A MARCHA FÚNEBRE DO ROCK

segunda-feira, julho 23, 2012 14 Comments A+ a-



Eu tinha acabado de montar a minha bateria numa casa noturna do interior de São Paulo. Era um sábado de julho e chovia torrencialmente, só pra variar (poucas pessoas usam essa coisa de “chuva torrencial”, nem sei porque usei aqui, provavelmente essa parte será eliminada na edição).
De uns tempos pra cá eu descobri que São Pedro é fã incondicional da minha banda. Sempre que marcamos um show ele faz as nuvens excursionarem até o evento. Mas isso não vem ao caso agora, o fato é outro. O dia que ele comparecer pessoalmente eu até lhe vou dar uma camiseta oficial do Barão do Tom pra ele – se a gente fizer uma até lá.

Somos uma banda de rock, se assim pode chamar nos dias de hoje um grupo que usa distorção em suas guitarras e pedal duplo em sua bateria. Honestamente eu tento colocar melodia em composições simples para soar com um mínimo de caráter e identidade. Isso também é uma outra discussão, só estou apenas tentando ambientar a história toda.

Então estava lá o técnico de som ajustando os microfones em minha Odery branca, recém-comprada. Ao fundo, o som ambiente reproduzia aos quatro ventos algum sucesso sertanejo da atualidade. Pra mim, um disparate quanto à música que seria apresentada naquela noite.
Mas eu não sou dj, nem técnico de som. Eu fiz Humanas e tenho uma inclinação maior que a da Torre de Pisa para percussão.

Enfim, durante esse processo, o mesmo técnico de som (aposto que vocês nunca leram “técnico de som” tantas vezes num mesmo texto) fez um comentário inesperado naquela úmida noite paulista:

“Hoje as baladas não tem mais espaço para Pop Rock. Vocês só estão aqui hoje porque vai tocar uma dupla sertaneja depois de vocês. Hoje, apenas o rock não segura uma casa noturna, não garante público, não estimula as pessoas a saírem de casa.”

Seria verdade essa afirmação?
Não sei, até porque antes mesmo que eu pudesse formular um princípio de raciocínio, ele continuou sua explanação:

“Vocês podem ver (ouvir) as rádios. Ninguém divulga mais rock. A gente não sabe quem está lançando disco, as músicas são todas velhas, não tem nada de novo nesse estilo sendo mostrado.”

Nesse ponto o meu cérebro já estava na página 654 nesse livro de 1 milhão de páginas que se chama Vida. E, sinceramente, ele não estava completamente errado.

Antes de acusar a sociedade atual de estar encefálica, previsível e de fazer pompoarismo com os refrões das canções sertanejas, vou discorrer sobre alguns pontos importantes nesse caso.

Longe de mim achar que um estilo musical possa definir a personalidade de alguém. O cara pode usar chapéu e ter uma conta bancária maior que todas as fazendas que o pai dele administra.
O sujeito pode ouvir as onomatopéias do Gustavo Lima no último volume do seu Golf 2008 e ser um respeitado profissional num escritório de advocacia.
Mas são essas as flores que estão jogando no caixão do rock?
O coveiro está sepultando um estilo musical histórico enquanto compra o DVD pirata do novo show do Michel Teló?
As rimas ficaram pobres e passaram a trabalhar por qualquer miséria que o Fernando e Sorocaba possam pagar?

Mas o que o rock tem feito? O que tem questionado?
É muito piegas vir aqui e cobrar do rock alguma atitude com base em toda a sua história. Seria tarefa dele fazer isso, não? Só que ultimamente os protestos ficaram todos com o rap. Olha que sério!
Tem rapper muito mais rock n’ roll do que uma própria banda de rock.

Não aceito a ideia de que o neurônio das pessoas dessa geração prefira usar camisas xadrez e ejacular precocemente com qualquer toque de sanfona. Ignoro esse monopólio pretensioso, fabricado e xerocado.

Ninguém está aqui pedindo para que um novo ídolo apareça e coloque o vagão dos bons acordes nos trilhos.
O que faria muito bem à saúde dos ouvidos desse século é a simples manifestação de boas ideias musicais. Honestidade sonora que não se vista com os trajes da moda atual. Canções que não se escondam nos estereótipos do suposto sucesso.

Oferecer mais do mesmo é facilitar a escolha dos preguiçosos.
O que encanta é a novidade feita com estilo.
E o rock sempre foi mais do que quatro letras e um punho fechado com dois dedos levantados.

Talvez o rock nunca venha a ser plenamente popular mas não pode se tornar item de colecionador.

Imagem: Giacomo Mirarchi

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

14 comentários

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Anônimo
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23 de julho de 2012 16:11 delete

Ótimo texto. Triste e Lamentável! Parabéns pelo blog.

