MÁQUINA DO TEMPO DIÁRIA

quarta-feira, março 21, 2012 8 Comments A+ a-



Olhar para a infância e procurar entender os valores que carregávamos sobre nossas pálpebras é um exercício curioso que pode se tornar revelador, depende apenas do quanto desejamos nos aprofundar nas experiências que não tivemos quando os dígitos de nossa idade eram menores que dois.

A inocência é – invariavelmente - um requinte da vida. Um instrumento que não necessita de aulas para ser tocado profissionalmente. 
É ela que consegue oferecer a surpresa verdadeira, o delírio de cada pequena descoberta, o fascínio por qualquer acontecimento inesperado.



Penso em como não imaginava o que seria de mim.

Quando não temos a obrigação de lutar pela própria vida, nós vivemos realmente um dia de cada vez. Cada amanhecer é uma nova grande aventura, não existem prazos para a felicidade acontecer. As únicas expectativas são as datas comemorativas que nos são imputadas desde o berço. De resto, tudo é uma novidade mágica.

Quando se é criança, a vida tem o status de vida mesmo. Viver é um presente e nós abrimos esse embrulho todos os dias.



Eu escrevia sem a pretensão de ser redator. Eu batucava sem a idealização de ser baterista. Essa essência dos talentos que começavam a se desdobrar timidamente é algo extraordinário por alguns motivos capitais: Não existiam segundas intenções. Não se premeditavam atitudes para levar vantagens nisso ou naquilo. Não era possível fingir sorrisos para ganhar a simpatia dessa ou daquela pessoa.

Essa era a naturalidade que nenhum altruísta declarado conseguiria reproduzir hoje.



Às vezes olho para as minhas baquetas descansando sobre a bateria que sonhei tanto em comprar e lembro de como as marcas não importavam.

Era o som que me encantava, a possibilidade de reproduzir o que eu apenas fazia de conta.

Olho para esse teclado, para a tela, para as páginas e volto para as aulas de Português, de Redação, de Literatura e Poesia.

Era improvisação, era um feeling inocente que eu gostaria de ter capturado e mantido em um cativeiro criativo. Eram rimas que vinham em passeatas, em vozes claras e precisas. Nada era exagerado nem forçado. Era uma alquimia de naturalidade que apenas a inocência seria capaz de oferecer.



O significado de algumas palavras eram desconhecidos na prática. 
Todos somos famosos em nossa realidade nostálgica, todos nos admiramos e não existem os holofotes da sociedade para apontar as diferenças e forçar um norte desnecessário para o futuro. O futuro era o presente. Justamente porque o amanhã sempre estava tão perto.



Esse é um dos poucos crimes que a experiência comete. Ao comprarmos sabedoria, pagamos juros que são debitados da nossa inocência.

Imagem: Wilco Westerduin

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

8 comentários

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Nina Vieira
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21 de março de 2012 18:30 delete

Era especial ser crianca, porque não haviam planos realizados: somente a expectativa de fazê-los.

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Adna Martins
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21 de março de 2012 20:02 delete

Como é bonito ser criança.

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Adna Martins
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21 de março de 2012 20:03 delete

Como é bonito ser criança.

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Dani
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22 de março de 2012 15:47 delete

O pior crime feito contra a criança é quando se tira sua inocência.
Afinal é essa inocência que embeleza a infância. (:

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28 de março de 2012 00:35 delete

A infância é um estado de espírito. Conheço octogenários mais crianças do que uma criança dita como tal. Infância pra vida inteira, nos olhos, sorriso e naquela graça que só os moleques têm. Eu, de minha parte, guardo cá minha criança, que vive gritando e batendo nas paredes do meu (in)consciente, pedindo pra sair... =)

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Emi
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28 de março de 2012 22:04 delete

Genial e lindo. Tenho exatamente a mesma visão que você sobre a infância e o nosso hoje, enquanto jovens que precisam projetar e lutar por um futuro maravilhoso, ou adultos, com suas intermináveis preocupações.
Que falta faz a nossa infância, né? Que falta faz a inocência, a leveza, o andar distraído e sonhador.
Me identifiquei bastante e me emocionei também. A infância é algo que sempre me causa um turbilhão de emoções, de nostalgia e desejo de voltar no tempo - como se isso fosse possível...
Adorei mesmo, muito, muito lindo e verdadeiro.
Beijos!

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11 de maio de 2012 11:32 delete

Ah se todos nós tivéssemos a mesma inocência e boas intenções que quando crianças tínhamos, o mundo seria bem melhor de se viver.

Excelente texto para refletir o que fomos um dia e somos hoje.

Um beijo

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29 de maio de 2012 08:44 delete

Suas palavras nos emociona. Amei este trecho aqui: " Não provoque lágrimas em quem te protege da chuva, você não sobreviverá com o arrependimento."

Realmente, as vezes, o arrependimentos não nos serve, não faz as coisas voltarem para o mesmo lugar de antes. As lágrimas podem até terem secados, mas, as dores do coração permanecem.

O final do texto eu achei simplesmente perfeito!

"Não cobre a mesma intensidade do amor que oferece. Não poupe, não se esconda das suas vontades. O mundo dá voltas mas pode facilmente esquecer o endereço da sua casa."

E quando a felicidade não retorna simplesmente porque nós mesmo fizemos com que ela perdesse o nosso endereço, aí, sim, a dor é ainda mais cortante.

beijos.

http://luzia-medeiros.blogspot.com.br/

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.