O CAÇADOR DESLEAL

segunda-feira, julho 12, 2010 38 Comments A+ a-



Não foram os anos que aceleraram.
Não foram os números errados que você discou.
Não foram as sombras falsas que deixavam o sol passar.
Não foram os portões enferrujados de um coração qualquer.

Por maior que seja o som da minha voz desafinada, não tenho ouvidos pra direcionar.
Não creio que tenha algo substancialmente relevante pra entreter alguém.
Não acho que meus braços tenham o tamanho da sua casa.
Nem pensei em construir uma ponte sobre o muro das nossas vidas.

Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa.
Não consegui me congelar para chorar cristais e enfeitar a melhor parte do seu pescoço.
Não soube enganar a noite pra fingir te presentear com as primeiras horas do dia.

Alguém deveria roubar a honestidade de mim.
Alguém deveria me arrancar essas páginas amareladas, o meu dom condenado aos quartos empoeirados.
Alguém que provavelmente atende pelo seu nome.
Alguém que dorme numa cama igual a sua, com os mesmos quadros abstratos.

Eu não decorei o caminho de volta para os meus melhores dias. Nem sei se os vivi de verdade.
Talvez tenha mudado de faixa na melhor música do disco.
Não tenho mais o benefício da dúvida nem a certeza do provável.

Pensei que memorizaria antigos traços e melhoraria meu futuro desenhando por você.
Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade.
Eu nunca soube o que falar, mas o que balbuciava fazia um pedaço da sua alma não se esquecer do meu abraço.

Daqui eu aprecio todas as gotas da sua chuva que nunca passou.
Nunca existiam raios amarelos, o sol tinha medo de você.
Acordava só quando você estava num sono alto, com sua expressão malvada e impaciente.

Eu poderia culpar a sua existência, por ameaçar minhas desventuras.
Por jogar seus cabelos numa pista de dança e fazer sua música tocar mais alto.

Eu sei que, se a morte fosse um bem, eu seria o seu assassino.

Imagem: Lukás Zlatkovsky

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

38 comentários

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12 de julho de 2010 22:46 delete

Mas todos deveriam ser assim ...

*-*

adorei o texto ! ...
Mas principalmente a figura descrita!

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13 de julho de 2010 02:38 delete

pergunto-me se o eu-lírico é possível, querendo que exista.
mesmo que eu não o mereça.

brunno, obrigada pelos comentários. ainda acho que minha habilidade não se compara à sua, mas ao menos é algo no que me espelho.

um beijo, vou ler a de baixo.

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13 de julho de 2010 07:34 delete

Adoro vir aqui para ler os textos!
To te seguindo!

Feliz dia Mundial do Rock!
\m/

;*
Marina

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Carolyne Mota
AUTHOR
13 de julho de 2010 16:34 delete

"Eu sei que, se a morte fosse um bem, eu seria o seu assassino."

É incrível como suas frases finais permaneçem na minha cabeça por dias a fio. É porque elas marcam de verdade.
Esse texto me lembrou a música "Wonderwall" de Oasis.
Adorei o texto!

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Mariana
AUTHOR
13 de julho de 2010 16:55 delete

Realmente, sem palavras.
Confesso que meus braços se arrepiaram quando terminei de ler. Como sempre, Brunno, você arrasa. *-*

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Cris .
AUTHOR
13 de julho de 2010 17:03 delete

Nossa que forte isso,
é incrivel como por alguns segundos agente consegue viver tudo isso que vc escreve, fascinante;

Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade. 'destaco isso, muito bom.

ah e em relação ao seu perfil, adorei o 'Romeu desatualizado' #]


~

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Larissa
AUTHOR
13 de julho de 2010 22:02 delete

Não tenho palavras para descrever tamanho talento. É a primeira vez que venho aqui, é o primeiro texto que leio por aqui e já estou encantada com tamanha sinceridade.
Tua escrita me cativou e não tenho motivos para não voltar. rs

Um beijo.

