AS 15 ESTROFES DE UMA CENA

terça-feira, julho 03, 2012 4 Comments A+ a-



O verão acabou junto com o seu café
Meus planos com você não eram planos
Eram acidentados, íngrimes, eram verticais

E caímos pra cima, andamos de ré
Adivinhava o que não falamos
Fomos culpados, fomos imorais

Beijei seu passado de língua
O presente foi um flerte e o futuro uma despedida
Paramos o tempo e o fizemos mostrar as identidades
Éramos autoridades de nossas vidas

Nós perdemos a memória junto com nossa dignidade
Era glamour disfarçado de sorte
Jogamos os dados e compramos à prazo uma felicidade
Mesmo sem ter sul nem norte

Oficialmente eu te empurrei para meus próprios braços
Passei a noite como a vida passou por seus olhos atentos
Os meses então cobraram
Os anjos, esses cantaram
E os erros eram nossa única herança boa

Contei nossa história em pequenos pedaços
Você era um manequim dos meus melhores momentos
Os vinhos adoçaram
Os vizinhos, esses nos convidaram
Mas sua maquiagem saiu com a garoa

Seria mentira, mas era sua respiração
Era o disfarce do interesse
Então contratamos o fracasso

Mudei de ideia e de nação
Gostaria que agradecesse
O tamanho do meu abraço

Gostava de você bipolar
Um dia era casa, no outro, um lar
A certeza da incerteza
Era o DNA de nossa natureza

A cura estava num drink barato
Você sabia o nome do garçom
Sozinho, desenhei seu retrato
Bebemos e aumentamos o som

Na minha carteira só cabiam notas musicais
Esse era o dinheiro que tinha pra dar
Mas essas cifras não valem capitais
E a ruína passou a ser o meu lugar

Era o baile de debutante do seu sorriso
Cheguei atrasado e você dançou sozinha
Fingir emoções era preciso
Essa era a fortuna que sempre soube que tinha

Pegamos fogo, congelamos, fomos os 4 elementos
Escolhi minhas armas e você nunca soube atirar
Estava de terno, era o último dos meus casamentos
Eu disse sim e alguém na igreja mandou esperar

Tudo engordou, menos a nossa conta bancária
Eu queria amor, você queria ser milionária
Revistou meus bolsos em busca de trocados
E, assim como meu ego, estavam todos furados

Essa geração de arrependimentos te viciou
Os estereótipos acabaram com açúcar da nossa relação
Deixei minhas digitais mas você as apagou
E meu legado virou um ponto de interrogação

Imagem: Demetra Kotakis

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

4 comentários

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3 de julho de 2012 21:35 delete

Isso é tão real... adorei...
Beijo

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Marie Motta
AUTHOR
7 de julho de 2012 11:41 delete

"Escolhi minhas armas e você nunca soube atirar" Na vida é como jogar R. evil modo coop no hard, se você perder um tiro, ou corre muito ou é deixado para traz.

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9 de julho de 2012 00:50 delete

As digitais que deixamos no passado podem até perder a importância, como tudo que passa perde, mas não foram de tudo apagadas. E isso sim por vezes é nosso fracasso, o fato de não sermos deletáveis!
As migalhas que vc pediu não foram as mesmas que ela lhe deu. Mas no fim de tudo vc não queria migalhas mesmo ne?! :)))

belo texto, como sempre!

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Inercya
AUTHOR
9 de julho de 2012 03:47 delete

"Meus planos com você não eram planos
Eram acidentados, íngrimes, eram verticais" - como eu disse num outro comentário meu, adoro esse joguinho com as palavras. Dá uma coisa a mais no texto, fica mais chamativo, sei lá. E reparei muito como você compôs as rimas. Às vezes combinando em outros parágrafos, outras vezes não. Genial, genial! Admiro muito quem sabe fazer rima, e deixar tudo dentro do contexto (não consigo fazer isso).
;*

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.