ENCANTO OBRIGATÓRIO

terça-feira, dezembro 28, 2010 23 Comments A+ a-

Essa vida de comerciante não é fácil. Ninguém mais gasta um mísero centavo em egoísmo construtivo. Parece mentira mal contada, piada sem graça, trote de faculdade. Mas é a mais cristalina e absurda verdade.

Não que eu tenha escolhido o egocentrismo por amor ao espelho. O narcisismo é uma modalidade paralela ao amor-próprio. Por mais promíscuo e fútil que o planeta se apresente atualmente, a devoção desmedida e desesperada continua visitando as primeiras páginas dos veículos de comunicação emocional.

Desconheço em que momento específico toda a minha falsa sapiência decidiu estudar mais. Era preciso ser um monge e decorar letras miúdas de significados duvidosos.
Pode até parecer que eu tenha essa fixação em descobrir todas as respostas possíveis mas alguma parte de meus instintos neurológicos querem planejar um assassinato a todos os pontos de interrogação.
Viver de certezas parece ser algo revolucionário. Assim como quem desenha corações no ar e oferece para um desconhecido.
Entre adoração e amor existem menos ingredientes do que se imagina. E quantos não desejam morrer com essa indigestão?
Fica barato. Aliás, gasta-se mais com terapia emocional do que com desenvolvimento pessoal.

Se eu usasse a genialidade que aparento possuir certamente ficaria rico roubando o mais honesto dos sorrisos. Faria da pretensão um artifício irresistível. Seria um palestrante do exagero inesperado, de serenatas desafinadas mas deliciosamente bem-humoradas.

Não vamos viver esperando uma lápide dourada num cemitério requintado. A sepultura do desânimo é continuar respirando sem direção pra olhar.
O fantástico vai continuar sendo menor que o extraordinário.
O segredo está nas cores que você escolheu pintar os melhores dias da sua vida.

Faço do ceticismo uma fórmula para extrair sentimentos puramente honestos. Não me deslumbro com o corriqueiro mas procuro encontrar todos os mínimos encantos que se escondem na rotina.

Não abracei o entusiasmo por oportunismo. Apenas descobri que a euforia e os finais felizes combinam perfeitamente com o tamanho dos meus braços.

ROTEIRISTA DO OTIMISMO

sexta-feira, dezembro 03, 2010 35 Comments A+ a-

Não vamos ser substancialmente envolvidos pelas doses exageradas de açúcar. Por mais que eu tenha passado os últimos meses renovando o passaporte de um exército de formigas, quero exercer o meu direito de não creditar todo esse sentimento pré-férias ao famigerado ‘mel’.

Talvez pareça assustadoramente enérgico basear a melhor parte da vida na total ausência de dias comuns. Pode soar uma utopia para o planeta. Afinal, me parece tão nobre e conveniente ignorar por completo o tédio visceral que sempre nos é imputado, que talvez eu deva procurar coletes a prova de pessimistas!

Tantos aqui prolongam a sua dor cardiovascular por todo o sempre e profetizam a mesma patologia para todos os que ousam demonstrar a menor euforia. Não basta segurar a bandeira do amor, você precisa de vento para tremulá-la. E não espere que aconteça uma benção eólica para tanto. A maioria das vezes esse ar tem que vir dos seus próprios pulmões.

Calcule sua maldade. Se você sobreviver aos seus crimes terá que viver com ela. A maior cela da vida é a indiferença.

Eu estudo tanto pra fazer a sua existência não conhecer o tédio. O esforço pra ser inesquecível é indispensável em meu currículo. Eu não apenas batalho por dias ensolarados, por café na cama e por domingos intermináveis. Eu preciso ser esse arquiteto de sorrisos, esse engenheiro de gargalhadas involuntárias, esse químico de fórmulas otimistas que anseia por uma patente.


Coloque o amor na sua carteira de trabalho e TALVEZ o dinheiro nunca mais lhe seja problema.
Talvez. Porque o verdadeiro entusiasta precisa viver o exagero de muitas horas extras.

O CALENDÁRIO SEM FERIADOS

quarta-feira, novembro 17, 2010 43 Comments A+ a-

Todas as maneiras invariavelmente clichês de se proclamar uma simples mulher, adulta, sem vícios, independente e segura de suas habilidades em uma possibilidade potencial de relacionamento duradouro, eu procurei utilizar.

É o último trem para lugar nenhum. O mundo todo vestia azul e eu ganhei rosas brancas. O que ficou atrás de você não eram sombras de romances secretos que nunca soubemos nomear. Eu fico a imaginar como os surdos fazem pra ouvir o próprio coração. Como os cegos entendem o amor que não é de sua natureza. Como os mudos aprendem a cantar a música favorita de suas escolhidas. Ninguém sabe. São os jogos emocionais que os fracos não aprendem e os fortes não trapaceiam. Eu quero o espaço inteiro sem a pretensão de ser o primeiro astronauta que sobreviveu sem ar. Eu quero a amplitude do seu abraço, o universo supersônico do seu olhar, a fome da sua boca por outra coisa que não seja o almoço comum.

Eu adoro as fotos que nunca tiramos e viagens que não planejamos. Por onde você andou que não guardou as cordas quebradas do meu violão?
Eu não posso doar sangue e nem sou esse estereótipo de amor barato, distribuído nos sinais junto com os habitantes das ruas que fazem malabares e limpam vidros dos carros. A minha constância está nas noites que não dormi querendo ser alguém melhor. Ou pelo menos procurando ser nomeado pra alguma coisa que ninguém no mundo seria.

O mundo dos jogos bonitos.
O nosso mundinho unilateral em que todos deveriam sorrir sem preços altos e abraços falsos. Eu posso mudar a personalidade de qualquer pessoa, eu consigo arrancar o cinismo defensivo dos olhos de qualquer um.
Eu só consigo me apaixonar pela novidade, é isso que faz os meus trilhos não terem destino. Eu não preciso de um passaporte, eu não quero cidadania fixa, eu não procuro a rotina dos casais pseudo-felizes. Não se pode acordar com novas inspirações femininas sempre, também não acho que minha devoção possa ser direcionada a quem não entende os meus domínios sobre o campo emocional.
Meus olhos estão secos como o Saara justamente por não mais trabalhar com as lágrimas. Não as contrato em minhas filiais. Ofereço-as a todos que encontram uma necessidade de temperar a alma. A minha está exageradamente temperada.

ENVOLVIMENTOS EMOCIONAIS

domingo, novembro 07, 2010 33 Comments A+ a-

Existe algum jeito de olhar para os seus edifícios sem agradecer ao mundo?
Não fui eu que acordei na melhor parte do sono pra dizer que aprendi a reproduzir os sons melodiosos da sua voz. Deve ser um outro ser humano, que nasceu no mês de maio e acreditou que poderia ser um rock star com alguma cultura limitada sobre música contemporânea.
Eu não veria nenhuma beleza no suicídio, mas se o sangue dos meus braços fosse necessário para completar o vermelho do seu disco de Newton, eu mudaria seriamente de idéia.
A liberdade que me inventaram não tinha passado pela rua da sua casa.
Não sabia que eram duas voltas no seu portão e um grito na sua janela.
E agora, o que fazer com o universo de definições?
Como olhar os sentimentos que me fizeram um ator mau-remunerado que repudia aulas de teatro e prefere interpretar páginas que nunca foram escritas?
Meus dedos querem o absoluto de um roteiro emocional. O limite do absurdo, o doce do exagero, o mistério do incomum.
Não existem tempos verbais que representem a unidade da sua conjugação.
Eu passei em todos os sinais vermelhos e só você anotou a minha placa.
Como queria que fosse culpa do meu egoísmo. Quero estar nos créditos, quero as luzes de Vegas no jogo que inventamos.
Andei por túmulos de tentativas que fiz e rejeitaram minhas rosas. Perdi datas de aniversário, comprei presentes que não agradavam, dei roupas que não serviam. E ainda procuram a perfeição em quem já saltou do mesmo prédio tantas vezes e nunca conseguiu atingir o chão.
Sempre confundem a minha desatenção com indiferença. A minha reputação foi escrita por alguém que não sabia ler. Uma prova de que a inteligência não consegue ser abstrata. A sabedoria não mergulha em águas rasas e eu aprendi a nadar pra chegar na tecla desafinada do piano que não sabemos tocar.

