delete

E é só isso que buscamos, dias comuns recheados de felicidades comuns...e isso basta!

belo texto, como sempre!

beijo

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30 de abril de 2013 10:34 delete

Ah, se todas as pessoas tivessem essa destreza que tens. Se metade do mundo fosse gentil a ponto de escrever uma coisa linda dessas, já estaríamos no lucro.
Gentileza leva a gentileza, cresci ouvindo isso...
E poxa vida Brunno, nem sei o que dizer.

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Luísa Zanni
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30 de abril de 2013 16:17 delete

Bruno!

A faculdade anda comendo meu tempo. Pra você ter noção, entrei no blog pelo computador da UERJ e já estou 17 minutos atrasada pra minha aula.
Mas ler seu blog está na minha lista de coisas pra fazer quando a rotina me der uma folga.

Beijos,
Luísa

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Ariana
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1 de maio de 2013 22:28 delete

Cade texto novo poeta?
Esperando! rs

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.