ERRAR É DESUMANO

quarta-feira, janeiro 16, 2013 18 Comments A+ a-



Para descobrir novas estações, precisei deixar de vestir o meu traje moralista de alta costura. Me arrastei por debaixo da sua porta e ouvi as boas vindas de um mundo ansioso para destronar minha majestade de caráter.

Na moda da superficialidade, todas desfilavam sobre a minha reputação. Os cafajestes dublavam os ecos de minha voz na esperança de reconquistar seus verdadeiros amores. Não que eu fosse o único da minha espécie, mas certamente era o último.

As tentações tem nomes que desconhecemos mas os rostos sempre são familiares. Eu decidi não raciocinar para testar a capacidade que meu coração tinha de mentir.

Quando não se leva nenhuma coisa a sério, a vida é uma festa interminável e o seu copo está sempre cheio. Tentava ficar impressionado por todas aquelas que trocaram a dignidade pela popularidade.

Eu reconhecia todos os movimentos, as estratégias previsíveis, as promessas tão vazias quanto os bolsos de quem não tem carteira assinada.
Suspiros? Nem os doces.

Não precisava de muita agilidade para me desviar de todos os olhares. Era uma pequena prepotência minha. Olhares dizem muito, mas quando nos fixamos apenas nessa ação, ficamos levemente vulneráveis ao imprevisível.

Aquela silhueta indiferente não se destacava da multidão, mas tinha estilo próprio. A respiração era doce e eu me senti analfabeto com toda aquela linguagem corporal. Admiração pode parecer uma pequena faísca, mas é o combustível mais inflamável que existe.

De tão quente, ela parecia ter o poder de fazer com que os verões fossem  eternos durante um simples beijo. Transformou minhas boas ações numa fogueira que atingiu os céus da minha confiança.
Eu havia perdido meus poderes. Meu coração sabia contar uma mentira.

Não seria possível voltar ao meu reino de postura ilibada e diplomacia incontestável. Não poderia reconquistar sua devoção com nenhum artifício surpreendente. A decepção mata a surpresa e o perdão não garante que as linhas da vida sejam escritas sem erros de ortografia.

Nem a minha maior sede foi capaz de beber toda a sua insanidade.
Acabei refém de meus disfarces quando você roubou todas as minhas melhores desculpas.

Algumas vontades são inesperadas e potencialmente irresistíveis. Os oportunistas e falsos românticos vivem dos prazeres imediatos. Nem todas as aventuras são saudáveis para a verdade de cada um de nós.
Por isso, quando decidirem abandonar as certezas da vida, estejam prontos para começar um relacionamento sério com o arrependimento.

Imagem: Emanuel Blenista