Eu só soube que suas cartas eram boas o suficiente pelo tamanho da fogueira.

O FEITIÇO DO TEMPO

domingo, outubro 17, 2010 34 Comments A+ a-

Não. Eu não estou atuando.
Eu não decorei nenhuma das falas que a vida me escreveu.
Eu tenho uma dificuldade abismal para planejar.
Logo, só me resta fazer do improviso a minha armadilha de encanto sobrenatural.

Essa introdução deveria anular a maioria dos meus poderes.
Afinal, na escola de cavalheiros que me matriculei eu só tive professores substitutos.
A média de desistência era assustadora.
Eu não consegui decorar o nome de nenhum dos meus colegas de classe.
Eles não duravam. O conteúdo era maçante para quem não tinha um punhado de ouro no coração.

Devo ter escrito sobre você nos corredores do colégio.
Nem sabia suas iniciais mas já começava a colocar isso em minha caligrafia.
Buscava atualizações. Tenho me entediado com extrema facilidade desde que descobri o valor do seu entretenimento.
Não fico mais exausto. Meu sangue não coagula diante dos seus cortes.
Desisti do remédio que sempre me ofereceram. Se você for uma doença eu certamente não financiarei a pesquisa para a cura.

Necessito da evolução do seu vírus.




[É, foram longos dias, mas aqui estou. Antes de qualquer coisa, eu devo dizer que tenho sorte. Enorme sorte. É tão difícil escolher um comentário como favorito. Sinto que qualquer decisão será uma injustiça aos tão preciosos e convincentes relatos das pessoas quem lêem esse espaço. Mas eu prometi escolher e assim o farei.

A Luiza, é a escolhida da semana. Eis seu comentário:

'E quando você pensava em catar as flores, ela já lhe vinha com todo o buquê. E ainda que pouco preparado, ela aceitou cada suspiro seu e cada tinlintar de seus sinos. Se você se preocupa com o amor, relaxe e deixe que ele toque a campainha o quanto antes.'

KRIPTONITA

segunda-feira, setembro 27, 2010 34 Comments A+ a-

A resposta da minha máquina de escrever tem alguns traços da sua caligrafia.
Minhas roupas parecem confortáveis desde que você decidiu costurá-las com suas mãos.
Eu deveria te esconder. Todos querem contratá-la, todos precisam de um pouco da sua respiração, todos sabem que a sua ampulheta carrega hoje a minha versão em pó.

O engraçado é que você não apareceu me apontando uma arma e exigindo todos os meus pertences emocionais. Não foi impetuosa, não foi a gangster mais encantadora do pós-modernismo cardiovascular.
Você simplesmente olhou o que desejava, andou diante da variedade e complexidade dos meus produtos e escolheu o que faria seus encantos virarem combustível.

Eu não coloquei um cartaz de ‘procura-se’ mas algo na sua recompensa valeria a idéia.
Meus bolsos nunca estiveram tão pesados. São moedas que só funcionam em seu banco. São ações da sua empresa que se valorizam todas as vezes que decido aplicar em alguns dos seus diversos modelos de beijo.

Você não poderia ser apenas um bloco de notas. Suas páginas sugerem uma enciclopédia. E até os mais incultos desejariam cair de cabeça nos seus conhecimentos.

Pra alguém que estava pagando as prestações de um amor, como eu, você aprovou um crédito que nunca imaginei que tivesse.




[O presidente desse blog agradece a todos os comentários, em oníssono. As próximas postagens serão nominais aos comentários mais criativos e próximos da idéia original do autor. Hoje, eu vou agradecer à MÃE de uma pessoa muito interessante. Ela já leu todos os textos do Teatro, ou seja, sabe perigosamente muita coisa sobre o Brunno Lopez. Fica aqui o meu abraço e agradecimento gratuitos e honrados à ela.]

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quinta-feira, setembro 16, 2010 30 Comments A+ a-

Ao abrir uma parte do seu presente, fiquei eufórico.
E isso dura pouco e muito. As emoções no seu mundo são tão intensas e aleatórias que preciso me concentrar o triplo
do normal para poder diagnosticar o que de fato está acontecendo.
Percebo que, de perto, dá pra ver a marca das suas armas. A munição em perfeito estado. Pronta pra atirar em tudo que se movimente.
Em tudo que lhe faça parar o olhar. Em poesia, em prosa, em sonâmbulos.

Meus passos são céticos. Mas você sabe o número dos meus sapatos.
Fiz um mural para os seus defeitos, escolhi meus favoritos.
No seu livro não existe ‘THE END’, logo, todos os capítulos são imperdíveis.
Você inventa palavras, ri escandalosamente. Não cativa pelo óbvio. E eu tenho um vício ancestral pelo incomum.
Gosto da cor da sua epiderme, de como o sol não consegue lhe tatuar.
Gosto do jeito que as roupas lhe vestem. Elas te escolhem. Imploram pelos seus dedos no cabide.
Não se veste pra matar. É o próprio assassinato, a ré confessa dos encantos nesses tempos tão previsíveis. É o inesperado que todos esperam.
O imprevisto que todos adorariam prever.
A tecla do piano que nunca deixa de ser tocada.
Sua pretensão ultrapassou os 20 minutos da minha inspiração. Não por falta de argumentos, mas pela naturalidade de informações
que são assustadoramente depositadas em minhas mãos quando decido me lembrar de alguma das suas feições.

Você desperta o ciúme antes do próprio amor.

Você não faz idéia de quantas vezes desafiei sua negação para o ringue.
E eu sei que você não se esquiva pra fugir. Você só espera pelo meu melhor golpe.
Mas o nocaute não combina com o seu tipo de luta.

Eu prefiro descobrir todos os dias meios para fazê-la beijar a lona do que decorar uma regra.
E isso não faz o menor sentido. Faz o MAIOR.

TRÊS PONTOS (...)

sexta-feira, setembro 10, 2010 24 Comments A+ a-

Vivia num tempo sem leis vigorantes.
Respirava numa época onde zepelins eram helicópteros.
Jurava que minha faca nunca perderia o corte. Costumava ferir instantaneamente e agora nem me lembro quantas vezes tenho tentado lhe tirar uma única gota de sangue.
Minha sabedoria tinha um arquivo inconsciente sobre você. Autenticado em duas vias, esperando pela rubrica dos seus lábios inteligentes.
Toda a burocracia que instalei aqui me agradava gratuitamente. Mas agora eu te vejo jogando papéis importantes ao vento. Todas as suas reticências me tiraram do fã-clube do ponto final.
Eu não sabia do tamanho da sua importância. Ou pelo menos, ignorava o fato.
Eu não imaginava que estar no vagão da sua montanha-russa fosse exatamente tudo o que precisava pra me sentir feliz. Escandalosamente feliz. Invejadamente feliz. Uma felicidade tão exagerada que poderia facilmente ser o oitavo pecado capital.

