AS CICATRIZES DE HONRA AO MÉRITO

terça-feira, novembro 08, 2011 13 Comments A+ a-



Cá estamos nós, debruçados sobre um conceito. Não estar acostumado a ficar sob os spotlights do Teatro Cult de Criatividade ainda faz com que minhas economias sejam destinadas à compra de óculos escuros de procedência desconfiável. O show tem que continuar, mesmo que os instrumentos estejam desafinados.

O mundo protesta sem causa na mesma intensidade que um trabalhador incansável marca os feriados no calendário. Ele quer esticar as pernas, os políticos querem esticar o mandato e nós só queremos esticar um final de semana, não?

Por que, nos dias de hoje, as pessoas ainda não podem seguir a própria intuição? Por que esse monte de formulário, essa burocracia criativa, esses eternos livros de 7 passos que só levam à lápide de nossa sepultura?

Vamos encenar uma peça cômica com os detentores do conhecimento de curto prazo, escrever um roteiro baseado em suas conquistas mais esquecidas que o título perdido pelo Brasil na Copa de 50.
Vamos alimentar o conforto, o convencimento pelo tempo de serviços prestados, vamos brindar em copos americanos de cachaça barata toda essa palhaçada argumentada em livros antigos, com estratégias ultrapassadas.

Infelizmente, vivemos numa época onde alguns profissionais conseguiram sobreviver no mercado fazendo um trabalho tão ridículo que chega a ser engraçado. Mas claro, essa graça não serve nem pra fazer cosplay do Cirque Du Soleil.

O pessimismo e a insegurança não podem deixar nublado um dia de sol. O desapego pela glória não tem poderes para transformar um sábado a noite numa segunda-feira de Sessão da Tarde.
Quando vozes roucas e preguiçosas lhes pedem audácia, comprometimento e genialidade é porque as mesmas não conseguem mais produzir nada além do lugar comum. Pedem pra pensar fora da caixa mas estão pregados dentro dela, olhando a vida por frestas de frustração.

É mais cômodo induzir um ataque do que colocar uma arma nas mãos e aprender a atirar. É mais seguro observar o crescimento dos soldados e roubar suas técnicas a troco de medalhas inúteis.

Medalhas de verdade são cicatrizes.

Imagem: Clément Samson

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

13 comentários

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Karla Dias
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8 de novembro de 2011 14:48 delete

Seu texto é muito forte.
Cheio de intensidade, vida, constância e protesto. Protesto contra a prolixidade, a incompetência e a idiossincrasia. Abaixo a mediocridade.

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Nina Auras
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8 de novembro de 2011 16:11 delete

O triste é ver essas cicatrizes sendo deixadas de lado pelo seu dono, que por vezes acha que o importante é a medalha entregue ao que "roubou sua técnica", parafraseando. Se bem que essas pessoas, que querem uma "recompensa", talvez não sejam também merecedoras das cicatrizes que a vida lhes proporcionou.

Tu sempre me fazes parar para pensar, Brunno, acho que isso é o mais encantador de ti e do teu Teatro - eu compro a entrada e leio um texto digno, bonito, que demoro uns dez minutos para ler (sim, eu sou lerdíssima), mas que fica na minha cabeça o dia inteiro. Se calhar, ainda lembro de pedaços de outros textos haha.

"Pedem pra pensar fora da caixa mas estão pregados dentro dela", exatamente. Essa hipocrisia é uma das maiores marcas da gente, acho. Quantas vezes não ouvimos "ser diferente é legal, é ok, se todo mundo fosse igual não teria graça", e quantas vezes não vemos as pessoas verdadeiramente diferentes sendo postas à parte, à margem?

Pra resumir tudo - que como sabes eu sou incapaz de fazer um comentário pequeno, sinto muito -, mais um texto maravilhoso, Brunno. Vou usar a palavra nesse também: perfeito. Beijos,
Nina (:

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Parker
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8 de novembro de 2011 16:20 delete

A realidade atual é reflexo da mediocridade coletiva.
Se um todo, ou uma significativa parte faz questão de demostrar-se como a laranja podre de uma fruteira, resta, talvez, a chance de salvar as boas antes que seja tarde de mais.
Não por alienação, mas pelo julgamento que a massa medíocre considere o inovador como podre.

