PROJETO JUNO

segunda-feira, janeiro 23, 2012 16 Comments A+ a-



Lutamos contra a gravidade que prega nossos pés no mesmo chão desde o início de tudo. Queremos refrões que nos façam entender o resto das músicas. Contra as sínteses, apenas os curiosos.
Voamos baixo por não sermos dignos das estrelas. Não temos a inocência para destituir deuses mas qualquer nação consegue construí-los baseados sobre o nada. E hajam coroas, hajam reverências, hajam representações circenses de respeito aos símbolos. Aos líderes da falácia e do discurso semi decorado.

O oxigênio só chega através de máscaras de ar. O tato substituído pela virtualidade – que não tem nada a ver com virtude.
Cantamos a moda sem cordas vocais. Sem tons originais. Vestimos a roupa dos outros, em números menores com marcas maiores. E somos assim, coveiros da própria identidade. Imitando os passos de quem mal sabe andar. Sonhando a realidade dos que perderam a capacidade de sonhar, pois já tem tudo. Naufragando em águas rasas pois não sabemos nadar em oceanos radioativos.

Quisera poder voltar no tempo apenas virando a ampulheta. Quisera o arrependimento salvar e fazer backup automático dos nossos atos.
Quisera o amor resistir aos poderosos exércitos de outros tantos sentimentos.

Entramos na órbita de outro planeta e fomos expulsos da Terra como Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Desafinamos a mais simples melodia que tentamos tocar. As partituras não aceitam nossos dons obsoletos. A música só toca o silêncio.

Não basta técnica, não basta talento. A excelência pede alma. E onde está a sua?
Quando foi a última vez que você encheu mais os olhos do que os bolsos?

Quando lhe pediam a voz, você respondia com mensagens de texto.

Qual a vantagem de assistir de camarote, com todos os requintes do universo, a destruição do caráter? A ruína da atmosfera, em lágrimas falsas que não enchem um copo americano?

Se viver é sempre ter que provar alguma coisa, a vida não tem mérito. É caminhar com medalhas que consolam a consciência mas pesam nos ossos. É ostentar títulos que calam as pessoas mas ensurdecem os corações.

Será que os sobreviventes da nossa geração saberão medir o valor das coisas pela essência e não pela etiqueta?

Será que as pessoas saberão que o simples fato de fazer mais que o possível é uma maneira de se definir novos limites?
Mas o comodismo é um vício irresistível. A fórmula, o método, qualquer atalho é sempre mais atrativo que a transpiração necessária para se conseguir o novo.

Imagem: Xin Xin

A CONQUISTA PELA GENTILEZA

terça-feira, janeiro 17, 2012 7 Comments A+ a-



Gasta-se muito para manter os ouvidos das mulheres ocupados. Não o bastante, nunca o suficiente. A minha estimativa é que se trata de uma pequena fortuna.

É caro para qualquer cavalheiro plantar evidências de um amor convicto em todos os cantos da cama de uma mulher. Mas esses investimentos são necessários para que a confiança da sua escolhida não seja apenas uma caricatura de personalidade.

É um dom dissipar o passado usando apenas aquela simples técnica de beijo que você nem lembra como aprendeu.

Você faz elogios sinceros com o mesmo vigor de um campeão de halterofilismo, ou seja, a sua sensibilidade está com hipertrofia e ela não consegue tirar os olhos desse grupo muscular.

Ela transpira algum perfume francês tão violentamente delicioso que o seu nariz passou a rejeitar o oxigênio.

A inteligência pode ser um entretenimento divertido nesse parque de diversões. Poucas trazem esse brinquedo nas feiras de relacionamento, mas ela ousa oferecer essa combinação justamente pra você.

Antes eram apenas ruas estreitas para caminhar de mãos dadas, tudo milimetricamente previsível e de curta fascinação. Com ela, são avenidas intermináveis, iluminadas e convidativas. Lojas que vendem apenas o seu número, carros que tocam a sua música favorita em alto e bom som, o tempo todo.

O destino não se disfarça de tentações quando se acredita plenamente que a construção do comprometimento está alicerçada nas conquistas diárias. A admiração é um escudo contra as setas da novidade.

Existe uma ousadia nas letras de sua caligrafia. Ela se despe quando palavras e atitudes fazem par na mesma dança. Não são necessárias atmosferas cinematográficas para que a essência da devoção seja fabricada. Nada é ensaiado apesar da visceral harmonia.

Quando se é perfeccionista até no desnecessário, a excelência passa a ser a sedução favorita de quem ousar descansar os olhos em sua direção.

Ela está faminta por seu paladar e toda refeição só terá um suculento sabor se você colocar os temperos certos na receita da sua vida.

Imagem: Imren Tuzmen