Eu lhe atiro flechas num olhar disfarçado.
As pegadas sumiram, meus passos não conhecem um caminho seguro na sua direção. Talvez porque sem riscos, não existam glória nem recompensa.
As páginas de frases feitas estão ilegíveis. Nada que conheço parece funcionar, nenhuma medalha oferece algum respeito ou sabedoria.
E na outrora de sentimentos desconhecidos, os meus soldados procuravam por algo parecido.
E quantos ao todo eu poderia comandar?
Teria a ilusão como guarda-costas, e ego como assassino e o amor ficaria à paisana... Afinal, é mais cômodo e menos perigoso.

Desse quebra-cabeça eu só ignoro a paciência. A infinita cautela.
Pra que apenas me molhar quando posso ser mais um habitante de Atlântida?

Não tão distante do seu copo de vinho favorito, eu acordo para lhe fazer dormir.
De todos os presentes que ganhei, o seu tem o laço mais bonito.
Eu tenho medo de abri-lo por completo e perder a ‘eterna surpresa’ que sinto por você.

Se eu precisasse de uma única gota sua, esperaria o dilúvio todo.

DESENCANTO GRATUITO

sexta-feira, setembro 03, 2010 29 Comments A+ a-

Todas as vezes que aceito sentar à sua mesa, eu não tenho fome.
Não me agrada a cor da sua xícara, eu preciso de muito açúcar pra gostar de café. Você sabe como temperar meu prato favorito mas perdeu os ingredientes mais saborosos.
Eu já contei as voltas que dei no seu cabelo, eu fotografei as suas pupilas implorando dilatação. E onde foi encanto?
Eu sempre quis gritar mas você me deixava rouco sem abrir a boca.
A interrogação sempre foi o meu ícone favorito. Oferecia como entrada, como sobremesa. As dúvidas que sempre planto em corações de pouca vida.
Eu ainda não soube recortar as lembranças e fazer uma carta do tipo ‘pedido de resgate’.
Meu conhecimento sempre se concentrou na embalagem, nas cores e no rótulo. Hoje é estranho estar obcecado pelo recheio.
Comum agora passar pelas fases sem apreciá-las. Comum agora correr sem fôlego apenas para que você me faça massagem cardíaca.
E eu nem mais te fantasio. Eu não vou cobrir meu rosto se você decidir ser o sol.
Em seu circo, eu sempre fui o único palhaço que não precisava de maquiagem. A minha graça estava em você.

Espero agora convencer o mundo de que perdi meu uniforme de herói. E que vilões também podem estar na moda.

A NUVEM QUE ERA DE ALGODÃO... ERA.

domingo, agosto 29, 2010 15 Comments A+ a-

O mundo pode lhe parecer enorme, mas eu vejo pouco nesse canto que acordei.
Não ouço mais ninguém dizendo que temos tempo, que é possível.
Aliás, o que se ouve nesses dias?

O verão veio frio dessa vez.
Eu sinto que meus braços não alcançam o mesmo limite.
Talvez por não existir nada valioso pra se tocar.

Usei o amor como moeda e hoje não consigo comprar nada com ele.
E não posso vendê-lo.

As vezes eu penso que só abri minha loja pra você entrar.
Expulso todos os clientes que não atendam por seu nome.

Mas você não trabalha mais aqui.
E todos os currículos que chegam se queimam antes de eu poder ler a primeira linha.

PÃO-DE-MEL

sábado, agosto 21, 2010 22 Comments A+ a-

Pão-de-Mel. Um brigadeiro embaixo daquela árvore depois de correr tanto.
É doce? É rapido e indiferente?
Chuva de uva, cores vivas, um beijo.
Te convido para um passeio de balão. O mundo segura passagens de avião.
Eu agora não grito pra lhe dizer a verdade. De verdade.
Eu quero desabotoar o seu medo e olhar de perto as suas marcas de vida.
Pão-de-mel. Quanto açúcar você colocou no meu café-da-manhã?
Te olho nos olhos por não ter coragem de olhar pra mais lugar nenhum.
É a sua visão ou as sombras da vida cotidiana?
Meu anjo da guarda mudou de time e me liga toda vez que eu perco.
É o senso de humor do meu vídeocassete, do meu dvd, das minhas tecnologias que por mais antigas que sejam, conseguem ler o seu arquivo.
Meu pendrive te vê como um vírus mas te aceita.
Te coloca na corrente sanguínea digital e evoluída de alguém que abandonou os castelos e mandou a coroa de príncipe pelos ares.
Comprei rosas e embrulhei no jornal. No caderno de economia.
Ironia? Eu não economizo palavras nem para salvar o próprio cotidiano.
Mas e então? Não temos grana pro jantar, mas eu morro de fome de você.
Fico ruborizado quando o sinal fecha e o vermelho lembra o batom que você NUNCA usou.
Músicas que deixei de ouvir pra saber se seu coração batia mesmo.
Você precisava do meu sobrenome, precisava da minha coleção de selos.
Queria aplausos, queria uma perfeição que nos escondesse dos outros.
Não é a bebida que me faz mal. É o seu copo.

ESTAÇÕES

segunda-feira, agosto 16, 2010 28 Comments A+ a-

Todos aqui estão absolutamente partidos.
Arrependido por voar ali, no ombro que você me comprou.
Amores jovens à nossa mesa, um guarda-chuva para sentimentos.
A poeira do tempo me ensinou a te esculpir. Me obrigou.
Tenho aquela interrogação de como ficou o meu presente. De como meus álbuns se debatem na sua gaveta.
De como minhas cartas lhe cobrem o corpo quando faz muito frio e nenhum cobertor é suficiente.
Todos aqui estão absolutamente partidos.
Claro que não precisei comprar sorrisos. Por azar ou sorte, eu nasci sendo o maquinista da montanha-russa,
o cavalo esquecido do carrossel.
É aquela piscina na sombra dos seus olhos. Não seria vago se não fosse potencialmente angustiante.
Todos aqui estão absolutamente partidos.
Mas não sou eu que sei colar, não sou eu que fixo, não sou eu que costuro, não sou eu que faço durar.
Eu posso até segurar uma rosa. O problema é que qualquer coisa nas minhas mãos vira uma arma mortal.
A minha segurança é uma armadilha. O meu abraço não é um convite de casamento.
O meu beijo não é uma viagem de primeira classe, mas sempre vai te levar além da compreensão dos astrônomos.
Não é tão alto, mas se você cair, vai se machucar mesmo.
Ao contrário dos conquistadores ambulantes, eu sangro com as suas cicatrizes.
Se alguém toca o seu cabelo, meu ar arruma as malas.
É assim que a felicidade me cobra. Não pela perfeição da existência, mas pelos meus gastos com amor-próprio.
Eu me libertei das grades que construí com os seus sonhos esquecidos.
A minha matéria-prima e o meu produto final (o que está nas prateleiras) é você.
Isso certamente não muda com as estações.

O VIOLINO DE 3 CORDAS

terça-feira, agosto 10, 2010 33 Comments A+ a-



Sempre que abandono meu lar, sou o único a andar por essas ruas.
Até estrelas mais corajosas já foram procurar outro lugar pra dormir.
Tinha me esquecido como era ouvir o silêncio sem sentir o cheiro da sua vida.

