OS ESTRANHOS

quinta-feira, maio 26, 2011 17 Comments A+ a-



De onde brota a nascente do interesse que desboca no oceano de ansiedade?
Onde são feitos os planos sem qualquer alicerce não-abstrato?
Quem detém o mistério indescritível que impulsiona todos os mecanismos de cativação existentes em nosso arquivo de emoções?

Os estranhos.

Enquanto não nos aprofundamos em qualquer superfície de personalidade, toda novidade parece excitante em graus dignos do orgasmo de um porco.
Devaneios são criados, um mundo paralelo é desenvolvido pois a curiosidade sempre foi uma forma de dar prazer às ambições de nossas expectativas.

Quando não somos castigados pelo pesadelo da intimidade, fazemos suposições angelicais sobre qualquer feição do desconhecido. Entramos milagrosamente em contato com o nosso lado mais fantástico. Oferecemos, como se fossemos presidentes de todas as ONG's do planeta, o melhor de nós.

Apreciamos detalhes minuciosamente. Procuramos nos escombros de relacionamentos interminados, aquele abajur com luz infinita que pode decorar a sala de estar dessa tão surpreendente nova pessoa.

Cometemos crimes inafiançáveis em nome de uma justiça casual. Antecipamos beijos, ensinamos às nossas línguas todos os movimentos que o Carlinhos de Jesus faria com os pés. Imaginamos perfumes que nos desejariam bom dia num daqueles domingos de chuva, sem energia elétrica.

Se todas as relações conseguissem absorver a euforia emocional que depositamos em todo olhar que, por acaso, pousa sobre os olhos de completos desconhecidos, as igrejas seriam os maiores empreendimentos da construção civil. Afinal, os casamentos aconteceriam diariamente e durariam por todo o sempre.

Imagem: Beatrice Lai

1% DO AUTOR

quarta-feira, maio 11, 2011 17 Comments A+ a-



Em desacordo com minha atmosfera natural de produzir paz em larga escala, chego outra vez à festa particular que a vida me presenteia desde 1983.
O meu discurso perdeu um pouco do cuidado com elementos estéticos. Ficou menos fotogênico e talvez nenhuma pose que minhas palavras ensaiem possa render um book de ideias impecáveis.

Não fui concebido com estrutura suficiente para ser um carrasco e constantemente faço uma distribuição de sorrisos gratuitos apenas para atenuar quaisquer insatisfações que eventualmente as pessoas sustentem.

De fato, tenho predileção por anteceder acontecimentos. Saber onde piso é uma necessidade quase que fisiológica.

Injeto minha musicalidade em veias que são ariscas ao próprio sangue só para fazer as sílabas se tornarem cifras. Quando passos viram danças, nenhum destino fica inatingível.

A superficialidade desse planeta mascara todo o meu lado mais austero. Os mecanismos de ativação da minha ira exigem um conhecimento avançado para fazê-la funcionar. Não que as emoções sejam mitos de minha personalidade, mas não é qualquer brisa que me fará procurar um abrigo de furacões.

Minha atenção é tão valiosa quanto a Casa da Moeda. Se olho diretamente nos olhos durante qualquer diálogo - com qualquer ser humano - não significa se tratar de uma tática de conquista barata ou talvez um identificador de mentiras. É um profundo respeito.

Ninguém vive de graça e eu não meço investimentos para sair de minha existência com lucros substanciais. Presenteio inimigos com uma devoção maior que o próprio ego dos mesmos.

Soar como mistério é muito mais do que declarar guerras eternas contra o lugar-comum. É estimular a curiosidade e o interesse de quem decidir galgar as montanhas que cercam o ambiente de minha morada.

Imagem: Nucky Dana