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Carolda
AUTHOR
13 de julho de 2010 22:09 delete

E você me fez esquecer o que eu ia dizer com essas últimas palavras.
Texto poético. Intenso. Adorei.
Um beijo

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13 de julho de 2010 23:22 delete

"Alguém deveria roubar a honestidade de mim..."
"Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade. "

Minha vez de dizer...você resolveu abrir minhas gavetas e roubar uma parte do que pensei?

que sintonia bacana! ;)

Vc escreve MUITO BEM!
;*

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14 de julho de 2010 02:22 delete

Amo escrever, detesto ler.
Mas por algum motivo (que eu ainda não descobri qual) seus textos tendem a prender a minha atenção, tocam fundo as minhas feridas, mas de forma realmente engraçada, as acariciam e não as maxucam mais ainda.
Estranho mas, você me entende.

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14 de julho de 2010 12:41 delete

Me apaixonei pelo seu blog, de verdade.
Que bela surpresa me trouxe seus textos.
Adorei.
Sigo aqui também. :D
Grande beijo.

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Naia Mello
AUTHOR
14 de julho de 2010 13:25 delete

Eu gosto dos finais dos seus textos. Sempre impactantes.
bjão.

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Thais Alves
AUTHOR
14 de julho de 2010 13:51 delete

"Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa."

Perfeeeitaamente perfeito , ameei *-*'

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14 de julho de 2010 15:36 delete

Eu realmente não sei o que dizer para você depois de ler o seu texto, alias, um texto como esse. Meu Deus! Você realmente escreveu para matar todos os seus leitores, certo? Incrível. Cada palavra, cada cena que você nos provocou, tudo. Simplesmente, AMEI demais. Pode ter certeza que vou seguir seu blog e voltarei sempre. Ah, obrigada pela visita lá no meu humilde blog. Volte sempre! Beijos :*

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Sil..
AUTHOR
14 de julho de 2010 20:24 delete

Brunno, PERFEITOOOO isso!

Talento nato, palavras óbvias, tudo perfeito!

Te acompanho!

Um abraço!

PS: Qto ao seu comentário, eu tbm prefiro as letras!

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14 de julho de 2010 21:42 delete

Muito bom, nem tenho mais o que dizer, nem tenho como retirar alguma parte que gostei, pois gostei de td, cada linha, cada cena...
Mais uma vez tá de parabéns...

Abraços!

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14 de julho de 2010 23:18 delete

Nao deixe que ninguem te roube isso rsrs
Nao deixe que te tiram o que tem de mais bonito e encantador, sua transparencia.

Seus textos sao envolventes simplesmente porque escreve com o coraçao e com toda a sinceridade.

Parabéns, assim como todos os outros esse tambem disse tudo que precisaria pra ser inesquecivel.
Beijos

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Luiza
AUTHOR
14 de julho de 2010 23:18 delete

Sempre me coloco em segundo plano então, assim como você, não acerto a presa sem me ferir e não vejo lágrimas sem as derramar também. Isso é um completo atraso de vida, pois sempre penso mais nos outros do que em mim mesma.
Desculpe pelo cometário tolo, mas é que seu texto me disse tanto que fiquei sem o que dizer.

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Lís
AUTHOR
14 de julho de 2010 23:21 delete

Primoroso.
Você tem o poder de me fazer acreditar que os anjos podem amar os cavalheiros e que o outono não dura para sempre...

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Flor Baez
AUTHOR
15 de julho de 2010 09:19 delete

Caramba Brunno! Muito lindo!
Você escreve muito bem! Consegue transformar uma poesia em uma linda e dolorosa história.
Estava muito desencantada com a poesia, e de repente aparece você e o Franck para me provar que elas são reais, suaves e mágicas!!!
Bjs

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15 de julho de 2010 10:36 delete

Fantastico!


'Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa.'

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Camila
AUTHOR
15 de julho de 2010 13:54 delete

Achei muito intenso... gostei demais :) Maravilhoso, pra não perder o costume né, rs!