Justo você, que se cansou dos corações partidos e chamou a polícia?
Não existe crime perfeito quando o cupido é cego.
Eu estava contando suas lágrimas quando sua pizza chegou.
Vi quando os anjos disseram que não cantariam mais pra nós.

Tinha alguém com um violino de três cordas, dizendo que a quarta era pra você.
Te coloquei na primeira fila do meu show pra aceitar apenas as suas palmas.
Minhas mãos queriam o seu analgésico que nunca funcionava.

Você não piscava os olhos quando eu te dizia que era segunda-feira.
Não vendia suas armas mesmo sem saber atirar.
Não levantou vôo com as asas de madeira, mas me mostrou poucos segundos do céu.

Sobre heróis de mentira eu construí minha pior armadura.
Tentando ser o super-homem de alguém que ainda não conheci.
Lendo histórias que não aconteceram, ficando entre a bala e a arma.

Cheguei à terra prometida mas esse não pode ser o seu país.
Não foi aqui que enterrei a melhor parte do meu coração.
Não foi aqui que decorei suas iniciais desconhecidas.
Não foi aqui que deixei o ódio se vestir de açúcar e me oferecer um café.

Espero pelo ônibus de nossas vidas.
O amor que você escondeu na sua mochila, a bagagem que se perdeu no tempo.
Não é o meu destino adormecer com esse bilhete falso.
Eu mastiguei a felicidade no meu último café da manhã.

Como posso me sentir em casa se a sua existência é o meu lar?
O filme que assisto sem legendas, a pizza que sempre peço e nunca pago.

O que não daria para conhecer a sua vida, seus medos de criança.
Não preciso de velas, não quero ser romântico.
Vivo o seu inesperado, a sua previsão do tempo, o seu comercial no meio da final da Copa do Mundo.

Somos tão estranhos, não decorei esses números que você escreveu em minha mão direita.
Não te vi sair da festa quando a banda tocou sua música.
Meus pés não veneram o chão que você pisa mas queriam dançar contigo.

Imagem: Eric Rune

EXCLAMAÇÃO

quinta-feira, agosto 05, 2010 41 Comments A+ a-



Houveram noites assim, que pensei em não rasgar as suas melhores cartas.
Meu mundo ficou colorido quando o preto-e-branco virou moda.
Mas hoje, eu não preciso mais desse seu oxigênio hipnotizante. Talvez se eu andar perto da sua calçada eu decida estacionar pra sempre. Por isso prefiro o céu.
Sempre olho seus traços com cuidado cirúrgico e folheio suas páginas religiosamente.
Você pode ser uma oração que não aprendi por mais que tenha decorado.
Você sempre vai ser um ponto de exclamação em qualquer texto que eu escreva.
Não poderia vestir alguma de minhas armaduras contra isso. Você parece ter as chaves que nem mandei fazer. Por isso é tão injusto querer aproveitar essa chuva sozinho.
Nós sempre abandonamos o sol pra dar nome as gotas que caíam do nosso céu.
Eu e você desafiávamos os furacões e passávamos nossas férias em algum vulcão ativo.
Hoje talvez eu esteja fraco.
Fraco pra roubar o sonho de alguém.
As pessoas não sabem fechar os olhos para fazer agradável um pesadelo.
As pessoas simplesmente não sabem.
Eu sei.

Mas você não sabe mais encontrar um lugar no meu travesseiro.

Imagem: Matthieu Godon

LÁBIOS DE CARNAVAL

sábado, julho 31, 2010 36 Comments A+ a-



A maioria das músicas que cantei não eram sobre mudança.
Da minha maquiagem de palhaço, só o destino ria de mim e roubava minhas piadas.
Eu quis ser alguém diferente do que meu espelho profetizava e agora eu não encontro mais as configurações originais.

Eu visitei meus heróis num cemitério sem rosas brancas.
Olhei pela última vez a distância entre as minhas mãos e o céu da sua vida.
Não existe tatuagem que possa marcar mais do que a sua mordida matinal.

Não esqueci a maneira de como os lençóis te cobrem. De como qualquer esboço soa como arte final a quem te olha desarmado.
Eu nunca soube tocar guitarra, mas toda vez que seguro uma nas mãos, ela sangra.
É o cheiro do seu quarto, da sua respiração de jardim.

É a sua capacidade de colocar o dedo na minha segunda e me dizer pra viver como sábado.
Nada combina mais com os meus sapatos do que o seu mal humor.
Eu aprendi a ver que seu sorriso só aparecem quando a situação é mágica.
E eu só preciso da sua mágica pra sorrir involuntariamente.

Eu sei que me virei quando você gritou silenciosamente.
Eu sei que você escreveu cartas pra quem nunca soube ler as suas palavras.
Eu sei que você assassinou o nosso futuro com seus lábios de carnaval.

A maioria das músicas que cantei não eram sobre mudança.

Eram sobre você.

Imagem: Hans Engbers

SEM PENSAR DUAS VEZES

segunda-feira, julho 26, 2010 35 Comments A+ a-

É inenarrável dizer o quanto sou agradecido pelas pessoas que passam aqui sempre.
Mais ainda aquelas que deixam um pouco de si em algumas palavras.
Logo voltarei com mais textos.

Hoje eu decidi colocar um vídeo (bem simples) de uma das músicas que escrevi.
Uma ótima semana a todos e muito obrigado pela atenção e tempo dispensados!

A CURA

segunda-feira, julho 19, 2010 43 Comments A+ a-



Existiam linhas quebradas naquele roteiro.
Existiam nomes desconhecidos e falas precipitadas.

Desde os cinco primeiros segundos da minha (da sua?) vida, eu tive a plena e inenarrável convicção de que nunca poderia ser um 'mestre da interpretação'.
Eu descobri que não sobreviveria encenando monólogos inteligentes e perspicazes.
Tudo o que meus olhos fotografavam, eu não conseguia revelar.

Toda aquela atmosfera. Todas aquelas cores sintetizadas numa canção sem instrumentos.
As mentiras tem seu reinado limitado mas faziam o seu sangue correr pelas paredes das minhas mãos.

O mundo vislumbra centenas de milhares de rumos aleatórios, com paisagens infinitas e histórias bifurcadas. Mas nós...
Nós sempre desejamos a mesma coisa. Vocês desejam, eles desejam.

Se a sua corda for forte o bastante, todos vão querer saber se suportam seus pescoços.
Se sua cadeira balança com ruídos engraçados, todos vão adorar esticar suas pernas.
Se suas asas são de madeira, todos vão desejar entender como você levanta vôo quando elas se queimam.

Ficaria um milhão de anos calado mas eu respondo aos seus estímulos.
Seus pulmões resolvem respirar e movimentam as partículas de ar ao meu redor.
Seus olhos decidem abrir as cortinas e lá está meu mundo sendo colorido de novo.

Na sua TV, o canal dos 'corações partidos' saiu do ar por falta de patrocinadores. E você morre em suspiros, acreditando que qualquer truque de algum mágico fajuto trará suas aspirações novamente. Pois creia.
Faça dos livros uma escada de conhecimento e se cure.

Cura.
Se o amor é sua doença, o que a cura lhe oferece?

