PRETÉRITO QUASE PERFEITO

quinta-feira, fevereiro 14, 2013 19 Comments A+ a-



A total fascinação pela surpresa me fez perder os caminhos óbvios até sua conquista. Enquanto meus dedos procuravam os botões de sua inocência, o mundo já tinha aberto seu zíper. Culpa dos atalhos que ignorei para permanecer na maratona das regras onde a linha de chegada é apenas o começo de outra corrida.

Todo o fôlego que perdia com você era encontrado boiando na saliva de algum beijo bom. Eu fingia não guardar rostos, entretando, seu nome era uma das poucas coisas que meu cérebro fazia questão de anunciar em horário nobre. Caro demais para quem tinha veneração por relacionamentos de baixo orçamento mas com enredo brilhante.

Se meu sono era te ver dormir, o mundo estava satisfeito em simplesmente te ver acordar. Você gostava de elogios que não tivessem a necessidade de se pesquisar a veracidade. Por mais que minhas atitudes lhe fizessem acreditar que vivia numa perfeita fantasia, era essa ácida sinceridade que te trazia para a realidade.

Eu vi quando a gaveta decidiu esvaziar suas melhores histórias. Passado palpável não é digno de quem sabe o que quer e em que mãos decide colocar um pouco de vida. Nossas sombras já conversavam sem que necessariamente estivéssemos presentes. Muitos classificariam esses acontecimentos como uma epifania quase completa de coincidências amorosas. Pra mim, demasiada intensidade emocional sem responsabilidade sentimental é apenas uma forma do desejo negligenciar o amor.

Assim, de nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo.

Imagem: Filipe Silva

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

19 comentários

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14 de fevereiro de 2013 12:27 delete

E do ponto de vista egoísta: de que vale um parque inteiro se brinquedo bom mesmo é aquele de estimação? Todo amor tem mesmo esse desenho que você fez, o importante é ter a certeza de que o dinheiro pago pelo tempo no parque vale "só" aquele brinquedo. Tem como não deixar um parabéns aqui? Adorei!

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Sol
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14 de fevereiro de 2013 13:49 delete

Quando se esta só, qualquer companhia é o bastante por aquele momento, mas quando se tem alguém, na ausência deste, ninguém é suficiente em momento algum.

O nome do blog faz jus ao blog. Teu teatro é lindo, Brunno. =)

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Thaís.
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15 de fevereiro de 2013 08:44 delete

Brunno, muito obrigada pelo elogio deixado em seu comentário no meu blog. É sempre bom receber elogios de quem gostamos de ler. Sim, adoro te ler. Teus textos são ótimos e tu sempre consegue colocar impacto ao final deles. Parabéns por isso!

Um beijo, @pequenatiss.

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15 de fevereiro de 2013 13:53 delete

"Assim, de nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo."
E, pensando por esse lado, tem brinquedos que valem certo preço... Ah, o amor.
Parabéns, magnifico, como sempre!

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15 de fevereiro de 2013 16:09 delete

E essas linhas que apaixonam hen?
Desculpe, não sei sobre o que comentar primeiro, se sobre a forma como desata um paradigma, ou o assunto, muito bem proposto, muito bem contornado.

A verdade é que tem que saber se divertir no prazo certo. As coisas não duram para sempre, os brinquedos tem tempo específicos para sua utilização, e como todo e bom brinquedo, a gente sempre quer repetir, mas nem sempre é permitido.

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16 de fevereiro de 2013 21:01 delete

O brinquedo pode ser o mais simples, como um carrossel. Por vezes, só queremos rodar nele.
Mas nem sempre ele funciona, não meu caro?
:)
Parabéns pelo texto!

Abçs!

www.atormentossingulares.com

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16 de fevereiro de 2013 23:34 delete

Parabéns Brunno, como sempre tuas palavras me encantaram... Amei a tua última frase "[...]nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo.". Conseguiste dizer muito, utilizando poucas palavras, pois realmente, sempre vai existir aquele "brinquedo" que, apesar de podermos escolher um diferente, nos prende e nos diverte muito mais do que qualquer outro.

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Dani
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17 de fevereiro de 2013 14:21 delete

Realmente é isso, quando se tem alguém fazemos tudo pensando nessa pessoa. Ela se torna exclusiva.

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18 de fevereiro de 2013 16:29 delete

"Passado palpável não é digno de quem sabe o que quer e em que mãos decide colocar um pouco de vida."

Suas palavras, sempre certas... Eu diria alguma coisa melhor, mas seus textos sempre me calam.

Um psicólogo que eu admiro muito escreveu em um de seus inúmeros artigos que devemos aprender a reconhecer o valor do privilégio de estar só, mas existe sempre alguém que, quando ausente, parece nos roubar o chão. Estar só só é privilégio pra quem não tem nada de si noutra pessoa.

Adorei teu texto.

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Ariana
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18 de fevereiro de 2013 22:47 delete

Sempre venho ao teu blog, me deparo com textos arrebatadores e fico sem palavras. Virou clichê já!