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Ana Paula
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8 de novembro de 2011 16:42 delete

"Infelizmente, vivemos numa época onde alguns profissionais conseguiram sobreviver no mercado fazendo um trabalho tão ridículo que chega a ser engraçado."

O pior de tudo isso é que esses profissionais, muitas das vezes, acabam ganhando mais reconhecimento e oportunidades do que aquele que batalha, rala, sofre em sua vida dividida entre mil e uma atenções. Concordo totalmente com a frase final do texto: "Medalhas de verdade são cicatrizes."

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Amanda Arrais
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9 de novembro de 2011 19:52 delete

Às vezes é bom falar de coisas sérias pra ver se as palavras fazem com que elas deixem de ser brincadeira.
Como a Karla disse: sempre muito forte, intenso.
Senti tua inquietação e teu desgosto, e acho que ambos são compartilhados por todos.
E é claro que me apaixonei por uma frase:
"Medalhas de verdade são cicatrizes."

Se são, viu?

Sempre lindo aqui.

=*

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Renata. Z. M.
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9 de novembro de 2011 20:54 delete

Tem um rascunho meu em que escrevo mais ou menos isso. O comodismo tomou conta da atmosfera e ninguém está disposto à desimpregná-lo. É muito mais fácil puxar um tapete do que pregá-lo degrau por degrau. As falsas cicatrizes são as que ganham toda a atenção e ninguém para pra ver o sangue derramado ao chão, esforços em vão. (Rimas não propositais, rs)

Ninguém quer aprender a atirar. Já devem ter feito um App pra isso.


"Tenho observado que as pessoas não lutam mais pelos seus ideais, nem por aquilo que acreditam. Parece que perderam a essência da vida.
Ninguém mais se importa com o dia de amanhã, com o próprio futuro. Deixaram de lado a vontade de ser alguém na vida, de crescerem por méritos próprios e dar orgulho aos pais."


Mais ou menos por aí.

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Aline Valek
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10 de novembro de 2011 11:39 delete

"Quando vozes roucas e preguiçosas lhes pedem audácia, comprometimento e genialidade é porque as mesmas não conseguem mais produzir nada além do lugar comum."

E ora se essa busca incessante pela criatividade também já não é um lugar comum?

Quanto mais tempo a gente passa nesse jogo, mais a gente esquece de porque começamos a jogar. E gente cagando regra é o que não falta.

Ótimo texto, ótima reflexão.

Beijos.

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Larissa
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11 de novembro de 2011 10:58 delete

Gosto das suas "teatrices" de todo o tipo, aqui no bolg e fora dele.

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Nina Vieira
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23 de novembro de 2011 12:35 delete

Falar é fácil, difícil é se expor, fazer e acontecer. Nisso você tem toda a razão.

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Anna Soares
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23 de novembro de 2011 23:20 delete

quanta lucidez, tanta saudade.
Eu me pergunto a mesma coisa quase todos os dias.
Cicatrizes, né?

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Ju Fuzetto
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28 de novembro de 2011 09:25 delete

"Medalhas da verdade são cicatrizes"


Vc traduz o que a gente engole seco pra não doer.



Demais!!!

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28 de novembro de 2011 12:11 delete

Tanto meses que não acessso blogs...e o primeiro que resolvo revisitar tem tudo que eu preciso ler,rs.Acho que não dá pra esperar menos de "O Teatro Dos Sonhos".Seu texto sintetiza tanto o que as pessoas reclamam quanto o que elas guardam para si,e o que muitas precisa ver dentro de si,mas não tem coragem para tentar fazer isso,ou é tolo o bastante para não fazê-lo...Enfim,todo mundo devia ler isso...

Abraços!

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S
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14 de dezembro de 2011 20:42 delete

Você me deixa confusa, quando escreve tantas verdades assim, mas logo depois eu sinto como se tudo que tivesse lido antes era mentira e o certo é somente o que tu escreve, e me orgulho de ter a chance de ler tanta coisa boa e não me enjoar.
Brunno Saudades de você, Beijos!

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.