TRÊS LADOS

segunda-feira, fevereiro 20, 2012 21 Comments A+ a-



Você quer um lugar na cama. Eu quero ter o seu sobrenome.
Quero tirar a roupa da mente. Despir os conceitos, a nudez é uma purificação.
Você pode facilmente reconhecer alguém que não desperdiça a vida nos estereótipos.
Não tratem o amor como um conto da cripta, um romance de carnaval, uma decoração barata para um festa de 15 anos. Não é doce demais para os diabéticos emocionais. Não é exageradamente salgado para os que vivem escravos de uma maresia inconsciente. Não é equilíbrio, não é paz, não é conforto eterno, não é promessa de garantia.

Quero razões sem a necessidade de argumentos. Manhãs ao invés de madrugadas. Brincar com o tempo, confundir os ponteiros. Vender abraços que todos possam pagar. Descobrir vícios entre beijos antigos que o amor faz soar tão novos.
A etiqueta não importa quando eu já desabotoei os seus medos. O chão clama por suas roupas. As paredes, por suas mãos. O ventilador, por sua transpiração.

As asas passam pela minha porta. O amor se rasteja em qualquer fresta, você só precisa deixa-lo espiar seus movimentos.
Ela dança frenética sobre as páginas dos livros que não leu, mas o coração sabia memorizar a parte prática da coisa. A teoria foi assassinada pelo tato do seu amante favorito. Não era mágica, não era um truque treinado na frente de um espelho trincado, mas eu fiz parecer o trabalho de um mago profissional, um artista em dias inspirados.
Ela queria uma obra de arte, eu ofereci um museu inteiro com exposições diárias em todos os horários.
Os críticos me fotografaram lhe roubando confissões. Ela era parada obrigatória num trânsito sem placas. Ele queria a fama que não estava embaixo das luzes, o reconhecimento que não estava nas cifras, nem nas capas dos jornais, nem em tablóides sensacionalistas.

Para compreender nosso mundo era obrigatório chegar cedo e aproveitar cada segundo da festa de nossas vidas.
Ela sussurrava, ele fazia música. Você tinha um gosto inédito, tudo fazia parte de um sabor que não se repetia.
Os goles não embriagavam, mas enchiam todos os copos que eu pudesse segurar.
Os vizinhos diziam que a gente combinava, como um lançamento de qualquer estilista conceituada. Estávamos na moda.

O tempo não passa para quem é afortunado nos detalhes. Obsessivo para ser inesquecível em cada pequena coisa.
Ela não se contentava com um parágrafo, tampouco com linhas avulsas. Era um romance que deveria repousar sobre o seu travesseiro.
Eu colocava as palavras na academia para que voltassem poderosas e invencíveis. Elas caberiam nas paredes do seu coração e nenhum inverno seria capaz de congelar tanta devoção.

Ela tem aquele sorriso de quem traz boas notícias. O destino nunca seria capaz de ir contra uma fotografia sua.

Imagem: Ag Adibudojo

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

21 comentários

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Daniela
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20 de fevereiro de 2012 16:31 delete

Bruno, perfeito, adoro este canto. Nem preciso dizer que vou compartilhar com os devidos creditos. Ab;os

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22 de fevereiro de 2012 16:57 delete

Sensacional!! Carregado de verdades que são desprezadas e enfiadas goela abaixo de quem aguenta...

[]s

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23 de fevereiro de 2012 09:01 delete

Aquela velha e sensível criatividade das palavras que você nunca deixará de ter, né?

"O amor se rasteja em qualquer fresta, você só precisa deixa-lo espiar seus movimentos" - Essa é uma verdade que se esconde dentro de cada um.

Eu não sei porque eu ainda abandono os blogs se eu encontro sempre coisas maravilhosas por aqui! :) :*

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Nat Souza
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23 de fevereiro de 2012 15:23 delete

Deu vontade de pegar esse texto, colocar em um potinho e sair correndo. Senti até ciúmes, de tanto que se encaixou no meu gosto. Belíssima íssima escrita!

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O Misantropo
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23 de fevereiro de 2012 16:49 delete

Belo texto e confirma meu comentário anterior. As palavras formam belas formações.

Abço!

O Misantropo

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Nina Vieira
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25 de fevereiro de 2012 01:56 delete

Vivo, ao meu mado, o amor de todas as formas e comprrendo os lados também.