Imagem: Aurelijus

O CAÇADOR DESLEAL

segunda-feira, julho 12, 2010 38 Comments A+ a-



Não foram os anos que aceleraram.
Não foram os números errados que você discou.
Não foram as sombras falsas que deixavam o sol passar.
Não foram os portões enferrujados de um coração qualquer.

Por maior que seja o som da minha voz desafinada, não tenho ouvidos pra direcionar.
Não creio que tenha algo substancialmente relevante pra entreter alguém.
Não acho que meus braços tenham o tamanho da sua casa.
Nem pensei em construir uma ponte sobre o muro das nossas vidas.

Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa.
Não consegui me congelar para chorar cristais e enfeitar a melhor parte do seu pescoço.
Não soube enganar a noite pra fingir te presentear com as primeiras horas do dia.

Alguém deveria roubar a honestidade de mim.
Alguém deveria me arrancar essas páginas amareladas, o meu dom condenado aos quartos empoeirados.
Alguém que provavelmente atende pelo seu nome.
Alguém que dorme numa cama igual a sua, com os mesmos quadros abstratos.

Eu não decorei o caminho de volta para os meus melhores dias. Nem sei se os vivi de verdade.
Talvez tenha mudado de faixa na melhor música do disco.
Não tenho mais o benefício da dúvida nem a certeza do provável.

Pensei que memorizaria antigos traços e melhoraria meu futuro desenhando por você.
Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade.
Eu nunca soube o que falar, mas o que balbuciava fazia um pedaço da sua alma não se esquecer do meu abraço.

Daqui eu aprecio todas as gotas da sua chuva que nunca passou.
Nunca existiam raios amarelos, o sol tinha medo de você.
Acordava só quando você estava num sono alto, com sua expressão malvada e impaciente.

Eu poderia culpar a sua existência, por ameaçar minhas desventuras.
Por jogar seus cabelos numa pista de dança e fazer sua música tocar mais alto.

Eu sei que, se a morte fosse um bem, eu seria o seu assassino.

Imagem: Lukás Zlatkovsky

O SOL DA MEIA NOITE

quarta-feira, julho 07, 2010 26 Comments A+ a-


Eu diariamente revisito os fantoches sentimentais dessas silhuetas atuais.

Não sou discípulo das estações, mas cita-las fazem simples palavras galgarem montanhas dignas de um complexo soneto.

Qualquer ambiente consegue sussurrar os segredos à minha pessoa.
Eu procuro não ouvir discretamente.

As fantasias são insípidas, mas ocasionalmente reais.
Ninguém aqui decora os textos por completo, nem improvisa.
Os botões desse controle remoto não funcionam ao seu simples toque.

Não existem emoções incontidas nem mentiras fabricadas.

Os meus passos não marcam seu jardim pois eu flutuo.


De todas as cores eu pintei esse céu. Você não faz idéia do cenário que me inspira em porcentagens cautelosas.
O que meus feitiços conquistam eu vendo. E meu preço será eternamente caro para as suas economias.
Eu não rabisco páginas procurando sintonias perfeitas e concordâncias razoáveis.
Eu faço das bordas do alvo a pontuação mais alta e reino com altivez em meu próprio domínio.

Não enxugo lágrimas de olhos vazios. Não consumo letras vagas para adentrar em ambientes de pouco fascínio.
Não vou me trajar de serpente para rastejar nas suas dependências.

Eu rio com pena.
Forte e fraco o bastante para toda e qualquer coisa.
O equilíbrio não existe, não perca seu tempo pesando suas virtudes na minha balança.

Amassei incontáveis papéis e aprendi que escrever ao vento faz com que minhas idéias alcancem todos os limites.


Ninguém ainda tem poder o bastante para ser suficientemente original em uma escolha paticular.
Ninguém salta de um prédio esperando ser salvo.
Ninguém.


Esses amores baratos expostos aos montes em lojas de conveniência.
Substituindo as balas num troco de pouco valor.

Tropeço em romances finitos, com cores fortes mas perfumes impuros.
Nem tudo o que agrada as vistas merece estar num quadro de aquarela.
O que a alma nos desenha o coração reduz a rabisco.
Ele destrói toda a arquitetura maquiada para apaixonar-se pelas linhas tortas do projeto.

Hoje nem toda essa teoria funciona a plenos pulmões.

É melhor se cortar nos vidros estilhaçados das paixões traiçoeiras do que esperar noites quentes olhando a vida passar por alguma janela de madeira.


O ÚLTIMO

quinta-feira, julho 01, 2010 23 Comments A+ a-



Meus brinquedos.
Eu perdi todas as suas peças.
Meus cabelos não sabem mais como se moldar ao vento.
E as nuvens não são tão doces assim.

O que foi que aprendemos com o final de todos os capítulos?
Muitos pularam páginas, outros rasgaram...
Eu apenas dobrei para ler mais tarde.

Então essa é a sensação de ser a última pessoa do mundo?
A última carta, o último pedaço, a última dança.

Eu me petrifiquei nesse último verão e não pude ver você desfilar na minha órbita.
Eu acordei numa dessas manhãs chuvosas e não servia mais nas minhas roupas.
Eu dei dois passos e me pareceu ter percorrido uma maratona, um infinito exagerado.

Os nós que aprendi a dar não foram fortes para prender você.
Eu te escondi naquele envelope de ouro mas meu beijo não te selou.

Não posso mais roubar os sonhos das outras pessoas.
Não posso mais inventar meus próprios sonhos.

Eu me afoguei nessa garrafa ao mar e não tenho nada escrito em mim.
E mesmo que tivesse, não existe mais ninguém pra ler.

Nunca a grama verde e o orvalho matinal me pareceram tão assustadores.
Nunca o chão me pareceu tão alto.
Nunca o céu me pareceu tão próximo.

Essas lágrimas não têm mais sal... mas continuam a escorrer até a minha boca.

Imagem: Michael Homola

EU, EM TERCEIRA PESSOA

segunda-feira, junho 28, 2010 23 Comments A+ a-



Ele não era complexo em demasia.
Um diamante lhe seria encantador, mas o ouro já valeria a pena.
O céu nunca foi o limite, apenas um trampolim para vôos mais arriscados.

E daí que seus olhos não sabiam ficar em silêncio?
Sempre o antecipavam. Sempre o levavam para a última página do seu livro misterioso.
E mesmo com eles fechados, seus gestos não sabiam esconder o que seu antigo órgão cardiovascular desejava.

Era um estudioso, um amante das lágrimas salgadas que o amor lhe fazia saborear sempre que respirava.
Já habitou castelos sem ser convidado, replantou rosas arrancadas, assassinou seus melhores
sentimentos para a felicidade de qualquer outro ser humano.

Parece que por mais que as datas não se repitam, ele continua andando na mesma
velocidade que os sonhos levam para nascer e morrer.
Como dizem... ‘Do berço à sepultura’.

Era estranho como seu andar não deixava marcas iminentes em qualquer terreno.
As suas pegadas sempre foram emocionais. Ninguém poderia simplesmente desejar enxergar seus passos.
Era preciso alguma sabedoria, algum valor incrivelmente peculiar que prendesse seu olhar por mais de 5 segundos.

Ele descobriu que as noites não falavam sua língua.
Ele sabia que as primeiras horas de um domingo qualquer eram a melhor maneira de experimentar o seu ápice.

Das mãos que segurou, nunca duvidou da verdade.

Preferia a chuva.
Afinal, o sol queima as vampiras, e ele poderia amá-las um dia desses.

