OS ESTRANHOS

quinta-feira, maio 26, 2011 17 Comments A+ a-



De onde brota a nascente do interesse que desboca no oceano de ansiedade?
Onde são feitos os planos sem qualquer alicerce não-abstrato?
Quem detém o mistério indescritível que impulsiona todos os mecanismos de cativação existentes em nosso arquivo de emoções?

Os estranhos.

Enquanto não nos aprofundamos em qualquer superfície de personalidade, toda novidade parece excitante em graus dignos do orgasmo de um porco.
Devaneios são criados, um mundo paralelo é desenvolvido pois a curiosidade sempre foi uma forma de dar prazer às ambições de nossas expectativas.

Quando não somos castigados pelo pesadelo da intimidade, fazemos suposições angelicais sobre qualquer feição do desconhecido. Entramos milagrosamente em contato com o nosso lado mais fantástico. Oferecemos, como se fossemos presidentes de todas as ONG's do planeta, o melhor de nós.

Apreciamos detalhes minuciosamente. Procuramos nos escombros de relacionamentos interminados, aquele abajur com luz infinita que pode decorar a sala de estar dessa tão surpreendente nova pessoa.

Cometemos crimes inafiançáveis em nome de uma justiça casual. Antecipamos beijos, ensinamos às nossas línguas todos os movimentos que o Carlinhos de Jesus faria com os pés. Imaginamos perfumes que nos desejariam bom dia num daqueles domingos de chuva, sem energia elétrica.

Se todas as relações conseguissem absorver a euforia emocional que depositamos em todo olhar que, por acaso, pousa sobre os olhos de completos desconhecidos, as igrejas seriam os maiores empreendimentos da construção civil. Afinal, os casamentos aconteceriam diariamente e durariam por todo o sempre.

Imagem: Beatrice Lai

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

17 comentários

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e.deamici
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26 de maio de 2011 20:19 delete

Esse texto me deu vontade de falar um palavrão, sabe?! rs
muito show mesmo!!!

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Amanda Arrais
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26 de maio de 2011 22:20 delete

Olha, eu vim aqui pra protestar (comigo e contigo)! Como pode eu ter passado tanto tempo sem vir aqui? Acho que tu devia postar no twitter quando bota um texto novo, assim eu leria todos os publicados. Ando sem tempo, acho que dá pra ver pela frequência das minhas postagens, sei que quero voltar a te ler, viu?
Tuas palavras são sempre encantadores.

=*

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Andressa
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27 de maio de 2011 22:11 delete

desculpa, mas
caralho.
SEM PALAVRAS BRUNNO!

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28 de maio de 2011 05:42 delete

Gosto do teu despojamento. Gosto da intensidade com com você sente e da tradução que faz para as letras. Gosto dessa tua sagacidade diante da vida. Gosto de vir aqui, por isso venho. Gosto de ti.

Um cheiro.

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Nina Auras
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28 de maio de 2011 14:59 delete

"Procuramos nos escombros de relacionamentos interminados, aquele abajur com luz infinita que pode decorar a sala de estar dessa tão surpreendente nova pessoa."

Lá vem você. E aí passa pela sua cabeça: "Ela de novo? Que irritante". Mas tudo bem. Sou aquele tipo chato de pessoa que sempre comenta. Sempre. Não entendo muito bem porque. Talvez esteja “conversando” contigo, com teu texto. Ironicamente, o texto de um estranho. Ok, então.

Acho que somos todos curiosos, afinal. Não sou eu, então, a única que tem a boba mania de olhar para alguém e imaginar como ela seria, como viveria, tudo. Criar uma pessoa que não existe por detrás daqueles olhos. Então os olhares se desviam, mas a lembrança daquele que “poderia-ou-não-ser-como-esperamos” está guardada na nossa imaginação por um bom tempo.

Sua última frase está muito boa (modo de dizer, já que o texto inteiro está lindo. Aaaaah, você me entendeu, não? Haha, não me expresso muito claramente). É bem isso. Adorei seu texto, Brunno! Como se fosse novidade...

Beijos (:

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Franck
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29 de maio de 2011 09:10 delete

Tbém estive ausente das casas virtuais dos amigos, mas cá retorno, espero, após um periodo que quase virei âmbar subindo em árvores, quase virei quartzo no escuro doq uarto e um áviario de pássaros mudos... Por isso me enquadro no estranhos!
Abçs!

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Ná Lima
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29 de maio de 2011 19:44 delete

Sábias palavras. Essa do porco me lembrou o fato dele ser tão invejado, viajei nessa.

Enfim, um turbilhão de emoções envolvem esse contexto.
Tem um tempinho que vim aqui, aprecio sua forma de escrever :)

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Cáh
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30 de maio de 2011 17:15 delete

“Enquanto não nos aprofundamos em qualquer superfície de personalidade, toda novidade parece excitante em graus dignos do orgasmo de um porco”.

Me parece uma regra viver assim: primeiro o encantamento do desconhecido, depois as delícias da descoberta que acontece aos poucos, depois a intimidade e o costume.
Brigo contra esta regra. Tentando mudar o rumo das coisas.

Concordo com vc e com todas estas sensações mágicas e excitantes dos estranhos. Mas ainda acho que é possível uma estranheza duradoura, quando se busca um modo diferente de ver as coisas, a cada dia, a cada estação...

Talvez eu esteja delirando, ou sonhando demais. Mas crer na loucura constante de beijos que aconteçam com os olhos, é o que me movimenta (também). Ainda não faço parte dos desistentes.

Belo texto Brunno.

Um beijo

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M.
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2 de junho de 2011 14:45 delete

Belo texto, belo blog. Voltarei.

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3 de junho de 2011 00:48 delete

Gostei... Mas especialmente do último parágrafo.. Me cativou. Lindo.

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Ju Fuzetto
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8 de junho de 2011 10:21 delete

É essa intensidade. Esse jeito de encarar a vida. Assim com maturidade, inteligência e sarcasmo. É a realidade. Custa acreditar. Mas estranho mesmo é a gente não aceitar tamanha estranheza.

Brunno sou fã!

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olhar
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9 de junho de 2011 18:15 delete

saudades daqui...é sempre tão bom te ler!

Beijos!

Bia
OLHAR DENTRO DOS OLHOS

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20 de junho de 2011 20:31 delete

boa crítica *-*
para os dias de hoje servem as anestesias, apenas, e as ideologias. Não olhar o bastante para o lado para não perder o bom humor. E ser feliz, fazendo o qe todo mundo faz, dizendo o qe todos dizer... E mesmo que não seja assim, de qualquer forma, estamos todos cúmplices da época. TODOS ;] ADOREI muito o post. e me fez muito bem ler seu último comentário. beeijo '

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Carina B.
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21 de junho de 2011 14:19 delete

Oi, Brunno.
Vim agradecer a visita e o comentário lá no meu blog e fiquei um tempo aqui te lendo, gostei muito dos teus textos.

Nos vemos "por aí". :)

Beijos!

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Daý
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21 de junho de 2011 16:57 delete

Caracas! Lindo!!!!!!
Beijo Bruno =*

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.