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Patrícia S.
AUTHOR
15 de julho de 2010 14:06 delete

De onde vem tanta criatividade? haha
Adorei.

beijos

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Grafite
AUTHOR
15 de julho de 2010 15:08 delete

Excelente!
Soube ousar das palavras em medições perfeitas...

beiijo,
*.*

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Karine Melo
AUTHOR
15 de julho de 2010 19:16 delete

Perfeitamente lindas as suas palavras!

Parabéns, Bruno!

beijos :*

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clau
AUTHOR
15 de julho de 2010 20:32 delete

que genial seu blog..estou te seguindo pra sempre..
me visite e me siga..
abraços!

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Lu.S
AUTHOR
16 de julho de 2010 00:48 delete

Olá.

Ah Ah Bruno, você é uma pessia muito especial. Meu, eu adoro suas palavras, de verdade, por isso não faço só mais comentário, e faço "o comentário", aposto que você já arranjou muitas namoradas assim, por que quando você colhe cada palavras de sua mente "iluminada". você constrói coisas divinas. Eu pdoeria pegar uma linha ou uma oração, ou uma parte do seu texto, mas não, eu pegaria o texto todo, por o TEXTO TODO ficou muito bom. de verdade.

Beijos.

Agora estou indo ler o penúltimo post( de novo), pq eu não li direito da última vez.

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Mila
AUTHOR
16 de julho de 2010 15:03 delete

"Não foram os anos que aceleraram.
Não foram os números errados que você discou.
Não foram as sombras falsas que deixavam o sol passar.
Não foram os portões enferrujados de um coração qualquer"


.....
Tão verdadeiro...tão intenso...

Acho que você abriu minha caixinha de verdades doloridas, e resolveu escrever sobre elas...

Gosto daqui...
Sempre ótimos Posts.

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16 de julho de 2010 16:37 delete

Você escreve tãaooooooo bem e de uma forma que nos prende a leitura *_*
Ammmei <3



Beeeeijinhos!

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Biia
AUTHOR
16 de julho de 2010 21:02 delete

Nossa que lindo, meu anjo... Parabens, você escreve MUITISSIMO bem.
depois dá uma olhadinha lá: http://borboletasyhadas.blogspot.com/
Obrigada.

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Má Salvatori
AUTHOR
17 de julho de 2010 19:23 delete

Bruno, quanta sensibilidade!!!
Vários textos que li, encantaram-me...
Acredite, o MUNDO é seu, VIVA!!!

Beijo
Má Salvatori

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'
AUTHOR
17 de julho de 2010 19:43 delete

Primeira visita aqui, mesmo assim acabo de me pegar refletindo sobre o seu texto. Adoravél! :}

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18 de julho de 2010 16:41 delete

Brunno, você está sempre me surpreendendo com o que escreve, cada vez que venho aqui eu me deparo com ótimos textos. Parabéns!

Blog sempre muito bom. Beijos!
Estou te seguindo.

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Thay
AUTHOR
18 de julho de 2010 20:47 delete

Realmente muito bom, seu texto é ótimo. nem sei o que dizer.

'Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade.'

muito bom ;*

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Thai
AUTHOR
19 de julho de 2010 08:01 delete

Muito obrigada pelo teu comentário tão simpático no meu blog.. E se chegar até lá foi um vôo sem escalas para o desconhecido, conhecer o teu foi ganhar na loteria! Muito bom começar a semana assim. Tô seguindo tbm. Beijos!

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Dany
AUTHOR
19 de julho de 2010 10:05 delete

Sempre passo por aqui... Adoro seus textos, são todos perfeitos. Estou te seguindo.
bjsss

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Camila Paier
AUTHOR
19 de julho de 2010 12:40 delete

"Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa." Eu também não..E pode parecer clichê, mas é a mais pura verdade aqui: dói realmente muito mais em nós, do que no outro.
Fico triste com isso, mas espero que passe! Para variar, mais um belo texto que me descreveu parcialmente.
Um beijo!

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Luiza
AUTHOR
19 de julho de 2010 15:01 delete

"Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa." Nossa, que texto lindo, fantástico, tinha várias partes com as quais me identifiquei. Muito lindo, beijos.

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.