Sempre enxergava detalhes ocultos e os guardava para si.
Derrubava dos bolsos elogios intermináveis que as vezes o envergonhavam.
Sinceros demais?
Precisos demais?

Não. Apenas adequados e milimetricamente escolhidos.

Nem sempre nas horas corretas. Era comum unir o encanto com o desastre.
Ele sabia que a capa lhe dava o ar de herói, mas tinha plena convicção de que precisava ser salvo.
De si mesmo, das falsas histórias, dos lençóis com perfume demais.

A vida toda, tinha a própria imagem de companheira ideal.
Ou pelo menos, gostava de pensar assim.

Era tudo doce e lento demais. Talvez isso não fizesse seu coração entrar em forma.
Nunca estaria pronto para uma verdadeira tempestade, quando acontecesse.
Ele gostava de olhar a cor da vodka nos copos baratos.
Lhe interessava.
Mais do que qualquer outra coisa.

Nenhuma silhueta feminina o fazia desviar, nem ao menos parar seu raciocínio.

‘Quantas histórias dentro de uma mesma música’, ele pensava.
E guardou sua gaveta de amores exterminados.
Ele não sabia como escondê-la de si mesmo.
Talvez por medo de não saber rir de como era idiota.
Medo de não saber mais interpretar os papéis que lhe eram indicados pela vida.

Ninguém parou pra pensar que nas nossas vidas a maioria dos dias são rigorosamente iguais e
sem surpresas maiores que festas surpresas?

Não. Ninguém. E nem ele.

Ele sabia que o amor não passava de um tapete mágico que sobrevoava as misérias humanas.

DIÁLOGOS DECORADOS

terça-feira, junho 22, 2010 25 Comments A+ a-



Vou emoldurar todas as suas fotos produzidas.
Decidi amarrar teu corpo nas arestas do amor e te arremessar dentro do meu barco de papel.
Descobri que entre meus cobertores existe espaço para o seu tipo de confusão.
Penso que sua peça não pode ser encenada com diálogos decorados.
Nenhuma atriz conceituada saberia representar tuas infinitas feições diabólicas e apaixonantes.

Vou cantar músicas que ainda não te fiz.
Decidi prender a sua liberdade no meu pulmão sadio.
Descobri que entre meus cabelos seus dedos conseguem correr sem medo.

Penso que seu livro não pode ter um final clichê.
Nenhum escritor entenderia que não existem páginas suficientes para seu personagem.
E existe tantos 'eu te amo' dentro de cada letrinha que digito que quase posso ouví-las.

Algumas das vezes em que sua voz não saiu, eu estava com ela.
Eu segurei em alguma parte do seu vestido que não era possível se soltar.
Você foi obrigada a dançar comigo e a banda errou todas as músicas.

Eu pensava que uma noite me salvaria mas você nunca enxergou minhas asas.
Anjos te entediavam e hoje meus pés deixam rastros no chão do nosso quarto.
Meus pesadelos ganharam o açúcar que você deixa escorrer pelos teus dedos.

Minhas roupas ficaram desconfortáveis ou é só o seu abraço que passou a se vestir melhor em mim?
Seus poderes conseguem fazer um feriado com a minha pior parte.
Talvez porque a melhor parte esteja em seu poder desde o dia que reconheci o número da sua casa.

Imagem: Lucy Ottoki

A MENTIRA DE VERDADE

sexta-feira, junho 18, 2010 21 Comments A+ a-



Como começar um livro de um capítulo aleatório?

Eu não sei o seu nome, mas sei suas músicas favoritas e o nome do seu cachorro.
Eu não sei como prefere seu café, mas sei que nos domingos de manhã você não gosta de ouvir bom dia.
Eu não sei o toque do seu celular, mas sei que adoro quando você cheira as pontas dos seus cabelos.
Eu não sei onde você mora, mas sei que massagens nos pés te acalmam de maneira deliciosa.
Eu não sei qual o seu perfume, mas sei que perto do seu pescoço até os mais doces anjos desejam ser humanos.
Eu não sei o formato das suas mãos, mas sei quando as seguro, o outono ganha flores.

Você deve ser o último trem da estação. Aquele que quase ninguém consegue esperar.

Imagem: Darin Wissbaum

IMUTÁVEL

quarta-feira, junho 16, 2010 11 Comments A+ a-



O meu presente divino, que curou minhas cicatrizes, me ensinou a ver as horas, reconstruiu as minhas asas, amarrou meus sapatos e me fez acreditar que cada segundo tem seu valor peculiar, continua a respirar meus ares estranhos. 
Se existisse um número exato do infinito, eu passaria a eternidade escrevendo em seu nome. E não chegaria perto do seu total valor e beleza.

Por anos, as cartas de amor eram pra você.
Eu não podia desenhar seu rosto e outros olhos as leram. Mas, de uma forma inexplicável, todas aquelas palavras só tinham o seu destino. Nenhuma figura de linguagem lhe pode ser atribuída.
O que hoje nos honra e nos faz respirar o mesmo ar?
A enciclopédia das definições não tem esse verbete. E isso também não poderia ser escrito. Uma reprodução sua para as civilizações futuras não existiria.
Não existem palavras suficientes, nem imagens, nem sons, nem nada.
E naquelas madrugadas em que procurei bater o recorde de lágrimas derrubadas, eu reguei involuntariamente o seu jardim.
Enquanto eu assassinava as donzelas fraudulentas, sua silhueta ia pintando o quadro da minha vida.
Mas isso não se percebe. O coração continua batendo, os sinos dobram, as nuvens dissipam. 
O vencedor que adormece dentro de mim parece ter um sono pesado demais. Será que está respirando? Será que está vivo? Será que está lá?
Essas interrogações são tão sinceras.
E ninguém além de mim deveria fazer idéia das respostas. 

Eu tenho um anjo ao meu lado. Um anjo personificado. Um anjo que sabe me amar quando preciso e me ferir quando mereço. 
Eu teria que pavimentar a estrada por onde ele passa. Não se trata de adoração, nem de gratidão. O amor não pode ser grato. O amor não pode ter pena. O amor não pode ser fabricado. O amor não pode ser fantasiado. 
Do que se trata então? Eu não sei. 

Tudo o que é indescritível merece respeito. 

E a aurora que envolve minha alma é sua.

Imagem: Jeronimo Contreras

O SORRISO AO CONTRÁRIO

terça-feira, junho 08, 2010 14 Comments A+ a-



A todos vocês que se despediram de mim, que não mais se escondem embaixo do meu guarda-chuva. Ele deve ter perdido a graça, assim como o dono dele.
Nenhum fantasma do passado tem força suficiente pra mudar os atuais sentimentos.
Não é preciso uma balada melosamente romântica pra me fazer escrever abaixo da calçada.

Com melancolia iminente eu crio esse capuz existencial que infelizmente só serve pra mim.
A minha temperatura condiz com a necessidade do seu aquecedor?
Você sente o prazer de todo o meu gelo, das gotas congelantes, das brisas arrepiantes?

Eu sou o único em preto-e-branco nesse horizonte colorido.
É comum aos desesperados desafiar o rumo natural das coisas.
Beber toda a água da cachoeira, nadar contra ela... Tingir o céu de qualquer outra cor que não seja o azul das manhãs ou o preto das noites.