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sambadegringo
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26 de fevereiro de 2012 10:46 delete

"Ela tem aquele sorriso de quem traz boas notícias" é uma das frases mais lindas que você já escreveu. ;)

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Luiza
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26 de fevereiro de 2012 22:47 delete

QUE LINDO BRUNNO, POXA VIDA, QUE LINDO! Quando leio um texto bonito assim tenho vontade de sair gritando pro mundo a joia que achei. Beijos

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Elania
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27 de fevereiro de 2012 20:51 delete

Tuas palavras penetraram na minha pele. De uma doçura, de uma cena incrível.
*-* bjs moço.

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28 de fevereiro de 2012 16:43 delete

Seu texto venceu toda a ansiedade de hoje, e eu consegui chegar ate o fim!
Vc me lembrou de coisas extremamente comuns e extasiantes. Acabo de me transportar da tensao dos estudos pra uma atmosfera beeeeeem mais leve. rs.

o texto esta lindo, mesmo!
e e bom voltar aqi :)

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Karla Dias
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29 de fevereiro de 2012 07:32 delete

Adorei seu texto Bruno...
Definitivamente intenso.
Já Karla Dias anda meio ocupada.
mas adoro aparecer por aqui.
Beijos

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Amanda Arrais
AUTHOR
29 de fevereiro de 2012 18:53 delete

Eu sei que me apaixonei com um texto quando colo um trecho pra comentar aqui e vou mudando ao longo das palavras. Pareces que tu crias conceitos e eu achei um que me define, acho que sou diabética emocional.
E tirar a roupa da mente... Bruno! É exatamente isso. As pessoas se despem, mas não se desnudam, tu explicas as coisas de um jeito simples, bonito.

"Ela queria uma obra de arte, eu ofereci um museu inteiro com exposições diárias em todos os horários."

E quando à essa citação acima, tenho plena certeza de que és capas.

=*

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1 de março de 2012 08:23 delete

Que texto mais lindo, Bruno.Fez uma bela decrição de duas pessoas apaixonadas. Adorei :))

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Ana Carolina
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2 de março de 2012 16:42 delete

Você como sempre domando sabiamente as palavras...
parecem tão mais leves quando escritas por você...é um exemplo!

beijo

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2 de março de 2012 19:51 delete

Boa noite, Bruno. Parabéns pelo teu texto criativo, interessante e singular.
O amor deu para perceber que eram notas ricas saídas se um violão tocando músicas apaixonadas.
A entrega perfeita e sem medo.
Amar desse modo, é muito bom.
Sempre há quem ofereça mais do que o outro, que recebe largamente, em grande vantagem.
Quem doa a sua alma, não arrepende-se.
Um beijo na alma, e fique na paz!

OBS: COMENTAREI EM POSTAGEM ABAIXO.

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5 de março de 2012 13:40 delete

oi Bruno (: não sei como você achou aquele escafandro caindo aos pedaços. obrigada por comentar.
antigamente eu lembro que lia seus textos e eles não faziam muito sentido para mim. mas agora estou maravilhada, com toda a sinceridade. são sentimentos identificáveis a qualquer um que já amou, até provavelmente clichês, mas que você descreve de uma forma muito sua. esse é um dos trabalhos mais difíceis que o autor enfrenta.
compartilhei o link desse texto no meu facebook. se você achar invasivo, ou quiser que eu tire, me avise. é que realmente gostei.
eu tenho vontade de ser essa pessoa para alguém, deve ser isso.
parabéns, um beijo.

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Maíra K.
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7 de março de 2012 10:28 delete

Só sabe o que é se sentir assim, o que é essa necessidade que nos consome e o que a falta dessa pessoa no faz conosco, quem já amou. Amou incondicionalmente.

Sensacional!

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Nina Auras
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10 de março de 2012 16:06 delete

"Ela sussurrava, ele fazia música".

Brunno, além de "perfeito" encontrei outro adjetivo para teus textos, ultimamente: intensos. Dá pra sentir o amor, dá pra sentir a doçura, dá pra sentir... Bom, dá pra sentir o que creio que você quis passar. Foi impossível não sorrir lendo. Lindo texto haha :D

"A etiqueta não importa quando eu já desabotoei os seus medos."

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Renata. Z. M.
AUTHOR
20 de março de 2012 17:36 delete

Tantas verdades que até perdi a conta.
Mas a mais verdade de todas é que esse texto, pra mim, me soou como um canto desesperador. Espero estar errada.

Mas mesmo assim continua lindo e como já disseram dá pra sentir.

Um beijo.

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21 de março de 2012 14:39 delete

Sensacional Bruno!
Tão intenso, terno e fascinante!
Ninguém iria contra a uma fotografia dela, nem contra a essas verdades suas, nuas.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.