AS QUATRO LETRAS

terça-feira, março 30, 2010 1 Comments A+ a-



Eu ainda não consegui achar uma associação para tais letras.
Talvez apenas outra resposta para uma pergunta que você ainda nem formulou.

É fato que o amor que nos venderam não foi feito na última poltrona do cinema.
Não estávamos perdidos naquele filme sem título?
As pessoas cronometram seus próprios desejos. Pagam em espécie. Adormecem.
E os sonhos? São apenas guloseimas de padaria?

A decepção é a evolução do amor.
O Último Andar que a Cecília Meireles não quis explicar.
As cores que somem quando o seu melhor sono não vem.

O amor não permite esse eufemismo.
Ele quer seus dois braços pra você acabar voando como Ícaro.
Talvez o segredo esteja ‘no processo’
Talvez a felicidade esteja nisso.

A felicidade está no nó da gravata, no zíper pela metade, de um vestido qualquer.
Está no caminho pro carro, nos depósitos mensais em contas conjuntas.

Está na intenção do beijo, na formação de um abraço.

E é tão difícil de sentir isso em seu momento vitalício.

Imagem: John Georgiou

OS HERÓIS QUE NÃO USAVAM CAPAS

segunda-feira, março 29, 2010 0 Comments A+ a-



Era uma cartola que eu vestia.
Estava por ali, te apavorando, como uma taça do seu vinho favorito.
Andava pelas intermináveis escadas dos seus sonhos sem perder meu fôlego.

Minha capa estava cansada de definições.
Morria por um anjo qualquer. O vermelho do seu batom falso marcava tão bem.
Talvez fosse mesmo um truque, daqueles que treinamos na frente do espelho.

Poucas palmas fizeram das nossas músicas um sucesso.
Talvez eu esteja pálido, não pela ausência do sol mas pelo excesso de chuva.
Quem deu bom dia para os melhores dias de sua vida?

Então, com toda essa armadura de saudade-mágoa, qualquer batalha soa insignificante.
Me deixe com meus livros, com minhas páginas aleatórias. Eu tenho alguns personagens heróicos o bastante.

Será meu inverno perfeito?

Imagem: Steve Dehanne

INVISÍVEL

quarta-feira, março 24, 2010 6 Comments A+ a-



Um dia você desperta numa manhã qualquer e descobre que seu celular parou de tocar.
Descobre que sua roupa não combina e que seu cabelo não é o cartão de visitas que você imaginava ser.

Numa dessas manhãs (ensolaradas ou chuvosas, pois isso não importa mesmo) em que abrir os olhos não lhe soa tão natural assim, você percebe que suas mãos perderam o formato.
Você começa a ouvir sua própria respiração.

Você pega toda a sua gaveta de sentimentos e fica em dúvida se os coloca pra lavar ou se livra deles de uma vez.
Algo em você lhe diz que cócegas não funcionam como estimulante verdadeiro de felicidade.
Seus olhos entendem agora o marasmo dos telhados cinzentos. Nós nunca olhamos pra eles, mas hoje, você está em outro momento.

Tudo o que lhe impressionava poeticamente, toda a fantasia, todas as cores que você vivia exaltando em sua personalidade, parece uma farsa pra você.

Depois da tempestade, não deveria existir a bonança?
É o que sempre lhe venderam... e você comprou isso todos os dias, sem pestanejar.
Talvez você nem saiba o que significa ‘bonança’.
Mas isso também não faz mais sentido agora.

As horas em que você teve superpoderes, quantos você salvou?
Nunca nos explicaram que talvez os poderes fossem pra nos salvarmos de nós mesmos?
Mas essa é uma música ruim de ouvir e que toca numa estação insintonizável.
As ruas que você sempre evitou hoje são as únicas que abrigam os seus passos.
O planetinha perdido e superficial que você sempre ignorou te convida pra dançar.

Você conhece as regras e nunca as quebrou. E quando as quebra, o coração se parte em pedaços tão pequenos que conseguem atravessar o buraco de uma agulha.
Mas hoje, não existem mais romances cardiovasculares.
Logo você não poderá encontrá-los nem mesmo nas locadoras.

Esse jogo que aprendemos há tanto tempo, ninguém ouviu falar.
Ninguém quer saber que peças faltam, que cores dão mais pontos.
Tudo lhe arrebata de uma forma desinteressada, como um momento que morrerá daqui a pouco.

A razão não tem valor.
Estar certo e lutar por isso não tem valor.

O que vale alguma recompensa é ‘seguir o fluxo’ (como alguns dizem por aí).

Lembra da última vez que que foi honesto(a) com você?

Hoje, isso não é mais vital.

Você perdeu a hora pela primeira vez.
Você ofereceu seus lábios ao acaso pela primeira vez.

Os desejos deveriam ser diferentes mas o seu interior é forte.
Você escala esses precipícios como se fosse brincadeira.

Mas não é uma brincadeira.
O que se faz nesse mundinho gelado ainda se paga aqui.

Hoje você compreende o que algumas canções querem realmente dizer.
Aquilo era mesmo de verdade, não foi fabricado pra te fazer chorar.

Nessa manhã, em que tuas asas lhe dizem que nunca funcionaram você percebe que nunca saiu do chão.

Mas estar ao nível do mar vai te fazer algo que você ainda não é?

Imagem: Matteo Abbondanza

ANTICORPOS

sábado, março 20, 2010 1 Comments A+ a-



Todas as palavras que meus lábios não sabiam pronunciar:
- ‘Era tão simples fazer das cortinas um leque do tamanho da nossa felicidade!’

Minha alma age como se soubesse em qual gaveta se esconde a cura.
Os anticorpos não funcionam em patologias abstratas...
A grama desse jardim nunca foi verde mesmo, por que então chamar nossa antiga casa de lar?

Meu sorriso sempre terminou como uma página rasgada ao meio.
Ainda ouço o som da porta que se fechou atrás dos meus ombros.

Meu sangue não é vermelho o bastante. E nós ganhamos um choque anafilático.
Eu não acredito mais nas legendas dos filmes.

Por que simplesmente não guia meus dedos para os números certos?
É uma carta sem destinatário. A mensagem na garrafa.

A gente procura química onde só existe teoria.
Encontrar-se diante de um espelho quebrado é enxergar o reflexo por olhares indiferentes.

Não podemos mais pintar esse quadro sozinhos.
As cores saíram de moda. A verdade saiu de moda.
Em qual mentira devo acreditar dessa vez?

‘O amor nos leva tudo o que temos de bom e não nos dá a chance de pegar de volta as emoções que investimos.’

O verão nunca começa para os falsos apaixonados.
É apenas um inverno onde a neve ainda não caiu.

Imagem: Jonatan Kronqvist