INVISÍVEL

quarta-feira, março 24, 2010 6 Comments A+ a-



Um dia você desperta numa manhã qualquer e descobre que seu celular parou de tocar.
Descobre que sua roupa não combina e que seu cabelo não é o cartão de visitas que você imaginava ser.

Numa dessas manhãs (ensolaradas ou chuvosas, pois isso não importa mesmo) em que abrir os olhos não lhe soa tão natural assim, você percebe que suas mãos perderam o formato.
Você começa a ouvir sua própria respiração.

Você pega toda a sua gaveta de sentimentos e fica em dúvida se os coloca pra lavar ou se livra deles de uma vez.
Algo em você lhe diz que cócegas não funcionam como estimulante verdadeiro de felicidade.
Seus olhos entendem agora o marasmo dos telhados cinzentos. Nós nunca olhamos pra eles, mas hoje, você está em outro momento.

Tudo o que lhe impressionava poeticamente, toda a fantasia, todas as cores que você vivia exaltando em sua personalidade, parece uma farsa pra você.

Depois da tempestade, não deveria existir a bonança?
É o que sempre lhe venderam... e você comprou isso todos os dias, sem pestanejar.
Talvez você nem saiba o que significa ‘bonança’.
Mas isso também não faz mais sentido agora.

As horas em que você teve superpoderes, quantos você salvou?
Nunca nos explicaram que talvez os poderes fossem pra nos salvarmos de nós mesmos?
Mas essa é uma música ruim de ouvir e que toca numa estação insintonizável.
As ruas que você sempre evitou hoje são as únicas que abrigam os seus passos.
O planetinha perdido e superficial que você sempre ignorou te convida pra dançar.

Você conhece as regras e nunca as quebrou. E quando as quebra, o coração se parte em pedaços tão pequenos que conseguem atravessar o buraco de uma agulha.
Mas hoje, não existem mais romances cardiovasculares.
Logo você não poderá encontrá-los nem mesmo nas locadoras.

Esse jogo que aprendemos há tanto tempo, ninguém ouviu falar.
Ninguém quer saber que peças faltam, que cores dão mais pontos.
Tudo lhe arrebata de uma forma desinteressada, como um momento que morrerá daqui a pouco.

A razão não tem valor.
Estar certo e lutar por isso não tem valor.

O que vale alguma recompensa é ‘seguir o fluxo’ (como alguns dizem por aí).

Lembra da última vez que que foi honesto(a) com você?

Hoje, isso não é mais vital.

Você perdeu a hora pela primeira vez.
Você ofereceu seus lábios ao acaso pela primeira vez.

Os desejos deveriam ser diferentes mas o seu interior é forte.
Você escala esses precipícios como se fosse brincadeira.

Mas não é uma brincadeira.
O que se faz nesse mundinho gelado ainda se paga aqui.

Hoje você compreende o que algumas canções querem realmente dizer.
Aquilo era mesmo de verdade, não foi fabricado pra te fazer chorar.

Nessa manhã, em que tuas asas lhe dizem que nunca funcionaram você percebe que nunca saiu do chão.

Mas estar ao nível do mar vai te fazer algo que você ainda não é?

Imagem: Matteo Abbondanza

Redator publicitário, baterista, compositor e escritor - flertando perigosamente com o roteiro. Reflete sobre cultura, pedaços de mainstream e as maravilhas ocultas em pequenas situações do cotidiano.

6 comentários

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Pasárgada
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29 de março de 2010 06:10 delete

Nossa! Pareceu uma manhã de choque! hehe Pois é, mas eu acho que é sempre assim, existem sempre um dia escolhido pra gente mudar, mas nem sabemos quem escolhe, nem a data certa. Bem legal o texto, viu?

Ingrid Brasilino
Beijos

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29 de março de 2010 21:03 delete

Acho que todos temos momentos em que questionamos se nossos valores estão nos levando a algum lugar. Se valeu á pena lutar por nossos sonhos, ir contra ou simplesmente na direção contrária a opnião alheia.. enfim..
mas creio que no fim um pouco de fé em si mesmo e dias melhores curam isso.

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11 de abril de 2010 04:37 delete

O essencial é invisível aos olhos.

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30 de abril de 2010 21:14 delete

O correr dos dias se encarregam de colocar as coisas no lugar feito mágica, feito brincadeira. As verdades mudam, se reconstroem e aí, as coisas voltam a ganhar algum sentido.

Um abração.

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milena
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6 de julho de 2011 13:36 delete

Muito bom, Bru, li prendendo a respiracao! Parabens!

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Adna Martins
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17 de setembro de 2011 01:43 delete

Brunno, estava eu hoje a tarde dando continuidade na leitura dos seus textos - por celular, pois curiosidade é algo que você implica muito bem em nós - e eu simplesmente sorria pra tela no meio de outras pessoas. E me questionaram: o que você está fazendo? Sorridente respondi: ele é brilhante! Voltei a ler, como quem diz: não me interrompam, por favor, só se for pra degustarem comigo um talento manifesto em palavras. Querido, li todos os seus textos e leria muito mais se tivesse. Gostei das suas críticas que rasgam máscaras e despertam almas adormecidas, e das suas doçuras de gostos, canções e tons distintos com perfumes de amor. O que posso te desejar?
Deus te abençõe!

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Divague, opine, discuta. Coloque sua inspiração no 220v. Toda essa transpiração criativa é o combustível da minha respiração.