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Augusto
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23 de julho de 2012 16:39 delete

Lamentável esse tipo de coisa.

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Karla Dias
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23 de julho de 2012 19:40 delete

Belíssimo texto Bruno.
Sua angústia é bem real,
muitas vezes me peguei pensando o mesmo. Aqui em Vitória da Conquista existe uma tradição do rock, com lugares que enchem com os aficionados com o som. No entanto esse ano o Festival de Inverno dá espaço para Jorge e Matheus no mesmo dia em que se apresentam Biquíni Cavadão e Capital Inicial...quer disparidade maior? mas aposto que vai ser o dia mais lotado, e não pelos fão de rock.
Mas eis a nossa missão seguir com o som, para além dos esteriótipos.

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24 de julho de 2012 12:37 delete

O mais bacana é que seu texto propõe uma reflexão ao invés de simplesmente criticar.

Estás cada vez melhor, menino Bruno!

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26 de julho de 2012 12:27 delete

"O que encanta é a novidade feita com estilo."

Não há muito o que dizer depois de lê-lo.

Abraço meu.

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Anônimo
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26 de julho de 2012 23:15 delete

Fato lamentável.O rock está claramante extremamente marginalizado,por assim dizer.Há quem diga que "não se faz mais rock como antigamente",frase que apoio mesmo sem grande entusiasmo.Porém,como toda boa tradição que acaba sendo perdida,o importante é que o rock ainda mantem seus entusiastas,o que o mantém vivo...Enfim,o post já diz tudo!

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Nina
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27 de julho de 2012 09:33 delete

Eu ainda prefiro o rock, embora este nunca tenha sido o meu estilo musical absoluto. E é realmente triste ver a minha geração tão perdida entre sertanejo "universitário" (você conhece alguém que não tenha largado a facu pra continuar cantando esse tipo de coisa?) e rock colorido (WTF?). Eu devo ser muito careta e tradicionalista. Ainda bem. Abraços.

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31 de julho de 2012 18:52 delete

O que acontece é o seguinte, são tempos de simplificacão. Não se perde mais tempo em ouvir músicas que fazem raciocinar, criticar... As pessoas estão se acostumando com a política do fácil, do rápido. Tudo tornou-se um turbilhão de cultura inútil. Concordo plenamente com o texto, prefiro um objeto em que pensar do que repetir o tcherererererêeee! SHAUSHUASA.

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Marie Motta
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2 de agosto de 2012 14:47 delete

Nunca gostei apenas de rock. Ouço pop, mpb e alguns rappers. Mas gosto de ouvir coisa que me acrescente e faça pensar.Hoje as músicas de sucesso são as que tocam nas novelas. Agora quem realmente estuda música, não recebe valor nenhum. Tem os que reclamam de pagar várias dilmas com DVDs original, shows, mas eu prefiro ir a 3 shows bons no ano, que vários sem qualidade.Pena que meus cantores favoritos já passaram dos 60...mas ainda tem o Andre Matos, pra salvar aí. Bom texto

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Camilíssima
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10 de agosto de 2012 14:03 delete

Retribuindo sua visita ao 'Mínimos Multiplos Comuns'encontrei um espaço interessante, acho que vou ficar... Gosto do teu senso crítico equilbrado ao senso de humor, diria... fundamental. Bem, quanto ao Rock, ele nunca morre. Em mim jamais morrerá.

Abraços,

Camilíssima.

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18 de agosto de 2012 00:08 delete

Concordo... Concordo em gênero, número e grau.
E de discordasse seria mais fácil comentar.
Você me deixa, quase sempre, sem palavras.

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Nina Auras
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18 de agosto de 2012 16:51 delete

Não deixe virar vintage, coisa perdida no tempo, ou existir sem essência. Não deixe morrer - ao menos não pra você. Quem sabe assim.

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Renata. Z. M.
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20 de agosto de 2012 11:45 delete

Estamos juntos nessa luta! Minha banda não é de rock, mas as influências de cada integrante são muitas! Tentamos colocar em cada música eletrônica uma pegada mais rock e ainda assim dançante e tudo isso acústico!

Mas sobre o texto, acho que a fase do sertanejo já está passando e logo não terão mais frases prontas e rimas feitas de séculos atrás pra eles usarem. Um dia a fonte seca né.

Porém, o pior está por vir e claro que eu não queria que fosse assim, mas a música do futuro é o funk. Triste mas é verdade, a tendência é forte.

Ótimo texto como sempre ;)
Beijos.

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Júlia
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24 de agosto de 2012 11:00 delete

Não sou tããão fã assim de rock, mas concordo com tua opinião. Texto muito beeem escrito!

Beijão :*

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.