"Assim, de nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo."

Destacante esse trecho, vivi muito isso, ou vivo talvez. Tenho vários brinquedos nas minhas mãos mas quero aquele que não posso ter e isso causa uma angustia sem tamanho.

Parabéns poeta pelo lindo texto!

Beijos

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19 de fevereiro de 2013 09:13 delete

Confesso que de todos os teus textos, este foi o que mais me identifiquei e o que mais demorei para traduzir em palavras qualquer interpretação.

A cada paragrafo me revezei entre vilã e vítima das minhas próprias histórias e escolhas, misturando emoções e lembranças - característica dos teus textos. Entretanto, ao fim de tudo, prevaleceu o silencio que sucede a verdade indesejada.

Parabéns.

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Camila
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20 de fevereiro de 2013 15:12 delete

Olá, boa tarde, tem um recado no blog :)

Bjinhos

http://chadecalmila.blogspot.com.br/

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Nina
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21 de fevereiro de 2013 08:31 delete

Tem gente que não sai da mesmice, e desconhece (e nunca aprende) que os relacionamentos são saltos, aprendizagens, superações.
E uma última frase bem cara-de-pau mesmo: "não sabe brincar, não desce para o play".
Abraços.

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21 de fevereiro de 2013 10:55 delete

Eu sempre venho aqui e fico buscando as palavras certas pra explicar o que senti. Mas não há palavras pra comentar à altura de um texto como esse.
Desconheço alguém que escreva tão bonito nas entrelinhas da vida igual a você Brunno.

"Eu fingia não guardar rostos, entretanto, seu nome era uma das poucas coisas que meu cérebro fazia questão de anunciar em horário nobre."

Toda essa requalificação que dá ao sentido das palavras e expressões, fascina.

"Se meu sono era te ver dormir, o mundo estava satisfeito em simplesmente te ver acordar. "

Essa verdade, esse sentimento visceral é seu tempero alto, ponto forte.

É bonito sentir isso, como se o momento presente-presente mesmo, no sentido literal- tivesse mais sentido que qualquer treva do passado, e ainda assim, saber dialogar com as trevas do outro.
Sinto isso: Estar num grande parque e me interessar apenas um briquedo, sorte minha o 'brinquedo' estar fechado pra mim, pra sempre. ;)

Abraço grande, Ana.

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21 de fevereiro de 2013 10:55 delete

Eu sempre venho aqui e fico buscando as palavras certas pra explicar o que senti. Mas não há palavras pra comentar à altura de um texto como esse.
Desconheço alguém que escreva tão bonito nas entrelinhas da vida igual a você Brunno.

"Eu fingia não guardar rostos, entretanto, seu nome era uma das poucas coisas que meu cérebro fazia questão de anunciar em horário nobre."

Toda essa requalificação que dá ao sentido das palavras e expressões, fascina.

"Se meu sono era te ver dormir, o mundo estava satisfeito em simplesmente te ver acordar. "

Essa verdade, esse sentimento visceral é seu tempero alto, ponto forte.

É bonito sentir isso, como se o momento presente-presente mesmo, no sentido literal- tivesse mais sentido que qualquer treva do passado, e ainda assim, saber dialogar com as trevas do outro.
Sinto isso: Estar num grande parque e me interessar apenas um briquedo, sorte minha o 'brinquedo' estar fechado pra mim, pra sempre. ;)

Abraço grande, Ana.

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Rick
AUTHOR
21 de fevereiro de 2013 16:42 delete

Pois é, esse tal do amor é assim mesmo. Vai, vem, sobe, desce, tipo um parque de diversão mesmo.

Mais num fundo, a maioria das pessoas tem preferencia pela roda gigante, porque apesar de tanto cair e quebrar a cara, sempre volta a brincar neste circulo, bem natural da vida.

Queria ter falado do texto todo, mais é que a frase do final arrematou. hehe.

Boa tarde, "_"

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22 de fevereiro de 2013 19:23 delete

Aqui é inspirador! :)
Belíssimas palavras!

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1 de março de 2013 01:34 delete

Não sei como consegui ficar tanto tempo longe desse universo tão inebriante de palavras. Mas voltei e O Teatro dos Sonhos sempre será parada obrigatória em minha caminhada de indas e vindas. Porque aqui talvez seja um dois portais deste universo com raízes mais profundas. Raízes que envolvem os pés de qualquer visitante ou morador que queira entrar; o enche de emoção, inpiração e talvez o prepare um pouco mais para prosseguir com vivacidade por esse mundo de almas transcritas.
Como sempre, foi um imenso prazer. Obrigada!

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Bianca Doné
AUTHOR
6 de março de 2013 00:01 delete

"Assim, de nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo."
Eu estou apaixonada pelo texto, e essa frase tão simples traduz tanta coisa, e traz uma mensagem tão real e importante.
É até difícil encontrar palavras as palavras adequadas que façam justiça a um texto tão incrível.
Cada vez que venho aqui saio mais inspirada. Parabéns, mesmo.
Uma ótima semana
Beijos, b.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.