Eu estudei tanto pra ser seu anjo da guarda. Eu esqueci da minha própria vida. Eu passei apenas a estar onde sua respiração precisasse de ar.
Não seria difícil encontrar beleza em flores murchas, sedentas por uma faísca de sol.
Eu encontrava dádivas em tudo, eu escutava apenas os sons agradáveis, eu não enxergava a penumbra.
Nesse vale opaco, apenas minhas notas sucumbem.
Eu tenho todos os dados mas o mundo joga roleta.
Eu tenho todas as cartas mas sou o pino do boliche.
Queria saber o porquê dos meus traços estarem incompletos na ilustração de nossas vidas.

Eu não sobrevivo sem seu pólen, sem seu zunido familiar, sem qualquer coisa doce que você venha a produzir.
Não escolhi os cantos para me sentar mas toda sala parece grande demais sem a sua silhueta.
O amor não nos ensina nada. Apenas nos cobra e nos força a eternamente enaltece-lo em seu estado de paixão, onde todas as portas se abrem facilmente.
É involuntário pra mim defender sua existência. Quase sempre desperto de um devaneio qualquer levantando a sua bandeira. Seus degraus são como manuais de instrução que decorei por completo, mas não os abandono com medo de esquecer todas os seus desejos favoritos.

Bom seria se a tristeza fosse apenas um sorriso ao contrário.

Imagem: Andrew Berezovski

TEMPERATURA

terça-feira, maio 25, 2010 14 Comments A+ a-



Alguma espécie de vento roubou algumas das fotografias que você segurava.
Tirou o esmalte das suas unhas e te fez esquecer algumas canções que sabia de cor.

Eu não estava tão perto pra saber a velocidade dos seus passos.
A novidade decidiu te abraçar de um jeito carinhosamente maldoso e esse tipo de golpe eu não
costumo reagir.

Os anos em que enxergava apenas o meu reflexo nos espelhos empoeirados se foram.
Você ficou com meu disco sem faixas, com o pior dia da semana e ainda assim eu gargalho gratuitamente por andar nas escadas da sua nova casa.

Vidas que você regou sem lágrimas doces.
Sem verões extremamente quentes.
Eu sabia que as estações não conseguiriam mudar a sua própria temperatura.

As vezes eu acordo nesse parque de diversões e não tenho mais medo dos brinquedos.
Os fios do seu cabelo sabem o tamanho de seu próprio perigo.

Queria ter visto como amarrava seus sapatos, como parava o tempo.
Eu, que nunca soube desenhar direito, te reconheci num esboço antigo.

Precisava arranjar uma forma de sabotar os seus livros velhos.
Páginas que você escreveu sem a tinta da minha caneta.
Não dá pra esperar a justiça poética e minhas mãos não são tão maiores que as suas.

O que minha jaqueta cobre é propriedade da sua boca e de todas as suas extensões.

Não foram noites demais que passamos olhando pro relógio?
Desejando que a manhã viesse como um novo capítulo ?

Os tolos comparam pessoas a anjos.
Ninguém pode voar assim, de graça.

Eu não preciso de horas parado num dos seus melhores olhares pra entender que não existe lugar mais alto do que esse.

Você queria apenas um bom dia e eu te desejei um mês inteiro.

Imagem: Demjan Rozman

300 MINUTOS

sexta-feira, maio 21, 2010 4 Comments A+ a-



Um romance cardiovascular não se aplica ao seu desenho.
Essa trilha sonora não combina com as roupas que você cria.
As vezes olho seu guarda roupa e não enxergo tudo isso que te veste.

Não entendo como suas mãos conseguem mudar a beleza de lugar.
A naturalidade dos seus movimentos deveria ser pesquisada.
Com dedos tão pequenos, como consegue segurar um pedaço do mundo?

O egoísmo fica invejável em sua silhueta.
Sei que seu chão é de madeira mas aqueles pregos são de ouro.
O seu exagero me mostra que só sangra quem sabe sentir o prazer de coagular.

O mundo pode ter se cansado das palavras gentis em madrugadas de chuva.
De solos com guitarras desafinadas e interpretes falsos.
Eu não saberia jogar uma pedra na sua janela só pra te acordar do seu melhor sono.

Você esteve nessa gaveta e é maior que o armário todo.
Se você fosse uma definição de mentira, a verdade seria expulsa dos tribunais.

Imagem: Vinod Kumar

CHAVES FALSAS PODEM FUNCIONAR

quinta-feira, maio 13, 2010 8 Comments A+ a-



Se o ser humano soubesse valorizar o acaso como uma espécie de presente sem laço, tudo seria muito mais dourado.
Por que abrir os olhos antes de qualquer outro e não conseguir mover um só músculo enquanto não lembrar o que acabou de sonhar?

Quando se decidirem olhar traços e não roupas, aromas e não perfumes, certamente a felicidade parecerá ter as suas adoradas 10 letras. E você saberá saboreá-la em sua magnitude.

O que diversas vezes me ruboriza é o fato de sempre nos fadarmos a pensamentos como 'era feliz e não sabia'.
Se seu rosto conseguir formar um esboço de sorriso, o mínimo que o universo pede é que você tenha a decência de saborear esses tipos de sentimentos carnavalescos e regados de utopia.

Deveríamos aprender que o planejamento é apenas uma forma de adiar a surpresa. Um modo conservador de se ter um 'falso controle' dos desdobramentos cotidianos futuros.
Não quero que você pule sem para-quedas, nem que comece a praticar caça a arraias venenosas.

Simplesmente mude de rua, use um cachecol ao contrário, peça outro tipo de bebida.
O mal do planeta não está nos incorretos, está nos menos aptos.
Você pode ser infinitamente inteligente, mas isso é jeito de se amarrar um sapato?
Quem são essas pessoas?
Por que o seu celular tem esse toque esdrúxulo?
Quantos anos estão marcados aí na sua carteira de motorista?

Não existe um segredo pra nada.
As verdades e mentiras sempre vão decidir como a sua noite termina.
Todos temos poderes e a maioria não sabe usar.

Voar continua sendo para os pássaros, e se você não estiver apaixonado de maneira assustadora e dolorosa (porque TEMOS que nos ferir), o seu destino é continuar com suas patinhas no chão. (Patinhas, porque desistir do mundo apocalíptico amoroso não é coisa de homo-sapiens).

Imagem: Igor Zhuravlev

MALDADE SINCERA

sábado, abril 24, 2010 2 Comments A+ a-



Ninguém teria sabedoria suficiente pra se arriscar a definir as inúmeras espécies de felicidade que respiram por aí.
A minha, sinceramente, é ainda mais complexa.
Se eu parasse de respirar pra poder me concentrar nos sons deliciosos que você faz, certamente eu morreria, mas saberia mais sobre as suas habilidades.

Se fôssemos dois robôs sem alma, que caminhassem programados para vender uma espécie de sentimento meteoricamente abstrato e irresistível, talvez não conseguíssemos esse nosso ‘improviso ensaiado’.

Nesses dias, ficou comum soarmos egocêntricos e convencidos.
Ninguém parou pra ver as noites que não quisemos dar boa noite para o mundo, em que não fizemos do álcool a mentira para nossas verdades, em que não sentamos no último lugar do cinema pra rir de quem tentava assistir o filme.

Sinto as vezes que, quando conseguimos estar juntos, apontamos uma arma para a cara do planeta.

Imagem: Tim Kaminski

FOTOSSÍNTESE

domingo, abril 04, 2010 7 Comments A+ a-



Nem todos nós nascemos com um punhado de ouro nos bolsos ou números premiados de uma loteria qualquer.
A maioria muitas vezes nem saberá sorrir com isso.
A vida nem sempre gosta muito desse tipo de sentimento.

