O CALENDÁRIO SEM FERIADOS

quarta-feira, novembro 17, 2010 43 Comments A+ a-

Todas as maneiras invariavelmente clichês de se proclamar uma simples mulher, adulta, sem vícios, independente e segura de suas habilidades em uma possibilidade potencial de relacionamento duradouro, eu procurei utilizar.

É o último trem para lugar nenhum. O mundo todo vestia azul e eu ganhei rosas brancas. O que ficou atrás de você não eram sombras de romances secretos que nunca soubemos nomear. Eu fico a imaginar como os surdos fazem pra ouvir o próprio coração. Como os cegos entendem o amor que não é de sua natureza. Como os mudos aprendem a cantar a música favorita de suas escolhidas. Ninguém sabe. São os jogos emocionais que os fracos não aprendem e os fortes não trapaceiam. Eu quero o espaço inteiro sem a pretensão de ser o primeiro astronauta que sobreviveu sem ar. Eu quero a amplitude do seu abraço, o universo supersônico do seu olhar, a fome da sua boca por outra coisa que não seja o almoço comum.

Eu adoro as fotos que nunca tiramos e viagens que não planejamos. Por onde você andou que não guardou as cordas quebradas do meu violão?
Eu não posso doar sangue e nem sou esse estereótipo de amor barato, distribuído nos sinais junto com os habitantes das ruas que fazem malabares e limpam vidros dos carros. A minha constância está nas noites que não dormi querendo ser alguém melhor. Ou pelo menos procurando ser nomeado pra alguma coisa que ninguém no mundo seria.

O mundo dos jogos bonitos.
O nosso mundinho unilateral em que todos deveriam sorrir sem preços altos e abraços falsos. Eu posso mudar a personalidade de qualquer pessoa, eu consigo arrancar o cinismo defensivo dos olhos de qualquer um.
Eu só consigo me apaixonar pela novidade, é isso que faz os meus trilhos não terem destino. Eu não preciso de um passaporte, eu não quero cidadania fixa, eu não procuro a rotina dos casais pseudo-felizes. Não se pode acordar com novas inspirações femininas sempre, também não acho que minha devoção possa ser direcionada a quem não entende os meus domínios sobre o campo emocional.
Meus olhos estão secos como o Saara justamente por não mais trabalhar com as lágrimas. Não as contrato em minhas filiais. Ofereço-as a todos que encontram uma necessidade de temperar a alma. A minha está exageradamente temperada.

ENVOLVIMENTOS EMOCIONAIS

domingo, novembro 07, 2010 33 Comments A+ a-

Existe algum jeito de olhar para os seus edifícios sem agradecer ao mundo?
Não fui eu que acordei na melhor parte do sono pra dizer que aprendi a reproduzir os sons melodiosos da sua voz. Deve ser um outro ser humano, que nasceu no mês de maio e acreditou que poderia ser um rock star com alguma cultura limitada sobre música contemporânea.
Eu não veria nenhuma beleza no suicídio, mas se o sangue dos meus braços fosse necessário para completar o vermelho do seu disco de Newton, eu mudaria seriamente de idéia.
A liberdade que me inventaram não tinha passado pela rua da sua casa.
Não sabia que eram duas voltas no seu portão e um grito na sua janela.
E agora, o que fazer com o universo de definições?
Como olhar os sentimentos que me fizeram um ator mau-remunerado que repudia aulas de teatro e prefere interpretar páginas que nunca foram escritas?
Meus dedos querem o absoluto de um roteiro emocional. O limite do absurdo, o doce do exagero, o mistério do incomum.
Não existem tempos verbais que representem a unidade da sua conjugação.
Eu passei em todos os sinais vermelhos e só você anotou a minha placa.
Como queria que fosse culpa do meu egoísmo. Quero estar nos créditos, quero as luzes de Vegas no jogo que inventamos.
Andei por túmulos de tentativas que fiz e rejeitaram minhas rosas. Perdi datas de aniversário, comprei presentes que não agradavam, dei roupas que não serviam. E ainda procuram a perfeição em quem já saltou do mesmo prédio tantas vezes e nunca conseguiu atingir o chão.
Sempre confundem a minha desatenção com indiferença. A minha reputação foi escrita por alguém que não sabia ler. Uma prova de que a inteligência não consegue ser abstrata. A sabedoria não mergulha em águas rasas e eu aprendi a nadar pra chegar na tecla desafinada do piano que não sabemos tocar.

Eu só soube que suas cartas eram boas o suficiente pelo tamanho da fogueira.