Seríamos mais fortes se focássemos em algo que realmente nos fizesse acordar algumas horas mais cedo. Algo que nos incomodasse, nos desafiasse como os antigos ‘chefões’ de videogame.

Tudo que demande alguma estratégia, algo não automaticamente dedutível é muito mais cativante.
E mesmo que não existam muitos dispostos a mudar de rota pra conseguir algo menos insípido, eu aprendi que descomplicar é uma chave bem barata para as fechaduras mais caras desse mundo.

Eu não preciso mais pré-datar meu sorriso.
Nem o seu.
Nem o de ninguém.

Pra quem gosta da chuva, o sol nunca fez mais do que fotossíntese às plantas.

Imagem: Jinpyoung Choi

AS QUATRO LETRAS

terça-feira, março 30, 2010 1 Comments A+ a-



Eu ainda não consegui achar uma associação para tais letras.
Talvez apenas outra resposta para uma pergunta que você ainda nem formulou.

É fato que o amor que nos venderam não foi feito na última poltrona do cinema.
Não estávamos perdidos naquele filme sem título?
As pessoas cronometram seus próprios desejos. Pagam em espécie. Adormecem.
E os sonhos? São apenas guloseimas de padaria?

A decepção é a evolução do amor.
O Último Andar que a Cecília Meireles não quis explicar.
As cores que somem quando o seu melhor sono não vem.

O amor não permite esse eufemismo.
Ele quer seus dois braços pra você acabar voando como Ícaro.
Talvez o segredo esteja ‘no processo’
Talvez a felicidade esteja nisso.

A felicidade está no nó da gravata, no zíper pela metade, de um vestido qualquer.
Está no caminho pro carro, nos depósitos mensais em contas conjuntas.

Está na intenção do beijo, na formação de um abraço.

E é tão difícil de sentir isso em seu momento vitalício.

Imagem: John Georgiou

OS HERÓIS QUE NÃO USAVAM CAPAS

segunda-feira, março 29, 2010 0 Comments A+ a-



Era uma cartola que eu vestia.
Estava por ali, te apavorando, como uma taça do seu vinho favorito.
Andava pelas intermináveis escadas dos seus sonhos sem perder meu fôlego.

Minha capa estava cansada de definições.
Morria por um anjo qualquer. O vermelho do seu batom falso marcava tão bem.
Talvez fosse mesmo um truque, daqueles que treinamos na frente do espelho.

Poucas palmas fizeram das nossas músicas um sucesso.
Talvez eu esteja pálido, não pela ausência do sol mas pelo excesso de chuva.
Quem deu bom dia para os melhores dias de sua vida?

Então, com toda essa armadura de saudade-mágoa, qualquer batalha soa insignificante.
Me deixe com meus livros, com minhas páginas aleatórias. Eu tenho alguns personagens heróicos o bastante.

Será meu inverno perfeito?

Imagem: Steve Dehanne

INVISÍVEL

quarta-feira, março 24, 2010 6 Comments A+ a-



Um dia você desperta numa manhã qualquer e descobre que seu celular parou de tocar.
Descobre que sua roupa não combina e que seu cabelo não é o cartão de visitas que você imaginava ser.

Numa dessas manhãs (ensolaradas ou chuvosas, pois isso não importa mesmo) em que abrir os olhos não lhe soa tão natural assim, você percebe que suas mãos perderam o formato.
Você começa a ouvir sua própria respiração.

Você pega toda a sua gaveta de sentimentos e fica em dúvida se os coloca pra lavar ou se livra deles de uma vez.
Algo em você lhe diz que cócegas não funcionam como estimulante verdadeiro de felicidade.
Seus olhos entendem agora o marasmo dos telhados cinzentos. Nós nunca olhamos pra eles, mas hoje, você está em outro momento.

Tudo o que lhe impressionava poeticamente, toda a fantasia, todas as cores que você vivia exaltando em sua personalidade, parece uma farsa pra você.

Depois da tempestade, não deveria existir a bonança?
É o que sempre lhe venderam... e você comprou isso todos os dias, sem pestanejar.
Talvez você nem saiba o que significa ‘bonança’.
Mas isso também não faz mais sentido agora.

As horas em que você teve superpoderes, quantos você salvou?
Nunca nos explicaram que talvez os poderes fossem pra nos salvarmos de nós mesmos?
Mas essa é uma música ruim de ouvir e que toca numa estação insintonizável.
As ruas que você sempre evitou hoje são as únicas que abrigam os seus passos.
O planetinha perdido e superficial que você sempre ignorou te convida pra dançar.

Você conhece as regras e nunca as quebrou. E quando as quebra, o coração se parte em pedaços tão pequenos que conseguem atravessar o buraco de uma agulha.
Mas hoje, não existem mais romances cardiovasculares.
Logo você não poderá encontrá-los nem mesmo nas locadoras.

Esse jogo que aprendemos há tanto tempo, ninguém ouviu falar.
Ninguém quer saber que peças faltam, que cores dão mais pontos.
Tudo lhe arrebata de uma forma desinteressada, como um momento que morrerá daqui a pouco.

A razão não tem valor.
Estar certo e lutar por isso não tem valor.

O que vale alguma recompensa é ‘seguir o fluxo’ (como alguns dizem por aí).

Lembra da última vez que que foi honesto(a) com você?

Hoje, isso não é mais vital.

Você perdeu a hora pela primeira vez.
Você ofereceu seus lábios ao acaso pela primeira vez.

Os desejos deveriam ser diferentes mas o seu interior é forte.
Você escala esses precipícios como se fosse brincadeira.

Mas não é uma brincadeira.
O que se faz nesse mundinho gelado ainda se paga aqui.

Hoje você compreende o que algumas canções querem realmente dizer.
Aquilo era mesmo de verdade, não foi fabricado pra te fazer chorar.

Nessa manhã, em que tuas asas lhe dizem que nunca funcionaram você percebe que nunca saiu do chão.

Mas estar ao nível do mar vai te fazer algo que você ainda não é?

Imagem: Matteo Abbondanza

ANTICORPOS

sábado, março 20, 2010 1 Comments A+ a-



Todas as palavras que meus lábios não sabiam pronunciar:
- ‘Era tão simples fazer das cortinas um leque do tamanho da nossa felicidade!’

Minha alma age como se soubesse em qual gaveta se esconde a cura.
Os anticorpos não funcionam em patologias abstratas...
A grama desse jardim nunca foi verde mesmo, por que então chamar nossa antiga casa de lar?

Meu sorriso sempre terminou como uma página rasgada ao meio.
Ainda ouço o som da porta que se fechou atrás dos meus ombros.

Meu sangue não é vermelho o bastante. E nós ganhamos um choque anafilático.
Eu não acredito mais nas legendas dos filmes.

Por que simplesmente não guia meus dedos para os números certos?
É uma carta sem destinatário. A mensagem na garrafa.

A gente procura química onde só existe teoria.
Encontrar-se diante de um espelho quebrado é enxergar o reflexo por olhares indiferentes.

Não podemos mais pintar esse quadro sozinhos.
As cores saíram de moda. A verdade saiu de moda.
Em qual mentira devo acreditar dessa vez?

‘O amor nos leva tudo o que temos de bom e não nos dá a chance de pegar de volta as emoções que investimos.’

O verão nunca começa para os falsos apaixonados.
É apenas um inverno onde a neve ainda não caiu.

Imagem: Jonatan Kronqvist